21/1/19
 
 
António Rodrigues 14/01/2019
António Rodrigues
Política

antoniorodrigues@newsplex.pt

Montenegro, um Sancho populista

O antigo líder da bancada parlamentar do PSD andou a minar a liderança de Rio para se apresentar agora às eleições internas com um ano de atraso. Como diz Rangel “não é bom para a democracia”

As táticas recentes assumidas pela direita populista e a extrema-direita na sua estratégia de assalto ao poder deixaram de ser a de dividir para reinar e transformaram-se num minar para derrubar. E nessa ânsia de conquistar o poder não hesitam em assumir qualquer meio ao dispor para alcançar os seus fins.

Luís Montenegro veio mais uma vez demonstrá-lo na sexta-feira.

Um ano depois de, por opção própria, se ter excluído das eleições para escolher o sucessor de Passos Coelho à frente do PSD, o ex-líder da bancada parlamentar social-democrata chega-se à frente para ser o salvador de um partido que não está a precisar de salvação, não o chamou para essa salvação e sem que se note na sociedade qualquer vaga de fundo que pudesse usar como desculpa para este enorme sacrifício.

Independentemente do estilo - com alguns tiques autoritários aqui e ali, uma necessidade de demonstrar constantemente a sua superioridade moral, a sua aversão quase insultuosa à imprensa, a que se juntaram vários percalços ao longo do caminho com alguns dos que foi buscar para a sua equipa -, Rui Rio tem uma estratégia de liderança por mais questionável que seja.

O seu estilo de oposição ao governo passa por assumir iniciativas de meio fundo e fundo, como gosta de dizer, e descurar a guerrilha quotidiana, apostar em pactos interpartidários para reformas que considera imprescindíveis (como a da justiça em que tem trabalhado ao longo deste ano), discussões que classifica como fundamentais e voltar a centralizar um partido que Passos Coelho inclinara para a direita.

A sua liderança é aquela que foi sufragada por 54% dos votos fez ontem exatamente um ano. Assim se apresentou aos militantes e assim ganhou.

Luís Montenegro não concorda com as ideias, com o estilo, nem sequer parece nutrir por Rio muito respeito. A sua visão política para o partido é substancialmente diferente. Mas ele não se apercebeu disso agora. Não é uma conclusão a que chegou depois de um ano a assistir à liderança de Rio.

Montenegro já sabia que não gostava da liderança de Rio antes mesmo de Rio ser líder, podia ter defendido essa visão diferente perante os militantes sociais-democratas nas urnas, colocando o seu projeto para o partido a sufrágio. Escolheu não o fazer. Preferiu taticamente esconder a mão e não arriscar uma derrota.

Volta agora, depois de um ano em que ele e os outros passistas se dedicaram a desgastar a liderança do PSD, numa despudorada guerrilha de bastidores aberta ao público em que tudo foi permitido, ajudados por uma fecunda cumplicidade com a imprensa.

Aquilo que Montenegro andou a fazer ao longo deste ano de liderança de Rui Rio foi uma permanente campanha eleitoral para ter as condições que antes não tinha para conquistar o poder no PSD. Agora que acha tê-las dá um passo em frente para ir às urnas, o seu único problema é que não há eleições internas no partido neste momento. Como disse Isabel Meirelles, vice-presidente de Rio, aquilo que Montenegro está a tentar fazer é “um golpe de Estado”.

A quatro meses das primeiras eleições que Rio terá de enfrentar na liderança do PSD, Montenegro sai das sombras onde andou a conspirar, despe o fato de comentador político e descreve o cenário de caos e de rumo ao abismo do PSD para justificar o injustificável, baseado em nada mais do que números de sondagens.

O homem que perdeu as eleições para a Câmara de Espinho tem um currículo tão pequenino que das 15 linhas de Wikipédia que merece, sete são para as controvérsias em que se viu envolvido, nomeadamente “soube-se que era um dos sete deputados da XIII legislatura que detinham mais de 10% do capital de empresas ou de sociedades de advogados que ganharam contratos com o Estado português, o que é ilegal”.

Mesmo assim, o fiel escudeiro de Passos Coelho acha que, a quatro meses das eleições, tem reunidas as condições necessárias para “galvanizar os portugueses em torno de um tempo de esperança: esperança para os empresários, que querem arriscar novos negócios, para os trabalhadores, que aspiram a melhores salários, e tempo de esperança para os mais desfavorecidos”.

É a afirmação de um discurso demagógico, populista e perigoso que andamos a escutar na boca de outros dirigentes da direita que nos últimos anos têm adotado estratégias de guerrilha para obrigar os líderes moderados a desgastarem-se numa contínua justificação das suas políticas, a fletirem, muitos deles, o seu discurso para a direita na ânsia de não perderem o apoio do eleitorado.

Podemos discordar de tudo em Rui Rio, do seu estilo, das suas políticas, da sua perspetiva da sociedade e até da vida, mas o seu projeto foi a votos e ganhou. O homem que foi presidente da Câmara do Porto, a segunda maior cidade do país, durante três mandatos, tem obra feita, uma visão política, não é um Sancho qualquer de um duvidoso D. Quixote (Passos Coelho). Como diz o insuspeito Paulo Rangel, a atitude de Luís Montenegro “é negativa para as instituições e para a própria democracia”.
 

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