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Carlos Carreiras 07/11/2018
Carlos Carreiras

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A cidade educadora como antídoto dos fanatismos

A escola representa uma pequeníssima parte da nossa aprendizagem ao longo da vida. É aí que entra (também) a cidade. A urbe é agente educador em muitas cirunstâncias quotidianas

Como muitas vezes tenho repetido neste espaço, a cidade é a unidade política decisiva no séc. xxi. A cidade é o motor político, social, económico e cultural do planeta. Mas não é apenas isso, que é tanto. A cidade é também o principal espaço de educação dos cidadãos e de profusão democrática de conhecimento no contexto das nações.

Reforcei esta minha ideia a semana passada. Por essa altura, Cascais recebeu as Scholas Occurrentes, um projeto promovido pelo Papa Francisco no qual mais de 200 jovens de todas as proveniências se reúnem para debater e propor soluções para problemas sociais, ao mesmo tempo que se desenvolvem pelo encontro. É esta noção de “encontro”, de partilha de identidades diferentes, que é absolutamente central na cidade. E é ela também a maior mola para uma educação humanista que tende a acontecer na cidade. Porquê?

É nas cidades que encontramos o maior número de escolas e universidades, o maior registo de patentes e publicações de caráter científico.

É nas cidades que estão sediados os grandes museus e as organizações de mass media. É nas cidades que a diversidade de origens e proveniências mais trabalha os valores de liberdade e tolerância.

É na cidade que a noção de fronteira se esbate: não há barreiras entre os homens nem muros entre as culturas e religiões. Há, idealmente, um espaço público livre e democrático que permite a cada cidadão construir o seu projeto de felicidade. Não como átomo, mas como um membro de uma comunidade maior que respeita as diferenças e os graus de liberdade de cada um dos membros que a compõem.

Esta ideia de cidade como espaço comunitário na individualidade, supra--administrativo e até parageográfico, estará em discussão nos próximos dias. De 13 a 16 de novembro, 600 representantes de 120 municípios reúnem-se em Cascais para o xv Congresso Internacional das Cidades Educadoras. A “Cidade como pertença das pessoas e os caminhos para a coesão social na cidade” é o tema-chapéu para se discutir o aperfeiçoamento da cidade educadora.

Embora nem sempre tenha sido assim, assistimos hoje a um amplo movimento internacional no qual as cidades se assumem como agentes formais e informais de educação.

Em Portugal, alguns municípios – grupo do qual Cascais faz parte desde a primeira hora - têm-se batido por uma descentralização de competências na área da educação. Esses municípios acreditam que trazer a definição mais fina das políticas educativas para o patamar de decisão da comunidade escolar é útil e benigno. É útil porque os processos são mais eficazes e menos burocráticos. É benigno porque fomenta a responsabilização e o empenhamento cívico dos cidadãos, ao mesmo tempo que dá às famílias mais liberdade de escolha e poder de escrutínio.

A descentralização é boa porque produz bons resultados para alunos, para os professores e para os pais. Do ponto de vista político, coloca as cidades como agendes formais de educação pública. Essas competências core juntam-se a outras que são típicas de alguns municípios que mudaram conceptualmente a sua natureza administrativa e são cada vez menos autarquias e mais “Estados sociais locais”. Programas de combate ao abandono escolar; políticas de reconhecimento do mérito que funcionem como indutoras de valores; promoção de atividades educativas fora do âmbito escolar que possam constituir oportunidades de aprendizagem não apenas pessoais mas coletivas, transformando a escola numa “âncora de cidadania”, ou com iniciativas robustas nas áreas da democracia participativa e colaborativa. Como Cascais tem mostrado, estas são algumas das políticas (educativas em sentido lato) que não precisam da descentralização para ver a luz do dia.

Obviamente, ninguém aprende só na escola. Aliás, a escola representa uma pequena pequeníssima parte da nossa aprendizagem ao longo da vida. É aí que entra (também) a cidade. A urbe é agente educador em muitas circunstâncias quotidianas. Por exemplo, quando abre gratuitamente os museus ao público, quando patrocina exposições ou congressos ou quando inaugura um parque verde. A cidade é palco de educação quando, nas grandes praças e jardins, aprendemos pelo exemplo do outro; ou quando, nas bibliotecas públicas ou nas palestras públicas, aprendemos com o outro.

Se a cidade é, como admito que seja, a unidade política central no séc. xxi, o ar de fechamento que se respira deve suscitar-nos algumas questões sobre as dinâmicas “educadoras” em algumas cidades do mundo.

Que intervenções podem ter os decisores políticos locais para que o espaço público continue a reproduzir a função “educadora” da cidade alinhada com o respeito pelo outro, o civismo e outros valores centrais na cultura democrática e liberal? Como podem as cidades fomentar o espírito laborioso e a curiosidade na descoberta, tantas vezes ausentes das salas de aula e com tantas consequências na formação de preconceitos? Como podem as cidades liderar o debate da migração, da segurança e das (des)igualdades (económicas, sociais e de género) para que se feche o fosso que separa as necessidades reais das percecionadas?

Sejam quais forem as respostas a estas questões, uma coisa é certa: a cidade é insubstituível na formação daqueles que estão em relação simbiótica consigo mesma. Os cidadãos.

Portanto, quanto mais uma cidade tiver um espírito livre e tolerante, mais livres e mais tolerantes serão aqueles que a compõem.

O somatório de pequenas cidades educadoras livres, plurais e democráticas terá como resultado uma grande ordem internacional livre, plural e democrática.

Num tempo em que há tanta gente a procurar explicações para a coletivização dos fanatismos, um olhar sobre as cidades e as suas lideranças pode começar por dar respostas a essas inquietações.

 

Escreve à quarta-feira

 

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