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Estudo. O desempenho cognitivo pode ser afetado pela poluição do ar?

Estudo. O desempenho cognitivo pode ser afetado pela poluição do ar?

José Carvallho Tatiana Costa 03/09/2018 16:11

A poluição do ar pode “afetar o funcionamento normal das células nervosas cerebrais”. Mas há que ter cuidado também com a poluição dentro de casa

Carros, autocarros, indústria, incêndios florestais, queimadas, inseticidas, detergentes e eletrodomésticos. Estas são só algumas das fontes emissoras de gases que poluem o ar.

Se pensa que este tipo de poluição é inofensiva para o ser humano, engana-se. Porquê? Porque a poluição do ar afeta o desempenho cognitivo.

Esta é a conclusão de um estudo publicado, na semana passada, no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Os investigadores revelaram que quanto mais poluído for o ar, mais danos causará no desempenho cognitivo. Para a elaboração do estudo, um grupo de cientistas analisou testes de linguagem e cálculo, que foram realizados a 20 mil pessoas com dez ou mais anos, entre 2010 e 2014, na China. Depois de terem comparado os resultados dos testes com registos de poluição no ar, concluíram que quanto mais tempo se está exposto ao ar poluído, maiores são os danos cognitivos.

Ao i, João Branco, presidente da Quercus, também confirma essa relação: “É evidente que [a poluição do ar] é um risco para a saúde”.

O sistema respiratório é o que mais sofre com a má qualidade da atmosfera. Segundo o especialista, existem gases poluentes, como o dióxido de carbono e o monóxido de carbono, que “têm um efeito direto no sangue, porque neutralizam a hemoglobina. Na prática faz com que as pessoas fiquem com menos capacidade de absorver oxigénio”. Existem ainda outros poluentes que são venenosos e tóxicos e que podem causar “intoxicações, mal-estar, náuseas e provocar danos noutros sistemas, como no cérebro e artérias”, explica João Branco.

O sistema circulatório também é afetado: “Este sistema é importantíssimo porque é o que transporta o sangue. Ao fazer isso também tem que transportar o oxigénio para as várias partes do corpo, incluindo o cérebro. Havendo uma deterioração do sistema circulatório isso faz com que comece a haver menos oxigénio no sangue”. 

José Bravo Marques, médico especialista de neurologia, também corrobora esta tese. Ao i, o neurologista explica que, de uma maneira geral, a poluição do ar pode afetar o “funcionamento normal das células nervosas cerebrais”. O motivo, segundo o médico, está relacionado com o facto de o sangue ter “maior dificuldade de oxigenação a nível pulmonar” e isso contribui “para uma maior dificuldade de manter o metabolismo normal do cérebro”.

Como o cérebro é um dos órgão do corpo que “maior metabolismo tem”, mais quantidade de oxigénio - transportado pelo sangue - vai necessitar para funcionar corretamente. Outro problema está relacionado com a presença de poluentes tóxicos na atmosfera. Essas substâncias podem provocar lesões nos neurónios, e consequentemente, afetar o desempenho cognitivo, revelou o médico.

Estaremos seguros dentro de casa? Mas a poluição do ar não se fica apenas pelas ruas da cidade e do campo. E trancar-se a sete chaves dentro de casa não o vai proteger deste problema, porque o ar também pode estar poluído dentro do seu lar. Os motivos são vários: materiais de construção, poeiras, presença de amianto, tipos de aquecimento, detergentes e produtos de higiene, ambientadores, inseticidas, eletrodomésticos - que quando causam faísca libertam ozono para o ar -, tapetes em mau estado, entre outros.

Se quando está em casa começa a espirrar, sente os seus olhos a arder e a ficarem vermelhos e tem dores de cabeça que normalmente diminuem quando não está dentro de casa, isso é sinónimo de que o ar interno pode estar poluído. No entanto, não sabe o que pode fazer para se proteger a si e à sua casa? A solução é muito simples: abrir as janelas. “Periodicamente abrir as janelas para arejar a casa, para que saia o ar que tem partículas e está contaminado e para entre o ar fresco”, revela o responsável.

Segundo João Branco, as pessoas devem também estar atentas ao tipo de materiais usados na construção do imóvel - como contraplacados ou certos tipos de tintas, que podem dar origem a poluentes do ar.

Contudo, o especialista faz a ressalva de que arejar a casa numa zona muito poluída pode não ser solução: quando a poluição está presente no exterior, ao abrir as janelas está a deixar entrar a poluição na casa. Se o ar dentro de casa e no exterior estiverem poluídos, não há alternativa: inspirar esta poluição torna-se inevitável.

Poluição é desafio a combater O desafio atual é combater esta poluição para que haja melhor qualidade do ar. O que, segundo o responsável da Quercus já está a ser feito “pela via legislativa e pela regulação, mas ainda é preciso continuar a fazer isso”.

Por ano, segundo dados da Agência Europeia do Ambiente, estima-se que em Portugal a poluição do ar esteja a causar cerca de 6700 mortes prematuras. 

A nível mundial, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgados em maio deste ano, a poluição do ar causou 4,2 milhões de mortes em 2016. O estudo indica ainda que cerca de 3 milhões de mortes foram provocadas por poluição dentro de casa. “É inaceitável que 3 mil milhões de pessoas, a maioria mulheres e crianças, estejam ainda a respirar fumos mortais todos os dias devido à utilização de fogões e combustíveis poluentes nas suas casas”, disse, na altura, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus. No entanto, a poluição nas ruas ainda continua a ser a responsável pela maior parte das mortes.

De acordo com João Branco, “os países mais problemáticos são onde existe menos regulação da qualidade do ar. A China tem tido melhorias substanciais mas já foi e continua a ser um país com muito má qualidade do ar”. A Índia, países asiáticos com indústria, da África e da América do Sul também são preocupantes. Já “a Europa também tem problemas, mas comparada com outros países tem muito menos, porque há muito mais regulação”, revelou o responsável. 

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