20/9/18
 
 
Luís Menezes Leitão 28/08/2018
Luís Menezes Leitão

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O comboio do PS

O país estranhou a generosidade com que o PS beneficiou de um comboio especial destinado a levar militantes até Caminha, onde António Costa elogiou as grandes realizações dos seus mil dias de governo

A 9 de Abril de 1917 Lenine e os seus companheiros bolcheviques embarcariam num comboio especial selado em Zurique que os levaria a percorrer 3.200 quilómetros em oito dias até chegarem à estação da Finlândia em Petrogrado. Esse comboio especial tinha sido arranjado pela Alemanha, então em guerra com a Rússia, que pretendeu desta forma fazer chegar à capital russa um conjunto de revolucionários determinados a acabar com a guerra. Se Lenine tomasse o poder, e obtivesse a paz com a Alemanha, esta deixaria de ter uma segunda frente de guerra a leste e poderia concentrar-se no combate a ocidente. E de facto assim foi. Mal se apanhou na estação de Petrogrado, Lenine proclamaria que o governo provisório de Kerenski era totalmente imperialista e que tinha que ser derrubado pelos sovietes para se poder obter a paz. E apenas quatro meses depois os sovietes desencadeariam a revolução de Outubro, tendo o novo governo soviético dado em seguida aos alemães no Tratado de Brest-Litovsk mais territórios do que estes conseguiriam em anos de combate com a Rússia.

Fretar um comboio especial pode ser assim uma arma eficaz para se conseguir objectivos políticos, tendo obtido, no caso do comboio que levou Lenine para Petrogrado, mais sucesso para o esforço guerreiro alemão do que qualquer arma de destruição maciça que tivesse caído em território russo. Foi talvez baseado nesse precedente histórico que alguém no PS se lembrou de também organizar um comboio especial para apanhar militantes socialistas em todo o país desde o Pinhal Novo com 17 paragens pelo caminho até Caminha. O problema é que este governo deixou a CP de rastos, com os utentes a queixar-se de atrasos sucessivos, supressão de comboios, avarias no ar condicionado, etc., etc. Por esse motivo, o país encarou com bastante estranheza a generosidade com que o PS beneficiou desse comboio especial, especialmente quando o mesmo ainda provocou mais atrasos no serviço ferroviário normal do que aqueles que já são habituais. E ainda mais estranho foi a facilidade com que o PS arranjou na CP o seu comboio especial, quando outras instituições como o Benfica viram recusado pela CP o acesso a esse serviço.

Lá se arranjou assim o comboio que, em vez de levar António Costa ao encontro do povo, levou o povo ao encontro de António Costa no alto Minho. Deve ser preciso de facto muita militância política e espírito de sacrifício para alguém apanhar um comboio no Pinhal Novo às 9h35m, chegar a Caminha às 15h43m, ouvir um discurso de António Costa entre as 17h00 e as 18h30m, voltar a apanhar o comboio em Caminha às 20h35m e regressar ao Pinhal Novo às 2h32m de domingo. Isto num dia de derby Sporting-Benfica, que foi a única coisa a que todas as televisões ligaram, só tendo a RTP3 seguido o discurso de António Costa.

Mas, rentrée oblige, e António Costa lá fez o seu discurso habitual em que auto-elogiou as grandes realizações dos seus mil dias de governo (num tom a fazer lembrar as mil e uma noites de Xerazade), atacou a oposição do PSD e do CDS pelo que fizeram entre 2011 e 2015 e avisou os seus parceiros de esquerda para não serem irresponsáveis e deitarem tudo a perder. E pediu por isso que os eleitores dessem ao seu PS a vitória em todas as eleições que aí vêm, sejam elas legislativas, europeias e até as regionais da Madeira. A assistência não pareceu muito entusiasmada, o que talvez se possa explicar pelo cansaço resultante da longa viagem de comboio já realizada e pela perspectiva de viagem idêntica de regresso logo a seguir. Não é por isso previsível que o comboio do PS tenha sequer um milionésimo da influência política que teve o comboio de Lenine. À boa maneira do estado dos nossos comboios, e do país em geral, o comboio do PS anda devagar e transporta passageiros derreados e exasperados. Pouca terra, pouca terra.

 

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Escreve à terça-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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