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Filipe Duarte Santos. “Os fogos de outubro libertaram energia térmica igual a 142 bombas atómicas”

Filipe Duarte Santos. “Os fogos de outubro libertaram energia térmica igual a 142 bombas atómicas”

António Pedro Santos Beatriz Dias Coelho 10/08/2018 14:04

Para o físico, explicar a Trump que as alterações climáticas existem realmente seria muito difícil porque “ele não quer ouvir”

Filipe Duarte Santos é investigador e professor universitário, apontado em Portugal como um dos maiores especialistas em alterações climáticas. Em conversa com o i, o também presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável fala sobre a forma como as alterações climáticas potenciam incêndios como o de Monchique ou os do ano passado e as consequências para o ambiente. Avisa que, conseguir cumprir o Acordo de Paris é um desafio “global” e deixa o alerta: se não o cumprirmos, a paisagem e o clima portugueses serão muito diferentes e algumas zonas costeiras vão provavelmente ficar em risco.

 

De que forma as alterações climáticas contribuem para  a intensidade dos incêndios, como este em Monchique ou  os do ano passado?

As alterações climáticas aumentam a temperatura média global da atmosfera. É uma temperatura que não sentimos diretamente - é a média das temperaturas para todas as estações meteorológicas do  planeta ao longo de um ano -, mas que já aumentou cerca de um grau Célsius desde o período pré-industrial, ou seja, desde há cerca de 250 anos. Com este aumento, as ondas de calor são mais frequentes. Dou-lhe uma analogia: suponha que vai de automóvel de Lisboa para o Porto e a velocidade média que faz é 100 km/h, mas por vezes,  é 120 ou 140 e outras vezes 60 -  portanto, variou a velocidade, mas a velocidade média foi 100 km/h. Agora, suponha que a sua velocidade média era de 120 km/h, os picos de velocidade agora já iam para os 160 km/h. Os picos eram mais elevados e mais frequentes, porque a velocidade média era maior. Com a temperatura é a mesma coisa, daí que tenhamos mais ondas de calor. Além de maior temperatura, há maior variabilidade - em vez de a velocidade oscilar entre 60 e 140, oscila entre 20 e 180 -, o que é também é uma evidência das alterações climáticas. Além disso, no ano passado tivemos duas grandes ondas de calor e, aliadas à seca, tivemos condições para que se dessem incêndios de grandes proporções fora da época, em junho e em outubro. 

A conjugação dessas condições é, então, explosiva?

Sim. A seca com as temperaturas altas, mas também a acumulação de biomassa nas florestas - porque a floresta portuguesa tem poucas pessoas a tratar dela - é uma combinação explosiva. A energia térmica (calor) libertada pelos incêndios de junho em Portugal no ano passado é equivalente à libertada por 68 bombas atómicas de Hiroshima. E em outubro, o incêndio libertou mais energia térmica, o equivalente a 142 bombas atómicas. Tal como os  mega incêndios do ano passado, o de Monchique é também um mega incêndio e já arderam mais de 20 mil hectares. É extremamente difícil, diria quase impossível, parar um incêndio destes.

Que consequências trazem incêndios como esses para o ambiente?

Contribuem para as alterações climáticas, que são provocadas pela emissão para a atmosfera de dióxido de carbono, que resulta da combustão da matéria viva, de biomassa, além, claro, da combustão de combustíveis fosseis - carvão, petróleo, gás natural. No ano passado tivemos oito mega toneladas de dióxido de carbono emitidas devido aos fogos florestais, o que torna muito mais difícil o cumprimento da meta europeia de redução dos gases com efeito de estufa. Por outro lado, se não houver incêndios, as árvores funcionam exatamente ao contrário e sequestram o dióxido de carbono da atmosfera.

E que mais?

Além disso, a poluição atmosférica que se cria é muito gravosa para as pessoas que estão a combater o incêndio e que vivem nas zonas afetadas. E claro que tem efeitos na biodiversidade, porque são áreas muito grandes a arder e a flora e a fauna são muito lesadas. Após o incêndio, os terrenos que foram sujeitos ao fogo são ocupados muitas vezes em primeiro lugar por espécies botânicas invasoras. Estamos a ficar cada vez mais com acácias e mimosas porque elas são as primeiras a avançar depois de um incêndio. Além disso, depois do incêndio o terreno fica coberto de cinzas e as cinzas são hidrófobas, ou seja, não deixam a água penetrar. Apesar disso, a água que escorrega leva algumas cinzas, especialmente se a chuva for muito forte, levando também solo e intensificando a erosão. Depois, essa cinza acaba por ir para os rios e para as barragens, de onde extraímos água para beber.

Essas cinzas contaminam a água que bebemos?

Exatamente. Isso aconteceu no ano passado, não foi assim muito noticiado, mas aconteceu na barragem de Castelo de Bode, que abastece Lisboa. A EPAL teve alguma dificuldade em controlar o problema porque houve incêndios nas encostas da bacia hidrográfica do Zêzere, que alimenta Castelo de Bode, e essas cinzas foram para a barragem e teve de se ter muito mais atenção no tratamento da água que veio para Lisboa e que nós bebemos.

