17/11/18
 
 
Luís Menezes Leitão 11/09/2018
Luís Menezes Leitão

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A guerra do Solnado

Cabe perguntar ao ministro da Defesa o seguinte: acha que prestigiou as Forças Armadas com as suas sucessivas omissões e contradições sobre o episódio de Tancos? Acha que prestigiou as Forças Armadas quando demitiu o chefe do Estado-Maior do Exército por causa das declarações de um subdiretor do Colégio Militar?

O sketch humorístico “A guerra de 1908”, protagonizado por Raul Solnado, constitui uma adaptação do monólogo “Es el enemigo?” do humorista espanhol Miguel Gila, que combateu na Guerra Civil Espanhola, cujas marcas ainda hoje estão bem visíveis em Espanha. Ficou célebre no país vizinho a frase desse monólogo “Ustedes podrían parar la guerra un momento?”, em que o humor absurdo de Gila ridicularizava uma guerra tão dramática e que ainda causava sofrimento em tantos espanhóis.

Em Portugal, quando, em 1961, Raul Solnado resolve adaptar esse monólogo na revista “Bate o Pé”, tinha começado a guerra em Angola, mas ainda se estava longe de prever o impacto que a mesma iria ter na vida dos portugueses. Portugal tinha conseguido escapar à ii Guerra Mundial e a sua efémera participação na i Guerra Mundial era uma recordação longínqua mas que, ainda assim, a censura decidiu controlar. Por isso, quando Solnado quis falar na sua ida à guerra de 1914, a última em que Portugal tinha participado, a censura proibiu, entendendo que o sketch poderia ser visto como uma ofensa ao regime republicano e à participação desastrosa deste na Grande Guerra. O sketch passou, por isso, a ser “A guerra de 1908”. Em 1908, ainda existia a monarquia e, de qualquer forma, não tinha havido guerra nenhuma, pelo que ninguém se poderia sentir ofendido com o texto.

No domingo passado, Rui Rio resolveu referir-se ao caso de Tancos citando, a propósito, o sketch de Solnado, o que se justifica plenamente, uma vez que a intervenção do ministro da Defesa relativa a Tancos só se pode entender a título de comédia. Senão, vejamos: foi anunciado que foi roubado material de guerra em Tancos, o que seria suficiente para deixar toda a Europa em estado de alarme. Confrontado com a situação, o ministro da Defesa disse que não sabia o que fora roubado e até admitiu que não tivesse havido furto nenhum. Mais tarde anunciou que o material que não sabia se fora furtado tinha sido recuperado. Depois veio admitir que talvez não tivesse sido tudo recuperado. Mais tarde, foi revelado que tinham sido recuperadas mais armas do que as que foram furtadas. E, finalmente, passou a remeter-se tudo para o Ministério Público, na estratégia tradicional de os políticos invocarem o segredo de justiça para não responderem aos gravíssimos casos que ocorrem nos departamentos que tutelam.

Mas o ministro da Defesa, que acha que tudo isto se pode passar no seu ministério sem consequências, acha que não se pode citar a guerra do Solnado a este propósito. E foi assim que publicou um comunicado no site oficial do Ministério da Defesa — que, pelos vistos, presentemente é o Facebook! — acusando Rui Rio de tentar a todo o custo a “partidarização” das Forças Armadas, para o que, imagine-se, estaria a fazer “chacota” com elas e com as suas chefias, “quebrando um consenso de décadas na nossa Democracia”.

Cabe perguntar ao ministro da Defesa o seguinte: acha que prestigiou as Forças Armadas com as suas sucessivas omissões e contradições sobre o episódio de Tancos? Acha que prestigiou as Forças Armadas quando demitiu o chefe do Estado-Maior do Exército apenas por causa de declarações de um subdirector do Colégio Militar? Acha que prestigiou as Forças Armadas quando nomeou um novo chefe do Estado-Maior do Exército que só tem gerado contestação entre os militares, levando até a que alguns tivessem falado em depor as suas espadas perante o Presidente da República?

Proclama o ministro da Defesa, perante a crítica de Rui Rio, que “na política, como noutras esferas da vida, não pode valer tudo”. Parece assim querer apelar outra vez à censura, pedindo que não lhe falem sequer na guerra de 1908, que alguém pode associar à situação calamitosa das nossas Forças Armadas em 2018. Mas, por muito que isso custe ao Ministro da Defesa, estamos num país livre, onde as responsabilidades políticas devem ser assumidas. E a hecatombe que a sua gestão tem causado nas Forças Armadas é incomparavelmente superior aos danos de uma simples citação humorística.

 

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Escreve à terça-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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