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Selma Uamusse. “Há um sentido de missão quando escolho voltar a Moçambique”

Selma Uamusse. “Há um sentido de missão quando escolho voltar a Moçambique”

Davide Pinheiro 11/09/2018 17:46

“Mati” quer dizer água. No álbum expressa-se em português, inglês e nos dialetos moçambicanos chope e changana 

Angola, Cabo Verde e mesmo a Guiné estão integrados na cultura da lusofonia. Moçambique é...

(interrompendo) Um paraíso desconhecido. Ouve-se sempre dizer: “Ah, gostava de ir a Moçambique. Já ouvi dizer que é lindíssimo. As praias são incríveis.” Mas nunca ninguém esteve lá. Moçambique está distante a todos os níveis. Até a música da Guiné é muito mais conhecida. Moçambique tem muito por onde crescer, e está de facto a crescer, mas durante muito tempo foi um dos países mais pobres do mundo. A cultura não era uma prioridade da política local. Há o caso de Cabo Verde, que é um país com pouca riqueza natural - não tem minérios nem uma terra muito fértil - mas conseguiu usar o património cultural para criar uma indústria criativa gigante. É verdade que tiveram o Mário Lúcio, que é músico, como ministro, o que ajudou, mas Cabo Verde é o exemplo de um país que no espaço da lusofonia aproveitou muito bem a música numa perspetiva total. Em Moçambique, ser músico não é levado a sério. Dei uma entrevista em Moçambique em que o entrevistador me disse: “Mas você era engenheira e dedicou-se à música!? Se fosse minha filha, tinha levado duas palmadas no rabo.” É óbvio que não é exemplo e ele disse aquilo em tom de piada, embora eu não tenha achado grande piada, mas há outras áreas artísticas mais evidentes. A literatura, por via do Mia Couto; nas artes plásticas temos o Naguib, o Chichorro e o Lívio de Morais. Tínhamos o Malangatana. São artistas conhecidos no circuito mundial, mas dificilmente se consegue apontar um cantor moçambicano, o que é estranho porque, normalmente, é mais fácil reconhecer um músico. As pessoas sentem-se mais próximas da escrita do Mia Couto que de qualquer cantor moçambicano. Há definitivamente um sentido de missão quando escolho voltar a Moçambique. Tive o incentivo do Alcides Nascimento, filho do Bana, que me provocou: “Faz lá, ‘tás com medo de quê? Não és suficientemente moçambicana? Também não és suficientemente portuguesa. Também não és do rock. Nem do gospel. Faz e cria à volta dos teus universos, mas não te esqueças que é muito importante que a cultura de Moçambique seja conhecida.” Abracei este sentido embaixador, sem vaidade, no sentido de ser um passaporte para dar a conhecer a cultura de Moçambique por via dos instrumentos, dos dialetos e das danças em palco. O lugar é determinante para chegar a uma sonoridade. 

Que identidade é essa?

É fiel a mim mesma. Começa e acaba em Moçambique, mas passa por tudo aquilo que fiz e vou fazendo, e por aquilo de que gosto. Por exemplo, no caso da eletrónica, levemente presente no disco, não é um território em que tenha experiência, mas gosto de ouvir. Queria ter um cheirinho sem ser kizomba ou afro house. Em Moçambique até há um género chamado pandza, que vem da música tradicional e junta eletrónica, mas não queria ir para aí. Acima de tudo, queria ser honesta. A questão da identidade nunca foi uma preocupação. Sempre gostei de cantar. A determinada altura, pessoas com mais visão até me disseram que devia seguir uma carreira a solo, mas eu estava era preocupada em fazer música. Queria fazer muitas coisas diferentes. Gosto de cantar jazz, de trabalhar com o Carlos Barrettto, assim como gostei dos Cacique 97 ou de fazer parte do Movimento. Não tinha barreiras. Não quero que seja essa a minha musicalidade. Queria era encontrar uma sonoridade que fosse fiel a essa falta de compromisso. Por exemplo, não me sinto nada comprometida em fazer música tradicional moçambicana. Nem com o jazz, ou com a eletrónica. Sinto-me livre.

Será a voz o primeiro guia espiritual?