Há estações que podem vir a desaparecer, como as intermédias? A que se deve a instabilidade das estações?

Não, é preciso que as pessoas percebam bem o que está na base. As estações do ano resultam do facto de o eixo da Terra não ser perpendicular ao plano da órbita da Terra em torno do Sol. Quando se lança um pião, por exemplo, ele fica a rodar, mas inclinado - é como se fosse a Terra. E como a Terra anda à volta do Sol, há uma parte do ano em que o norte recebe menos radiação solar e o sul mais e vice versa. As estações do ano têm que ver com a inclinação do eixo da Terra, não têm propriamente que ver com o clima. Já a instabilidade nas estações, o estar mais frio ou quente, deve-se a uma maior variabilidade. É a tal analogia da velocidade: em vez de a velocidade oscilar entre 60 e 140 km/h, oscila entre 20 e 180 km/h.

Sabemos que Portugal é um dos países que mais vai sofrer com as alterações climáticas. Em que se vai traduzir isso?

Já está a sofrer, aliás, como vemos. Os setores mais vulneráveis do país são a agricultura, as florestas devido ao risco de incêndios florestais, a biodiversidade, e as zonas costeiras, por causa da subida do nível médio do mar. Já subiu 20 centímetros desde o período pré-industrial e, até ao final do século, pensa-se que suba cerca de 80 centímetros, continuando a subir depois. Por isso, a costa baixa que temos, como a foz do Porto até à Nazaré e até o Algarve, vão tornar-se muito vulneráveis à inundação. Além desses setores, há que referir ainda os recursos hídricos, por causa da diminuição da precipitação.

Podemos imaginar um cenário de escassez de água como norma?

Tende a agravar-se e a verdade é que sempre tivemos esse problema na nossa História. Na Idade Média tivemos secas horríveis, em que morreu muita gente. A maior parte da água consumida cá é para a agricultura, são cerca de 76%. Mas há anos em que não há agua que chegue para todos os seus usos e isso viu-se no ano passado, com o abastecimento a ser feito por camiões cisterna em algumas partes do país. Para minimizar os efeitos dessa escassez teremos de cumprir o Acordo de Paris, caso contrário ficará muito complicado.

Como podemos preparar-nos para as alterações climáticas?

Há um conceito adotado nos estudos feitos sobre isto e mundialmente aceite pelos países e pela ONU, por exemplo, que é a Adaptação às Alterações Climáticas [conjunto de medidas adotadas pelos países para responderem às alterações climáticas - em Portugal, existe a Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas]. A outra resposta é a mitigação - redução das emissão de gases com efeito de estufa -, que passa pela tal transição energética. Abandonar os combustíveis fósseis é, sem dúvida, das coisas mais importantes. Além do Acordo de Paris, é preciso que os países à escala global - e este é o grande desafio - sejam mais ambiciosos na transição para as energias renováveis e para a eficiência energética. Não basta fazer a transição, é preciso termos sistemas energéticos e equipamentos, desde o nosso frigorífico à climatização das nossas casas à nossa mobilidade, que consumam um mínimo de energia para a mesma funcionalidade.

E como tem sido a prestação de Portugal nesta matéria?

Tem avançado bastante, é um bom exemplo no sul da Europa, de transição para as energias renováveis, mas no que respeita à eficiência energética, já não é um aluno tão bom.

Cumprirmos o Acordo de Paris é utópico?

Muito boa pergunta. No mundo, 80% das fontes primárias de energia são combustíveis fosseis - carvão, petróleo, gás natural. Por outro lado, temos um mundo em que a população global está a crescer e numa grande parte - Ásia e África em geral - há pessoas que ainda vivem com baixa qualidade de vida - sem acesso a eletricidade, ou seja, que consomem pouca energia. Mas essas pessoas, para aumentarem o seu bem estar vão ter de, no futuro, consumir mais energia. Por outras palavras, há e haverá uma grande procura de energia no mundo e o combustível mais facilmente acessível é o carvão, que é também o mais poluente dos três. Portanto, é necessário realmente fazer um esforço muito grande para os países - e sobretudo aqueles que são maiores consumidores de energia e que emitem mais dióxido de carbono - fazerem uma transição energética. A transição está a ser feita na China, onde estão a investir imenso em energias renováveis, na Índia também, mas em menor escala, em África e na América Latina há a consciência do problema e a transição está a ser feita, mas ainda de uma forma insuficiente. Além disso, temos nos EUA um governo eleito que defende o consumo de combustíveis fósseis e isso complica muito a situação atual...

Se pudesse sentar-se com Trump, como tentava convencê-lo de que as alterações climáticas existem realmente?

