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Benfica-Fenerbahçe. Vampiros encarnados chupando as carótidas dos pobres canarinhos

Benfica-Fenerbahçe. Vampiros encarnados chupando as carótidas dos pobres canarinhos

DR Afonso de Melo 06/08/2018 09:38

A primeira vez que o Fenerbahçe pisou o Estádio da Luz sofreu uma das maiores derrotas da sua história centenária - 7-0! Foi em setembro de 1975 para a Taça dos Campeões Europeus. O futuro do Benfica na prova desse ano não foi brilhante, mas entrou com a força de um verdadeiro vendaval

Amanhã, o Fernerbahçe, um dos clubes mais históricos da Turquia, com mais de 110 de vida, campeão do seu país em 19 ocasiões, jogará no Estádio da Luz, frente ao Benfica, a primeira mão da pré-eliminatória que dará acesso ao “play-off”, penúltimo degrau antes da fase de grupos da Liga dos Campeões.

Ora, no dia 17 de setembro de 1975, o Fernerbahçe também estava em Lisboa. E os seus jogadores mal imaginavam o lhes que estaria para acontecer...

O treinador dos turcos era Waldyr Pereira. Dito assim talvez poucos o conheçam. Façamos como Nelson Rodrigues: Waldyr Pereira – por extenso Didi. 

Didi foi enorme. Há quem garanta que foi o inventor da “folha seca”, o livre marcado em jeito, a bola caindo caindo caindo lá no cantinho da baliza. Jogou um pouco por todo o Brasil, no Fluminense, no Botafogo, no São Paulo, também na Europa, no Real Madrid, para onde veio após o extraordinário Campeonato do Mundo que protagonizou na Suécia, em 1958.

Portanto, em setembro de 1975, Didi comandava o Fernerbahçe, adversário do Benfica na primeira eliminatória da Taça dos Campeões Europeus. Coitado! Nunca passara por nada igual...

O Fernerbahçe Spor Kulübü é de um local aprazível de Istambul: Kadiköy, do lado asiático do Bósforo. Já lá estive por mais de uma vez e vi: esplanadas simpáticas viradas para o mar de Marmara e para as marinas, zonas verdes, passeios largos. Vale a pena.

Foi fundado em 1907 e jamais sofrera o que viria a sofrer em Lisboa, nesse mês de setembro. Veste de amarelo e azul, às listas. Chamam-lhes os  Sari Kanaryalar, os Canários Amarelos...

Didi, à chegada a Lisboa, confessava que já tinha tido um tentador convite para treinar os Sporting... Mas o dinheiro falou mais alto, e em turco.

Noite de chuva. Não foi uma edição brilhante da Taça dos Campeões, essa de 1975-76, para o Benfica. Tombaria com estrondo nos quartos-de-final frente ao Bayern de Munique (0-0 na Luz, 1-5 em Munique). Mas isso não vem agora a propósito. Falo do Fernerbahçe, os Canários Amarelos, que não regressam à Luz tal como ordenou o sorteio.

O Benfica tinha problemas na defesa, Messias e Artur estavam de fora, era tempo de avançarem António Bastos Lopes e Malta da Silva, nada que não se resolvesse jogando mão da velha máxima benfiquista que, assim sendo, havia então que atacar. E como atacou a equipa de Mário Wilson!

Sete-golos-sete! Sete-a-zero! As águias vermelhas mastigaram os canários amarelos.

Era Lisboa e chovia, teria escrito Dario de Castro Alves. Chuva chata, de morrinha, encharcando corpos e almas. 

O Benfica imponente, avassalador, logo com razão de queixa de um penálti perdoado aos turcos iam passados quatro minutos do jogo. Pouco importava. 

“Saiam da frente que temos pressa”, pareciam gritar os avançados encarnados: Moinhos, Jordão, Nené, Vítor Martins e Shéu na ajuda.

E duas bolas à trave pelo meio dos golos.

Falemos dos golos: 1-0 por Shéu (22 m); 2-0 por Nené (33 m); 3-0 por Sabahattin na própria baliza (43 m); 4-0 por Jordão (60 m); 5-0 por Nené (72 m); 6-0 por Jordão (75 m); 7-0 por Jordão (82 m). 

Ataque em carrossel, bola movimentada a toda a largura e todo o comprimento do terreno, fundamental auxílio ofensivo de Vítor Baptista e de Nelinho, um a rapidez incontrolável dos moços das camisolas vermelhas de sangue que se diria quererem sangue como vampiros insaciáveis. 

A violência turca fez-se sentir desde cedo, com Sahabattin, Alpastar e Rasit a demonstrarem um mau perder de fazer perder a paciência ao mais paciente dos adeptos da Luz. Não conseguiam travar os avançados do Benfica de outra forma. Caçavam-nos a patadas como se fossem ratazanas. Mas não havia um só benfiquista que tivesse piedade. Mordiam-lhes as carótidas, tiravam-lhes a vida.

A segunda mão, em Istambul, foi um pró-forma: 1-0 para o Fernerbahçe.

Anos depois, largos anos depois, o Fernerbahçe sofreu os abalos terríveis de uma investigação levada a cabo no futebol turco e que considerou alguns dos seus dirigentes responsáveis pela corrupção de árbitros. Nada que, infelizmente, também não exista por cá, com os pobres resultados que se conhecem e com os mesmos vergonhosos presidentes do costume. Houve quem propusesse a devolução dos troféus ganhos de forma suja, uma atitude que fica em dignidade muito para lá do que poderiam imaginar os nossos dirigentes corruptos. Mas a mancha ficará sempre. No futebol não há lixívia que apague a nódoa da batota.

Em 1975, o Fernerbahçe ainda não estava sujo. Não tinha competência para se bater na Taça dos Campeões Europeus, mas não era grave. O futebol turco viria a crescer ao longo das décadas. Agora está de volta. Os tempos são outros. Mas é em cima das memórias que se fazem erguer os contrafortes da esperança.

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