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Silvio, os outros e a Itália de novo na mira de Sorrentino

Silvio, os outros e a Itália de novo na mira de Sorrentino

Cláudia Sobral 06/12/2018 23:28

O realizador que vem retratando os excessos da elite italiana voltou-se para a sua figura-chave. “Silvio e os Outros” chega hoje às salas. Humanizando Berlusconi, mas sem o perdoar

Podia ser uma espécie de prova cega cinematográfica. O cabelo pintado a não conseguir disfarçar um transplante capilar, a conversa de quem diz o que tiver que dizer desde que o resultado seja o que quer. Se não for Silvio Berlusconi será quem este empresário que afinal é político também na pele do qual reencontramos Toni Servillo?

No regresso à colaboração com Sorrentino, um papel maior do que todos: o primeiro-ministro italiano por quatro vezes, entre 1994 e 2011, que sem pudor se fez protagonista de escândalos e conflitos de interesse para todos os gostos - foram 20 os casos levados à justiça, com uma condenação por evasão fiscal, outra por ter contratado uma prostituta menor e ter usado o seu poder para encobrir o caso. Foi o ano em que a “Forbes” o colocou entre os 200 homens mais ricos do mundo. Enquanto os escândalos desfilavam diante dos olhos da opinião pública italiana e internacional, Sorrentino ruminava na ideia de um filme. E, depois de “A Grande Beleza” e a “Juventude”, depois de “Young Pope”, a série em que ficcionava a chegada ao Vaticano do papa mais jovem da História, interpretado por Jude Law, para uma crítica humanizada à Igreja Católica, Paolo Sorrentino volta-se para a personagem mais real das últimas décadas da política - e da cultura pop - italiana. Sem subterfúgios, sem insinuações ou meias palavras. 

Eis Berlusconi. Magnata dos media e do mercado imobiliário, o mais corrupto presidente da história recente da política italiana, aqui Silvio. “Silvio e os Outros”, no título em português, porque Berlusconi só foi possível entre os outros. Um grupo que para o realizador será mais abrangente do que o grupo de empresários e de políticos que se movimentavam em torno do primeiro-ministro italiano entre os anos de 2006 e 2009 a que reporta o filme. “Todos aqueles que entre nós não tiveram a coragem de propor uma alternativa real à rápida ascensão de uma personalidade muito forte”, especificou em entrevista à “Variety”. 

Para lhes apontar o dedo, ninguém mais certo do que Sorrentino. O realizador italiano que, procurando cumprir a melhor tradição de Frederico Fellini, nos habituou a uma crítica aos excessos pela sua elevação a um extremo insuportável. Talvez por isso sejam tão desconfortáveis os seus filmes, que não passam sem essa crítica. “É uma antiga controvérsia que existe também para os filmes violentos. ‘Se fazemos um filme violento, é porque estamos a glorificar a violência’, e por aí fora”, respondeu à “Vulture” a propósito da estreia de “Loro”, no título original, no TIFF de Toronto. “Mas qualquer pessoa, por mais abjeta ou deplorável que seja, pode ser potencialmente interessante para se colocar no ecrã. Levar alguém ao ecrã permite-nos compreender o que de outra forma seria distante ou incompreensível.” 

E se daqui ninguém sairá glorificado - pelo contrário - o mais difícil aqui conseguiu-o Servillo, companhia já regular do realizador italiano: humanizá-lo num espetáculo que ainda assim virá apenas mais contra do que a favor dele. “A dimensão do prazer tem para mim um significado muito simbólico no filme. Berlusconi, neste filme como na vid, trouxe ao mundo da política um espetáculo típico do show business”, disse o ator nessa mesma entrevista, ao lado de Sorrentino. 

“Não é uma questão de as pessoas elegerem um representante, mas de serem seduzidas por um mestre da fraude. E claro que o principal elemento da sedução é o prazer. No filme há, por exemplo, uma representação excessiva do corpo, usado como metáfora para o prazer superficial que líderes deste género impõem. O Berlusconi é bem sucedido na superficialidade: não ir demasiado fundo, não olhar demasiado de perto, e toda a gente se vai divertir.”

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