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Glifosato. A guerra contra o inimigo perigoso que se esconde nos passeios

Glifosato. A guerra contra o inimigo perigoso que se esconde nos passeios

José Luís Batalha Beatriz Dias Coelho 06/11/2018 18:37

Já foi notícia várias vezes este ano e sempre por maus motivos. Ainda que não exista um consenso quanto ao caráter cancerígeno do glifosato, os especialistas alertam para os perigos que o herbicida pode representar para a saúde. Em Portugal, cada vez mais autarquias e freguesias estão a pô-lo de parte

A controvérsia em torno do glifosato não é nova, mas a notícia vinda de outras paragens que invadiu a imprensa nacional no verão voltou a trazer a discussão para cima da mesa. Uma das gigantes farmacêuticas, a Bayer, foi condenada ao pagamento de uma indemnização de 200 milhões de euros por esconder a perigosidade de um herbicida com glifosato na sua composição, produzido por uma das suas subsidiárias, a Monsanto. O produto - designado Roundup -, determinou o tribunal, esteve na base de um linfoma não-Hodgkin desenvolvido por um jardineiro de 46 anos que processou a empresa quando estava com a doença já em fase terminal. Em outubro, um tribunal viria a reduzir o valor da indemnização, mas a decisão judicial foi considerada histórica e, pela primeira vez, um tribunal colocou em causa os efeitos cancerígenos tantas vezes negados pelas empresas produtoras de herbicidas com glifosato. Como consequência, a Bayer caiu 14,4% em bolsa, mas continuou a negar que tenha sido o seu produto a causar a doença.

Em setembro, o glifosato esteve mais uma vez debaixo de holofotes, mas desta vez devido a um caso que aconteceu em Viseu. Depois de um passeio matinal com o dono, Boris, um shar-pei de dois anos, ficou parcialmente cego. No regresso a casa, o dono, Lufeng Ye, apercebeu--se de que o animal começou a piscar insistentemente os olhos. Limpou-lhos com soro fisiológico, mas quando chegou à noite a casa viu que estavam inchados e não tinham sinais de melhoria. Levou-o então ao veterinário para ser observado e, como recorda Lufeng Ye ao i, “ficou provado que as queimaduras das córneas dos dois olhos foram de facto devidas a exposição a químicos”. Por toda a cidade, três dias antes, “foram pulverizados herbicidas Roundup”, diz o homem, que assinala que “o facto foi confirmado pela Câmara Municipal de Viseu”. “Podem chamar-lhe coincidência, mas obviamente que deixa muitas dúvidas”, considera Lufeng Ye, que lamenta a conduta das autoridades perante o caso. “Certamente que se tivesse acontecido com uma criança, isto teria sido abordado de outra forma por parte das autoridades competentes”, acredita. Neste momento, “o olho direito está quase recuperado, enquanto o olho esquerdo estagnou nos 50%”, conta Lufeng Ye ao i.

“Porque é que não há mais avisos a informarem da existência de químicos nas zonas verdes de Viseu? Dado o grau de perigo, porque acham que uma folha A4 meia escondida num raio de centenas de metros seria o suficiente?”, questionava Lufeng Ye numa publicação que fez no Facebook dias depois do passeio com o seu cão.

Glifosato: cancerígeno ou não? Não existe resposta consensual. A Organização Mundial da Saúde, através da sua Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro (IARC na sigla em inglês), considera que o herbicida é “provavelmente carcinogénico para humanos” num relatório de 2015. Mas a verdade é que, entre as autoridade oficiais que estudaram o glifosato, a IARC é a única com esse parecer. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, a Agência de Proteção Ambiental norte-americana e a Agência Europeia dos Produtos Químicos discordam e não atribuem esse perigo ao herbicida, que é, de resto, o mais utilizado não só na Europa como no mundo inteiro.

Ao i, Alexandra Azevedo, coordenadora do projeto da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza “Autarquias sem Glifosato/Herbicidas”, diz que “a verdade é que as equipas que têm estudado o glifosato o têm ligado a vários tumores, como o linfoma não-Hodgkin, associado a queixas em tribunal”.

É nas áreas urbanas, segundo a especialista, que o seu uso assume contornos mais perigosos. “As pessoas contactam diretamente com a substância, que contamina também as águas. Em termos de impactos para a saúde há já vários estudos independentes que relacionam o glifosato com uma série de problemas. Na Argentina, por causa dos cultivos dos transgénicos, há registo de casos de mortes por aplicação do produto, além de queimaduras graves na pele, abortos e infertilidade, entre outros problemas.”

Nos caso dos animais, a médica veterinária admite que o glifosato pode provocar cegueira, bem como outras patologias. “Os animais andam mais baixo do que nós, nesse sentido estão ainda mais ameaçados.”

Portugal e o glifosato Por cá, a consciencialização para a toxicidade dos herbicidas em geral, e do glifosato em particular, tem sido uma das batalhas da Quercus, que criou há quatro anos a campanha “Autarquias sem Glifosato/Herbicidas” em colaboração com a Plataforma Transgénicos Fora, “de modo a alterar a prática generalizada no nosso país do uso dos herbicidas para controlo de plantas infestantes - também designadas de espontâneas ou daninhas -, nomeadamente por parte das autarquias locais”. E ao contrário do que acontece noutros países, em que é o poder político que se mostra preocupado com o uso do produto e acaba por suspendê-lo, a coordenadora do projeto nota que em Portugal, tendencialmente, o que acontece é que são os habitantes das freguesias e dos municípios que alertam o poder local para os perigos da substância.

