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Mac Miller. Morrer afogado nas próprias palavras

Mac Miller. Morrer afogado nas próprias palavras

AFP Davide Pinheiro 10/09/2018 14:37

Ficou a um ano do clube dos 27, mas era conhecido desde os 15. A morte de Mac Miller ainda causa espanto pela idade, mas o histórico de abuso de drogas e álcool era um livro aberto na lírica do rapper. O fim da relação com Ariana Grande deu-lhe o melhor álbum, mas guiou-o ao abismo

A 3 de agosto, dia de “Swimming” ver a luz do dia, a “Rolling Stone” publicava uma extensa entrevista a Mac Miller titulada sem freio “Mac Miller Wants You to Know He’s OK”. O jornalista observava-o “sorridente” e “otimista”. “Estou tranquilo. Já posso tratar do meu cão”, confessava no final da conversa.

Miller referia-se ao término de dois anos de namoro com Ariana Grande que o expuseram na vida pública para além dos limites pessoais. Cansado de estar no mira dos paparazzi e de ver o rosto impresso em tabloides, forçara- -se a um exílio pessoal com o auxílio do manager Christian Clancy.

Poucos dias depois de o fim do namoro ter feito as delícias dos opinadores sociais e das caixas de comentários, Miller tinha sido preso por derrubar um poste de energia enquanto conduzia embriagado o seu SUV e fugir do local. Culpada no Twitter pelo desfecho, Ariana Grande respondeu com o adjetivo “tóxico” para descrever o romance. “Não sou mãe ou babysitter, e nenhuma mulher deve ter essa responsabilidade. Cuidei dele e tentei apoiar a sobriedade durante anos (e continuarei a fazê-lo, claro), mas culpar uma mulher pela incapacidade que um homem tem de se manter equilibrado é um problema enorme. Parem de fazer isso, por favor”, queixou-se.

Não há provas da relação de causa- -efeito entre o desenlace do namoro e a morte de Mac Miller, aos 26 anos, por overdose, na última sexta-feira, mas “Swimming” está cheio de destroços emocionais, do namoro com Ariana Grande e de um pretérito nada perfeito de adição a drogas e álcool. “You never told me being rich was so lonely/ Nobody know me, oh well/ Hard to complain from this five star hotel”, escrevia em “Small Worlds”, uma das pontas de “Swimming”. Solidão, amargura, viver uma vida por engano. Poeta mas não fingido, Mac Miller usava a vida como matéria-prima e ainda abria os olhos para as consequências da relação. “My regrets look just like texts I shouldn’t send/ And I got neighbors, they’re more like strangers/ We could be friends/ I just need a way out of my head/ I’ll do anything for a way out/ Of my head”, escrevia na mesma canção.

No álbum mais crescido e cantado de uma obra iniciada aos 15 anos com a mixtape “But My Mackin’ Ain’t Easy”, Mac Miller rodeava-se da excelência de Thundercat (músico da vanguarda do jazz e funk moderno) e do produtor e orquestrador Jon Brion. Tanto “Swimming” como o anterior “The Divine Feminine”, que incluía o dueto “My Favorite Part” com Ariana Grande, estavam muitos níveis acima da mixtape “K.I.D.S.” (2010) e do álbum inaugural “Blue Slide Park” (2011).

Miller saltou a meio da viagem, mas passou os últimos anos rodeado de gente reconhecida. Jay Electronica, Earl Sweatshirt e Schoolboy Q eram convidados de “Watching Movies With The Sound Off”, o segundo longa-duração que, em 2013, representou o antes e o depois, e, sob o alter ego Larry Fisherman, produziu no mesmo ano a mixtape “Stolen Youth” do bem cotado rapper Vince Staples.

As contradições rodeavam-no. Era uma figura mediática popular, a MTV deu- -lhe um reality show sobre ele e namorou com uma das namoradinhas da América, mas era também um explorador sónico sem medo de arriscar ou de se desafiar a si mesmo.

E um livro aberto, já que se tornou viciado em codeína na ascensão à ribalta, durante a digressão de 2011. O reality show “Mac Miller and the Most Dope Family” salvou-o, mas o cadastro já ficara sujo. Preso por posse de marijuana no mesmo ano, passou a noite encarcerado com os amigos. E nunca mais se livrou da reputação.

Antes da dose letal, deixou a sua casa em San Fernando Valley limpa. De acordo com o TMZ, o primeiro meio a avançar a notícia da morte, a polícia encontrou apenas vestígios de um pó branco à chegada ao local. Só a autópsia poderá agora confirmar se se tratou de overdose.

As reações ainda se sucedem e quase todas rondam o espanto e a estupefação. A família lamentou “a morte trágica” e recordou-o como “uma luz no mundo”. Já Ariana Grande publicou uma foto de Mac Miller a preto e branco. Sem palavras.

 

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