19/9/18
 
 
António Rodrigues 10/09/2018
António Rodrigues
Política

antoniorodrigues@newsplex.pt

Mensagem para Bruno de Carvalho

A participação recorde nas eleições, o número de candidatos, a vitória do homem que rompeu com o ex-presidente, tudo se conjugou para mostrar a Bruno de Carvalho que já ninguém o quer

Paz e tranquilidade era o que mais se ouvia dos sócios que, no sábado, aguardavam na fila cerca de uma hora para votar. Depois de muitos meses de turbulência, do caos que se instalou na equipa de futebol, das ameaças e ações na justiça, o Sporting está pronto para a pacificação, para encerrar um dos capítulos mais conturbados da sua existência, e voltar a ser o clube normal que vai perdendo regularmente campeonatos de futebol, mas começa todas as épocas, sem esmorecimento, a acreditar que esta é que é.

Aliás, um dos grande fatores de pacificação deste domingo eleitoral no Sporting foi o primeiro lugar da equipa de futebol. Não importa que esse primeiro lugar seja muito sofrido, conquistado a pulso, sem futebol suficiente para se impor aos adversários e com mais esforço e dedicação que qualidade. Não estivesse a equipa na liderança (junto com Benfica e Braga) e talvez o ambiente à volta desta eleição fosse outro, mas sem deixar de transmitir a mesma mensagem, alto e bom som, de que os sócios não querem Bruno de Carvalho.

Para quem ainda não tivesse entendido o recado – nomeadamente o próprio Bruno de Carvalho – a resposta dada pelos sócios este domingo não podia ser mais clara: 22.510 sócios, na maior participação eleitoral da história do clube, foram a Alvalade para mostrar que querem fechar um capítulo negro e abrir um novo, completamente diferente.

Bruno de Carvalho, que tanto gosta de falar e de se ouvir, desta vez ficou mudo e quedo (diz-se que se sentiu mal e teve de ir ao hospital), controlando de outra forma o excesso de bílis que o seu corpo parece produzir. Não quer com isto dizer que nem mais uma palavra se ouvirá dele. Será quase impossível, tendo em conta a necessidade do próprio em dar eco a todos os seus pensamentos e a vontade dos média em lhe emprestar os meios para isso. O ex-presidente do Sporting é o equivalente noticioso de uma telenovela – o enredo é conhecido, o ator é sempre o mesmo, está cheio de heróis (o próprio) e vilões (todos os outros que se lhe atravessam no caminho), no final vai dar tudo ao mesmo, mas continua a atrair muitos espetadores.

Bruno de Carvalho teve grandes méritos, tornando o clube numa potência verdadeiramente eclética, com títulos em inúmeras modalidades e grande referência em termos de dedicação à sua função social. Recuperou algum orgulho público de afirmação do Sporting e reacendeu a chama de campeão que andava meio esmorecida – é difícil ser um eterno candidato quando se vai entrar no 17.º ano sem ganhar.

E foi essa ausência do título mais apetecido, no futebol, em relação ao qual tudo gira, que começou a perturbar Bruno de Carvalho, a acentuar a sua agressividade, os seus tiques ditatoriais, esse lado messiânico antidemocrático que prefere incendiar tudo à volta a recuar. O clube desceu às profundezas e no inferno chegou a temer-se que desse fundo já não havia regresso.

Mas havia. E o Sporting tinha alguém que podia trazê-lo pela mão, com vontade e otimismo: José Sousa Cintra. O eterno presidente (aliás para quando a homenagem devida de o transformar em presidente emérito?) conseguiu em 74 dias o que parecia impossível: a harmonia no clube, interna e externamente. E fê-lo sendo o anti-Bruno de Carvalho, arriscando até uma pacificação com o Benfica, sentando-se na tribuna do Estádio da Luz, demonstrando que a rivalidade não tem de ser uma guerra aberta, que se pode desejar que o Sporting ganhe sempre, que o Benfica perca sempre sem agarrar na ponta e mola palavrosa e fazer correr o sangue do adversário.

A votação de sábado em Alvalade foi, nesse aspeto, uma votação à Sousa Cintra, firme e otimista, com um sportinguismo positivo, feito de vitalidade rejuvenescida. Um clube que nada ganha no futebol há 17 anos (na minha existência, o Sporting foi campeão quatro vezes e a primeira nem sequer me lembro de tão novo que era) consegue mobilizar os sócios desta maneira para escolher um novo presidente, três meses depois de ter batido no fundo, envia uma mensagem de força.

No tempo das tecnologias de informação, demorar tanto tempo para divulgar os resultados de uma eleição com um universo de 22.510 votantes fica como a mancha de um dia que correu sem incidentes. E se os resultados em si podiam trazer amargos de boca, indisposições momentâneas, logo se viu pelas reações de ganhadores e perdedores que esta era uma eleição de união e não um escrutínio de força.

João Benedito, que ganhou no número de sócios que nele votaram e perdeu na quantidade de votos, foi o primeiro a chegar-se à frente para dar os parabéns ao vencedor, recusando-se a explorar a diferença entre votantes e votos: “Que o Sporting possa seguir o seu caminho e fique mais forte. A partir de hoje o Frederico Varandas é o meu presidente e de todos os que votaram na nossa lista A”. Seria difícil a mensagem ser mais clara para Bruno de Carvalho de que o seu tempo no Sporting finalmente chegou ao fim. No entanto, é possível que o ex-presidente tenha dificuldades em perceber mensagens claras.

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×