15/11/18
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 29/08/2018
Eduardo Oliveira E Silva

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Prevenir para não ter de remediar o mal

Há maneiras de evitar abusos como os que terão ocorrido em Pedrógão com certas reconstruções. É preciso é querer…

1. Na sua milenar sabedoria, o povo diz que mais vale prevenir do que remediar. Há uma lógica óbvia no ditado, mas a verdade é que quase nunca o Estado português e quem o dirige atua nesse sentido. Pelo contrário. Vem isto a propósito do que alegadamente se terá passado em Pedrógão Grande com a reconstrução que supostamente favoreceu uns em detrimento de outros, com recurso a compadrios e manobras de chico-espertismo, tipo mudar a correr a residência fiscal para poder declarar certos imóveis como primeira habitação. Num meio pequeno, onde todos são de algum modo aparentados ou se conhecem, foi um ápice até que as suspeitas de favorecimento e cunhas viessem a público. Num país onde todos são mais ou menos aparentados e têm amigos comuns, imagine-se o que se passa em meios pequenos com uma ou duas centenas de pessoas. Agora compete ao Ministério Público apurar se houve mesmo fraude ou favorecimentos no processo feito ao nível da câmara, do Estado e de certas associações caritativas. Nada disto teria acontecido ou seria suspeito se, na comissão encarregada de verificar a conformidade de tudo, estivesse lá, desde logo, um representante do Ministério Público, como garante da absoluta transparência e legalidade. Ganhava-se tempo. Poupava-se dinheiro e evitava-se também um lavar de roupa suja e a exposição de ódios pessoais que também parecem estar na base de certas denúncias. Quanto ao resto apenas mais uma nota: sejam de primeira, segunda ou terceira habitação, todas as casas devem ser reconstruídas com apoio significativo do Estado porque afinal foi por causa da incúria dos seus diversos agentes que houve a perda de vidas humanas e grande destruição de habitações, fábricas e outro tipo de bens materiais. Se houve mesmo fraudes em Pedrógão, ao menos que se previna para que o mesmo não se repita em Monchique e noutros sítios, depois de incêndios ou outras catástrofes.

2. Abandonar o PSD é uma coisa estranha. É talvez por isso que Santana Lopes, apesar da sua popularidade, não está a conseguir trazer com ele muitos militantes sociais-democratas. Como ele próprio reconhece, as adesões parecem vir de gente que na verdade nunca militou ou se empenhou na política. Deixando de parte a circunstância pitoresca de alguém cindir seis meses depois de se ter candidatado à liderança de um partido, ter obtido 46% dos votos e ter feito um pacto de unidade com o vencedor, há outra questão ainda mais substancial na saída de Lopes do seu PPD/PSD. Tem a ver com a enorme panóplia de ideias e tendências que o partido conhece no seu interior, algumas das quais são praticamente contraditórias. Na realidade essas divergências foram sempre uma característica do PSD. Pontualmente, permitiram por vezes uma soma positiva e obrigaram ao sistemático debate interno, ao confronto e à clarificação de posições, em vez de uma amalgama de vassalagens ao chefe do momento. Apesar de situações de oposição interna excessivas em certas ocasiões, sobretudo a pouco tempo de eleições (como atualmente sucede com os ataques sistemáticos de Carreiras a Rio para abrir caminho a Pinto Luz, que é quem manda mesmo em Cascais), as clivagens e tendências não impediram a conquista do poder e o seu exercício. Se olharmos para os muitos líderes do PSD, vemos personalidades que não têm grandes afinidades, mas o partido nunca deixou de ser fundamental na sociedade. Pode fazer sentido sair do PCP ou do Bloco por se deixar de ser marxista ou trotskista. Pode-se abandonar o PS por discordar da sua viragem excessiva à direita ou à esquerda. Pode-se bater com a porta no CDS por ele passar a ser PP, ou vice-versa. Mas deixar o PPD/PSD onde cabe tudo desde que não se seja extremista, é quase absurdo. Santana sabe muito de política. Pode até conseguir proximamente um resultado que lhe convenha e lhe dê espaço de negociação à direita ou à esquerda, ficando numa posição charneira. Por muito que ele diga que quer ganhar ao PS, há que recordar que foi ele que lhe deu a vitória em Lisboa de mão beijada ao não aceitar candidatar-se nas últimas autárquicas. Foi também ele que se deixou reconduzir à frente da Santa Casa por António Costa. Portanto, o suposto combate ao socialismo teria certamente mais êxito com ele dentro do PPD/PSD. A solução Aliança é provavelmente sol de pouca dura, por muita projeção mediática que esteja a ter e mesmo com a adesão de gente com muita qualidade e capacidade, como João Pessoa e Costa.

3. Enquanto se aguarda o regresso de Rio de uma longa e excessiva ausência em férias (bem pior ainda foi a de Costa que, no ano passado, partiu para o estrangeiro pouco depois de Pedrógão), já se percebeu que o líder socialista e primeiro-ministro não vai querer comprar guerras à esquerda. Fará o que puder para sugerir subliminarmente uma maioria absoluta para o PS. São os chamados serviços mínimos. Costa sabe perfeitamente que no dia em que alcançar a maioria absoluta perde automaticamente a paz social que o país apesar de tudo encontrou e sem a qual dificilmente há condições para o desenvolvimento.

Jornalista

 

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