Seria uma conversa extremamente difícil, porque ele não quer ouvir. As pessoas têm tentado falar com ele, como o Al Gore. O que está na cabeça dele e das pessoas que o rodeiam é o crescimento económico dos EUA e estão convencidos de que uma transição energética seria prejudicial ao crescimento económico do país. Tanto mais que, neste momento, os EUA são praticamente independentes no que respeita à energia, quando no passado tinham de importá-la do Médio Oriente, mas hoje têm o petróleo de xisto e o gás de xisto e são praticamente suficientes em petróleo e gás natural. Além disso, um dos seus grandes objetivos agora é exportar o gás que estão a produzir para a Europa. Quando são confrontados com a ideia de que daqui a 50 anos vamos estar num mundo muito inóspito do ponto de vista climático, respondem que vão encontrar uma solução para introduzir outra alteração climática para contrariar a primeira - a chamada geoengenharia. 

Daqui a 100 anos, imaginado que não conseguimos cumprir o Acordo de Paris e que as alterações climáticas continuam a intensificar-se, como será a paisagem em Portugal?

É difícil responder, mas estou convencido de que será um país com uma paisagem muito diferente, mais parecido, pelo menos no sul, com o norte de África. Vamos ter grandes problemas em proteger povoações costeiras como o Furadouro ou a Vagueira, que foram construídas nas dunas. As florestas de Portugal daqui a 100 anos terão uma extensão muito menor, com transformações também ao nível das espécies. Tenho dúvidas de que o montado consiga resistir nas planícies do sul do país - teríamos azinheiras, que são mais resilientes, mas os sobreiros nem tanto. Tudo isto se não se cumprir o Acordo de Paris e se estivermos com mais de dois graus célsius de aumento da temperatura em 2100, claro. O mesmo se passa em Espanha, onde o montado se chama dehesa. Eles estão muito preocupados com isso e estão até a fazer estudos para ver se conseguem modificar geneticamente a azinheira para garantir que resiste a temperaturas mais altas. É que a bolota da azinheira é a bolota que come o porco preto, a partir do qual se produz o presunto ibérico, tão apreciado e que lhes dá tanto rendimento.

Saiu um estudo esta semana na revista científica PNAS, que veio alertar para a possibilidade de o efeito de estufa se tornar permanente. É algo novo?

Não, esse estudo não traz conclusões muito novas. Alerta, sim, para a hipótese de haver uma série de consequências das alterações climáticas, que acabam por se conjugar umas com as outras e criar uma situação mais grave do que a que estamos a imaginar. O artigo tem sobretudo a preocupação com o tipping point - ou ponto de viragem -, que são respostas do sistema climático que não são lineares. É como um elástico, por exemplo: se esticar um elástico, quanto mais força fizer ele mais estica, mas continuando a esticá-lo ele acaba por partir. É o mesmo com o sistema climático: a resposta é linear, aumenta-se a emissão e a resposta é linear, mas a certa altura há transformações profundas no sistema de terra que alteram muito o clima. E isso é muito preocupante.

E o problema do lixo?

É um problema grave, em particular ao nível das zonas urbanas e sobretudo porque se prevê que, até 2050, cerca de 62% da população global viva nessas zonas. Atualmente está mais ou menos a metade, por isso no futuro será o caos. O problema do lixo tem muito que ver com o consumismo, quem consome mais, produz mais lixo, mas por outro lado o que o nosso sistema económico procura é que as pessoas comprem muito porque é isso que aumenta o PIB. Felizmente, já se pensa na possibilidade de adotar a economia circular e de não haver lixo, porque todos os resíduos seriam reutilizáveis e recicláveis, mas evidentemente estamos ainda muito longe disso. Ainda assim, há uma maior consciência desse problema, sobretudo nos países com economias mais avançadas. Temos que ter um conceito diferente de prosperidade, baseado no nosso bem estar mas não necessariamente no consumo material. 

Como vê a intenção de prospeção e exploração de petróleo?

Não vejo necessidade de se fazer essa prospeção, uma vez que o governo português tem o objetivo, conforme decidido pelo senhor primeiro-ministro, de ter uma economia neutra em carbono em 2050. É um objetivo muito exigente, significa que não vamos ter emissões de dióxido de carbono exceto aquelas que compensem os sumidores naturais, ou seja, as florestas. Há poucos países com este objetivo, é extremamente exigente. Simplesmente, isso não se conjuga com o conhecimento que existe de que para cumprir o Acordo de Paris é necessário manter no subsolo cerca de 70% de todas as reservas conhecidas e economicamente exploráveis de carvão, petróleo e gás natural. Há ainda muito gás, carbono e carvão no subsolo e se queremos cumprir o Acordo temos de deixar no subsolo  cerca de 70% desses combustíveis fosseis. Não se percebe muito bem qual é a justificação para estar a permitir a prospeção de combustíveis fosseis na nossa plataforma continental. Uma coisa é certa: se continuarmos globalmente a explorar e consumir combustíveis fosseis ao ritmo que estamos a fazê-lo, as alterações climáticas vão agravar-se muito e vão conduzir a humanidade a um mundo com um sistema climático bastante inóspito e com consequências muito mais gravosas do que as que já estamos a viver.

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