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Veraniegos. O enorme fascínio dos gigantes de prata

Veraniegos. O enorme fascínio dos gigantes de prata

DR Afonso de Melo 15/08/2018 16:08

Torneios como o Ramón de Carranza ou o Teresa Herrera juntavam grandes equipas sul-americanas com as melhores da Europa e, sobretudo, de Espanha. O seu prestígio era enorme, mas caiu a pique nos últimos anos

Este ano, o Troféu Santiago Bernabéu valeu uma vitória do Real Madrid sobre o Milan por 3-1. Belo jogo para iniciar a época dos merengues, convenhamos. Mas foi para isso mesmo que a taça foi criada: para homenagear o antigo presidente dos madrilenos e para servir de apresentação da equipa aos seus adeptos. Desde 1979 que se disputa quase ininterruptamente. Os convidados são sempre gente de luxo: Bayern, Inter, Peñarol, River Plate, Boca Juniors. Benfica e Sporting também já estiveram em Chamartín para jogar um dos “veraniegos” mais importantes.

Veraniego é um termo impecável. Cai aqui que nem ginjas. De verão: torneios de verão disputados em Espanha, alguns patrocinados por clubes, como o Troféu Colombino, criado pelo Recreativo de Huelva, o Naranja, organizado pelo Valência, e o Joan Gamper, erguido pelo Barcelona, ou por edilidades, como o Ramón de Carranza, de Cádis, ou o Teresa Herrera, da Corunha. E sempre com algo em comum: uma taça de tamanho familiar para o vencedor. Nos últimos anos, infelizmente, perderam a aura mítica dos anos 60 e 70. Sobretudo porque o Carranza e o Herrera deixaram de ter dinheiro para convidar as figuras gradas que não dispensavam antigamente. E, além disso, os calendários dos grandes clubes mundiais começaram a ficar demasiado sobrecarregados para poderem entrar em torneios exigentes que obrigavam a três ou quatro dias de dedicação.

 

Carranza

Ficou conhecido como “Trofeo de los Trofeos”: Ramón de Carranza. O nome foi-lhe atribuído por via de um antigo alcaide de Cádis. O objetivo foi demarcado logo na data da sua implantação, em 1955: um torneio que deveria ter lugar no início do mês de agosto e pôr em confronto equipas espanholas com grandes equipas mundiais. E rapidamente se implantou a regra de um quadrangular, com meias-finais e final, o que fazia com que ganhasse ainda mais competitividade. 

O Carranza teve durante anos um prestígio único. Flamengo, Santos, Vasco da Gama, Palmeiras, Botafogo (do Brasil); Ajax (Holanda); Peñarol e Nacional (Uruguai); Estudiantes e Independiente (Argentina); Milan e Inter (Itália); Benfica e Sporting (Portugal) desafiavam o Atlético de Madrid, o Real Madrid e o Barcelona pela posse de uma taça que precisava de pelo menos quatro jogadores para a carregarem. 

Das equipas portuguesas foi o Benfica o maior vencedor do Carranza: dois triunfos, em 1963 e 1971. Só duas equipas fora de Espanha conseguiram melhor: os brasileiros do Palmeiras e do Vasco da Gama, com três cada qual, o último com a proeza de três vitórias consecutivas. Em 1964 e 1965, os benfiquistas atingiram também a final, perdendo na altura para Bétis e Zaragoza.

Juan Tallón, no “El País”, escreveu há um ano um artigo muito interessante sobre a morte dos torneios de verão em Espanha. E sublinhou desta forma a importância que tiveram: “En un país así, disputar el Colombino, el Gamper, el Naranja o el Santiago Bernabéu proporcionaba prestigio, a la vez que el museo del equipo se llenaba lentamente de trofeos bañados en plata.”

O gigantismo das taças provocava a gula. Não havia quem não se sentisse orgulhoso por ter uma daquelas enormes senhoras de prata maciça nas suas vitrinas.

 

Teresa Herrera

O Troféu Teresa Herrera figurava em segundo lugar na hierarquia dos veraniegos. Disputa-se no Estádio Riazor desde 1946. Também com o mesmo esquema de quatro equipas, em meias-finais e final.

De alguma forma, era mais aberto que o seu rival de Cádis. Havia mais variedade de participantes mas, geralmente, com a mesma preocupação de receber um clube sul-americano de renome, de forma que a prova ganhasse mais colorido. Aliás, os sul-americanos apareciam sempre nestes torneios com uma vontade acrescida de bater os europeus no seu próprio continente. Cada vitória tinha um sabor especial. Por isso, não se estranha que cinco brasileiros tenham inscrito o seu nome na lista dos vencedores: Vasco da Gama, São Paulo, Santos, Botafogo e Fluminense. Já Portugal viu coroar o Sporting, o FC Porto, o Benfica e o Vitória de Setúbal.

Dos maiores veraniegos, o Colombino vinha em terceiro lugar. Começou em Huelva em 1965 e foi criado pelos dirigentes do clube local, o Recreativo, tendo como prémio para o vencedor uma enorme caravela em prata. Também tinha meias-finais e final, mas menor presença de equipas sul-americanas. Não admira, portanto, que sejam os espanhóis os maiores açambarcadores da dita caravela. O Benfica atingiu duas finais, perdendo-as para a seleção do Chile e para o caseiro Recreativo, em 1987 e 1992. O Sporting trouxe a taça para Lisboa em 2006, vencendo o Recreativo na final. Nessa fase, já o Colombino se transformara num triangular para não tardar a disputar-se num jogo só.

A década de 2000 foi terrível para os veraniegos. A quebra de receitas e a falta de nomes excitantes fizeram com que apenas o Santiago Bernabéu e o Joan Gamper se mantivessem dentro de uma saudável competitividade. Cada vez parecia haver menos tempo para pequeninos campeonatos do mundo de clubes. Mesmo que valessem taças que entupiam os museus dos clubes vencedores.

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