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Joaquim Meirim. O homem que era dono do pronome pessoal

Joaquim Meirim. O homem que era dono do pronome pessoal

Afonso de Melo 29/08/2018 20:58

O Verão de 1970 abalou o futebol português com a chegada de um novo treinador ao Belenenses. Não só prometeu o título como levou os jogadores a correrem nas matas, abraçarem árvores, e a tirarem 15 minutos para pensar...

No Verão de 1970, os adeptos do Belenenses começaram a ver nos jornais desportivos fotografias dos jogadores do seu clube correndo na praia de São Pedro de Moel. E, quase nus, calcorreando caminhos por entre os pinheiros circundantes, empurrando os troncos das árvores em exercícios muito pouco habituais. A culpa era de Joaquim Meirim que acabara de se tornar treinador dos azuis de Belém. Era apologista do contacto com a natureza. Inventava treinos ao sabor de uma imaginação formidável. E tinha tiradas que faziam com que o futebol português conhecesse um sabor apimentado verdadeiramente refrescante: “Esta época, as outras equipas vão ter de lutar pelo segundo lugar!” A frase foi bombástica: quem era o atrevido que garantia o título de campeão para um Belenenses que não fazia ideia do que isso era desde 1946? As coisas não viriam a correr da forma como Meirim as perspetivava, mas nem por isso deixava de andar na boca do povo. Quando a sua equipa visitou o Estádio das Antas, soltou: “Parabéns aos adeptos do FC Porto - vão ter o privilégio de ver ao vivo a melhor equipa de Portugal!”

Na época anterior tinha feito um trabalho de categoria no Varzim, conseguindo uma classificação de truz. Estava na altura de assumir o comando de um Grande (o Belenenses não iria perder essa designação até descer de divisão pela primeira vez) e estava psicologicamente preparado para isso. Aliás, Meirim estava psicologicamente preparado para tudo. Nada abalava a sua fantástica capacidade ter fé em si próprio. Muitas vezes, arrastava os que o rodeavam nessa maré sempre enchente de optimismo. À medida que os seus jogadores trepavam barrancos na sua corrida pelo meio das árvores às quais, volta e meia, tinham de trepar, o inovador técnico percebia que ia caindo no goto popular. Um estilo único. Agitador, controverso, cheio de empáfia. Correu o boato que, para exercitar os guarda-redes, lhes largava galinhas em vez de chutar bolas à baliza: ao contrário de uma bola, a galinha nunca teria um percurso certo. Mais tarde, Benje, o primeiro grande keeper negro do futebol português desmentiu a historieta. Muitos acreditam mais nas galinhas do que no desmentido.

Na Póvoa de Varzim, lançara à imprensa uma das suas grandes pérolas: “A derrota é a mãe de todas as vitórias!” Nada mau para quem tinha uma enorme dificuldade para lidar com elas. As derrotas, claro está.

Um curioso dom O treinador do dom de palavra nasceu no Minho, em Monção, no ano de 1935. Como jogador foi inexistente. Os registos pouco destacam da sua carreira. Depois, já como técnico, aparece no Oriental em meados da década de 60. Segue-se a CUF: e acrescente-se que a equipa do Barreiro, que jogava com um equipamento à Braga mas em verde escuro, era à época uma das principais forças motrizes do campeonato nacional. No Varzim ganha aura de mágico. O Belenenses abre-lhe as portas de par em par e ele não faz por menos: promete o título de campeão. “Os meus jogadores vão cuspir sangue em campo!” Ninguém resistia ao seu poder de comunicação que chocava e encantava ao mesmo tempo.

“A minha entrada no Belenenses surge com três anos de atraso”, explodiu numa entrevista. Na sua concepção, tinha de avançar para uma limpeza do balneário do Restelo e transformar o clube num crónico candidato à vitória graças a um fortalecimento psicológico dos jogadores e a uma purga que libertasse a equipa dos que não tivessem mentalidade ganhadora. Dir-se-á que isso, hoje, é comum. Será. Mas nesse tempo os clubes estavam pouco dispostos a verem-se livres de jogadores só por causa da teimosia do líder. O elo mais fraco eram os treinadores e pouco podiam fazer para imporem a sua vontade. Meirim estava-se positivamente nas tintas para o situacionismo. O Belenenses fora buscá-lo por alguma razão e essa razão não era, com certeza, o seu dom de palavra.

Acrescente-se que os homens que Joaquim Meirim levava para as matas na fase de preparação, ordenando-lhes que corressem despidos e abraçassem árvores para sentirem profundamente os benefícios da natureza, formavam um plantel de muita qualidade. Nomes como Alfredo Murça, Freitas, Laurindo, Godinho, Camolas, Djalma ou Quaresma contribuíam para o inabalável optimismo do treinador: “O espírito ambicioso do homem não tem limites!”

Sim, ele foi um homem sem limites.

Tanto assim que não se coibia de sublinhar: “Não inventei o futebol. Sou um modesto treinador. Provavelmente o mais modesto de todos os 600 que existem em Portugal”. Quem diria? E descrevia-se: “Não gosto de datas. Nasci em Monção num determinado dia de determinado ano. O que tenho de incomum é não participar em tradicionalismos. Eu fui, sou, e serei sempre eu”.

O pronome saía-lhe da boca aos borbotões. “Não percebo que interesse possa ter para o público a minha idade. O homem-Meirim nasceu com o treinador-Meirim. Muitas vezes, por causa da paz é preciso fazer a guerra. Daqui a três anos todos irão perceber onde quero chegar. Isso é inevitável! Como ter sido convidado para o Belenenses. Sabia que esse momento iria chegar. Como sei que virei a ser convidado para treinar o Benfica. E esse momento não vai apanhar-me de surpresa”.

Momento que nunca surgiu.

Pelo contrário: à terceira jornada desse campeonato de 1970-71, já o Belenenses sofrera duas derrotas e o título não passou de uma fumaça dispersa por um vento de final de Verão. Muito, muito longe do primeiro lugar, terminou em sétimo. Os adeptos não lhe perdoaram a farronca e Meirim teve de procurar outros clubes: Boavista, Leixões, Beira-Mar, Salgueiros...

Foi perdendo a chama. Ele, que antes de ser treinador em Portugal, tirara um curso em Buenos Aires. Ele, que foi filiado no Partido Comunista e combateu a velha ordem dos técnicos instalados, abrindo fissuras na classe. “Apareci sozinho. Como é natural num meio onde já existem figuras consagradas, justificada ou injustificadamente, onde já se radicaram determinados clãs, é extremamente difícil um homem isolado impor-se”. Sobretudo quando esse homem era capaz de, no início de um treino, dizer para os seus pupilos: “Agora têm 15 minutos para pensar”.
 

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