Por cá, de resto, os decisores políticos já regularam matérias sobre os herbicidas. Em abril de 2013 passaram a ser reguladas “as atividades de distribuição, venda e aplicação de produtos fitofarmacêuticos para uso profissional e de adjuvantes de produtos fitofarmacêuticos e [passou a definir-se] os procedimentos de monitorização à utilização dos produtos fitofarmacêuticos, transpondo a Diretiva n.o 2009/128/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de outubro, que estabelece um quadro de ação a nível comunitário para uma utilização sustentável dos pesticidas”. O diploma declara mesmo que “em zonas urbanas e de lazer só devem ser utilizados produtos fitofarmacêuticos quando não existam outras alternativas viáveis, nomeadamente meios de combate mecânicos e biológicos”.

Em março de 2017 é publicado o decreto-lei n.o 35, que transpõe mais uma diretiva da União Europeia e proíbe a utilização de pesticidas “nos jardins infantis, nos jardins e parques urbanos de proximidade e nos parques de campismo”, “nos hospitais e noutros locais de prestação de cuidados de saúde bem como nas estruturas residenciais para idosos”. E também “nos estabelecimentos de ensino, exceto nos dedicados à formação em ciências agrárias”.

Municípios e autarquias dizem não ao glifosato A campanha “Autarquias sem Glifosato/Herbicidas” da Quercus reúne já 22 freguesias e 13 municípios de norte a sul do país, que assinaram o manifesto da associação. A Junta de Freguesia da Estrela foi pioneira na rejeição do glifosato, cuja utilização aboliu logo em 2014. Em setembro, o presidente da junta de freguesia, Luís Newton, foi convidado para participar na conferência da Pesticide Free Towns (Localidades Sem Pesticidas, em português) - que reúne os países europeus com campanhas em marcha contra o herbicida -, em Bruxelas, para partilhar a experiência.

Ao i, Luís Newton explica: “Este caminho começou em 2014, quando recebemos as competências da câmara municipal”. O governante recorda que “quando [estavam] a fazer o planeamento das intervenções no espaço público e a avaliação dos equipamentos necessários para que a operação de deservagem fosse segura e eficaz nas várias áreas, desde a lavagem à varredura, [repararam] na quantidade de proteções individuais necessárias para as pessoas que aplicavam o glifosato”. 

“Na altura pensámos que se são precisas todas aquelas proteções é porque tem uma toxicidade elevada que é prejudicial à saúde. Questionei a equipa sobre isso e responderam-me ‘sim, sabemos que é perigoso, mas estamos habituados’”, explicou Newton. A resposta foi o estímulo final, conta o responsável: “Procurámos informação e concluímos que todas as indicações científicas dizem que é perigoso para a saúde pública.”

Começou então o processo de procura de alternativas. “Imagine o que é as nossas ruas, num espaço de seis meses, estarem transformadas em savanas. O glifosato é especialmente eficaz: uma aplicação assegura que temos de fazer campanhas de remoção de ervas das ruas de seis em seis meses. É rápido, por um lado, a queimar o crescimento, e tem um efeito preventivo. E esta nossa nova opção tem riscos políticos, porque as pessoas estão à espera de poder fazer uma avaliação de um autarca de freguesia relativamente à qualidade dos espaços públicos pelos quais ele está responsável. Ora, se dantes não havia ervas e, de repente, passou a haver muitas, pensam ‘este autarca não é muito competente’. Por isso, explicámos à população o que era diferente - não era uma questão de incompetência, mas de opção. Ao mesmo tempo, começámos a procurar soluções mecânicas e térmicas que pudessem aproximar-se da eficácia do químico.”

No início do processo, os responsáveis de higiene urbana chegaram mesmo a recorrer a mezinhas antigas, como soluções de água com concentrações de sal em percentagens que iam variando. E a par dos riscos políticos que a nova solução acarretava, acrescia também um aumento dos gastos. “Cada campanha da utilização do glifosato, em termos de custos operacionais para a junta, tinha um custo de 50 mil euros, de seis em seis meses. A campanha consistia numa passagem pelo território todo com a deposição do químico e no espaço de uma semana a 15 dias havia uma segunda passagem com meios mecânicos para a remoção das ervas. Durante esses 15 dias, as ervas iam morrendo e não iam nascendo novas. Isso significava que o número de pessoas e meios alocados para este trabalho era particularmente reduzido. Depois de deixarmos de usar o glifosato, num primeiro momento, estávamos a ter sete ou oito vezes esse custo”, recorda.

Com o glifosato de parte, as responsabilidades da equipa competente aumentaram. “Tivemos de assegurar que, de 15 em 15 dias, todo o território era coberto por equipas de deservagem com meios mecânicos porque não havia um químico impossibilitador do crescimento. Imagine o que é ter de alocar tanta gente para essa intervenção. O resultado foi muito complicado porque não tinha pessoas para fazer as outras operações”, descreve Newton. 

A solução encontrada passa pela conjugação de meios mecânicos e térmicos. “Há uma jornada de adaptação a esta realidade que ainda não está concluída. Ainda não posso dizer que já temos uma solução alternativa que nos assegure, a baixo custo, elevada eficácia. Não temos. Mas foi um risco que decidi assumir. Prefiro arriscar um resultado político a ter a incerteza se estou ou não a contribuir negativamente para a saúde pública da comunidade que sirvo”, defende.
 

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