No meu caso, não. É mais a voz interior do que a voz no sentido tímbrico. Quando se ouve alguém como a Tina Turner, o Stevie Wonder ou a Ana Moura, basta ouvi-los cantar para reconhecer. Ainda agora, o dueto da Ana Moura com o Benjamin Clementine, não precisava de olhar para saber que é ela. Tem uma entoação, uma colocação e um registo. Eu não fujo disso, mas não é uma preocupação. Por trabalhar com muitas pessoas diferentes, gosto muito do trabalho de mutação e transfiguração do registo tímbrico. Tenho muitas vozes. Talvez por isso goste das artes performativas e me tenha envolvido com o teatro para transmitir a minha voz interior. No caso da música, é importante ter vários registos para passar diferentes mensagens.

Moçambique serve de prólogo para África?

Sim, sem dúvida. Não é bem nostalgia nem saudade. Prefiro chamar-lhe celebração. E foi uma viagem muito gira. Não domino nenhum dos dialetos moçambicanos. Nunca falei, nem com a minha avó nem com os meus pais. Somos uma família de assimilados que não têm por hábito falar os dialetos de Moçambique, nem cá nem lá - os meus pais vivem em Moçambique. Enquanto, no início, desconfiava de cantar numa língua que não domino, e achava um pouco falso, comecei a encontrar muita beleza na fonética enquanto investigava para o disco. Na língua, nas palavras. O lado mágico de descobrir numa língua que é nativa uma fonética desconhecida para mim, capaz de transmitir uma mensagem, fez-me perceber que, no exercício de comunicação, dificilmente as pessoas não compreendiam. Não havia uma tradução literal do que estava a cantar mas, emocionalmente, que é o que mais me interessa, conseguiam entender o que estava a dizer. Há uma espécie de orgulho em ser moçambicana e trazer um lado da África subsariana que as pessoas conhecem muito pouco. Isso incomodou-me porque há imensos músicos em Moçambique e são mais moçambicanos que eu, mas tenho a vantagem de estar aqui e poder dar a conhecer o desconhecido. Foi uma escolha consciente. E este disco, e o próximo em que já estou a trabalhar, estão cheios de colaborações. Trabalhei com o Milton Gulli, dos Cacique 97, que agora está radicado em Moçambique, com a Isabel Novela, que é uma cantora muito conhecida, e resgato duas músicas do cancioneiro tradicional. 

Surgiste no Gospel Collective. No princípio estava a religião ou a música?

Não fui criada num meio religioso. Os meus pais eram comunistas entre o ateu e o agnóstico. Quando era pequena, era das festas de família que a música e as danças faziam parte. Quando tinha três anos, os meus pais puseram-me na escola de música. Era a solista do grupo coral, mas era uma coisa muito natural porque toda a gente na família cantava. Na festa de uma prima conheci um maestro muito gospel. Ele ouviu-me e convidou-me para o coro. Hesitei porque não era religiosa, mas ele disse-me para não me preocupar porque nem todas as pessoas são crentes. Fiquei rendida e encontrei Deus entre a atividade musical. O gospel foi fundamental para todo o meu percurso porque abriu portas a fazer parte dos WrayGunn. Continuei sempre a cantar [gospel] e é o motivo porque sou tão flexível em relação a géneros e me é tão fácil aceitar convites. Vejo-os como desafios e o gospel ensina-me a ser leve e disponível. 

Pela carga espiritual?

Sim, é fundamental, mas depois há uma parte técnica. Nós cantamos em registos nem sempre muito fáceis, dançamos, falamos e estamos em contacto com as pessoas. O gospel é muito rico na questão performativa. Não é um coro de música clássica, é muito dinâmico. Temos de cantar bem e dançar. E expomo-nos emocionalmente. Tudo isso dá uma grande bagagem. E daí, talvez artistas como Johnny Cash, Aretha Franklin, Nina Simone ou Beyoncé venham da Igreja. Tens de transmitir as emoções às pessoas.

A relação de Portugal com as antigas colónias pacificou-se?

Felizmente, nesta altura debatem-se questões importantes, razão pela qual se discute o nome do Museu dos Descobrimentos e se tenta erguer uma estátua a relembrar a escravatura - Portugal foi o país que deu início à escravatura no mundo. Até agora, a relação tem sido de algum paternalismo e de ligação ao luso-tropicalismo, sempre esquecendo o lado atroz da guerra colonial. Felizmente, essa visão está a dissipar-se. É muito importante que haja um reconhecimento do papel de Portugal num processo muito violento para as ex-colónias, não vivendo amargurado com o passado, mas sem desresponsabilizar. Venho de uma família de assimilados, o que quer dizer que não se podia falar outros dialetos. Houve um eliminar da cultura. 

Podemos estar a caminho de um tempo pós-racial?

Quero acreditar que sim, mas ainda é cedo.

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