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Síndrome do impostor. O fantasma que assombra os bem-sucedidos

Síndrome do impostor. O fantasma que assombra os bem-sucedidos

Sofia Martins Santos 06/12/2018 15:09

Têm carreiras de sucesso e aparentemente tudo para se sentirem realizados. No entanto, não conseguem ver mérito no percurso. Chamam-lhe sorte e acham que não merecem o que conquistaram

Michelle Obama foi o gatilho para uma discussão maior sobre a síndrome do impostor. Muitos podem não conhecer este nome, mas o mais provável é que conheçam bem os sintomas e as consequências. Durante a tournée para promover o seu livro de memórias, a ex-primeira-dama dos EUA revelou que não acredita totalmente em si mesma, até porque poucos motivos lhe parecem existir para que se leve a sério. 

“Ainda tenho uma pequena síndrome de impostor, nunca desaparece (...) É tipo, ‘estão mesmo a ouvir-me?’ Sou apenas Michelle Robinson, a menina do sul de Chicago que andou na escola pública”.

Ainda que exista quem se tenha surpreendido por ver a ex-primeira-dama a mostrar, perante o mundo, algumas das suas inseguranças, Michelle Obama admite que este tipo de postura é cada vez mais importante e necessária. “Dou esperança, há uma responsabilidade”, explica, acrescentando que a partilha de experiências é importante, porque inseguranças todos têm. 

O tema ganha mais importância porque não é a primeira vez que alguém tenta dar, publicamente, um nome a este fantasma que afeta mais pessoas do que se pensa. Em 2015, Emma Watson foi um dos rostos. Depois de já o ter feito dois anos antes, a atriz voltava, nesta altura, a admitir que muitas vezes olhou para toda a sua carreira e conquistas com a sensação de que não merecia nada do que lhe tinha acontecida. Mérito? Não. Tudo merecido? Não. Melhoras? Não. “Quanto melhor me correm as coisas, maior é o meu sentimento de inadaptação [...] Penso que em qualquer momento alguém vai descobrir que sou uma fraude e que não mereço nada do que conquistei”, admitiu a atriz, que está cada vez menos sozinha na lista de figuras públicas afetadas.  

Tina Fey, Michelle Pfeiffer, Maya Angelou, Neil Gaiman, Renée Zellweger, Kate Winslet, Seth Godin, Tom Hanks, Don Cheadle, Jodie Foster e Sheryl Sandberg são alguns dos que já deram o rosto por esta síndrome, que afeta muitos profissionais de sucesso. 

De acordo com um artigo, publicado no Behavioral Science, estima-se que 70% dos indivíduos venham a experienciar esses sentimentos durante algum momento das suas vidas. Mais: De acordo com os profissionais de saúde mental, ainda que as mulheres sejam as mais afetadas, este fenómeno pode ganhar proporções em todos os grupos. 
O principal pilar desta síndrome é a ideia de que se é bem-sucedido apenas por sorte, e não como resultado de ter talento ou qualificações. 

O que é? Este transtorno foi identificado em 1978 pelas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes. No artigo que publicaram nesta altura, teorizaram que as mulheres eram as únicas afetadas por este fenómeno. No entanto, hoje sabe-se que não é verdade. Mas afinal qual é a diferença entre esta síndrome ou uma crise de ansiedade gerada por inseguranças? 

Ao i, Carlos Poiares, professor de Psicologia Forense, explica que falamos de “uma perturbação que tem andado muito calada”: “Foi falada pela primeira vez na década de 70 e é consequência de uma baixa autoestima. As pessoas conseguem bons resultados, mas acham que não merecem. Acham que um dia vão dar com os burros na água e que quem as rodeia vai ver que não prestam”.

Entre os comportamentos mais visíveis neste grupo de pessoas está o facto de se “autoboicotarem” e “serem os seus piores inimigos”. “É um círculo vicioso. Estão sempre com medo de falhar porque não há perceção das verdadeiras competências. Surgem questões de ‘porquê eu e não outro?’ Isto provoca uma grande erosão na pessoa”, explica.

“Claro que há quem confunda com crises de ansiedade”. Então qual é a barreira? Carlos Poiares esclarece que um jovem sentir-se sem competências durante a apresentação de uma tese de mestrado, por exemplo, é um comportamento normal – existe um motivo e é um episódio. A síndrome é mais do que isto: “Vou dar o exemplo de um trabalhador que todas as segundas-feiras entrava em pânico porque tinha medo de receber um e-mail a dizer que tinha sido despedido. Todas as semanas ia mais cedo, porque acreditava mesmo que ia acabar por acontecer. Além disso, cada vez que era chamado, ia já convencido de que tinham percebido que era uma fraude e não estava à altura do cargo que tinha”. 

Este transtorno, como qualquer outro, traz sofrimento para as pessoas que afeta e tem tratamento. Há terapia, lembra Carlos Poiares. No entanto, nem sempre as pessoas afetadas procuram este tipo de solução. “Estas desordens vão-se resolvendo quando as pessoas falam sobre elas, a questão é que as pessoas não querem falar porque acham que se vão estar a desmascarar”. 

Apesar de os sintomas poderem ser diferentes de pessoa para pessoa, existem especialistas que defendem que as conversas internas negativas; a necessidade de verificar várias vezes o resultado do trabalho feito; a tendência para atribuir sucesso à sorte e o receio de ouvir críticas fazem parte dos mais comuns. 

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