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Sense8. O génio da multidão

Sense8. O génio da multidão

Diogo Vaz Pinto 01/08/2018 13:08

Depois de ser cancelada, esta série de culto da Netflix viu os seus fãs inspirarem-se nela, fazendo campanha para obrigar os estúdios a ressuscitá-la com um filme (estreado em junho) que lhe desse uma conclusão

 

Nunca delírio e lucidez se pareceram tanto, ou complementaram tão perfeitamente. Nem a foleirice provou ser tão criativa e ousada como acontece na ambiciosa série de ficção-científica da Netflix, “Sense8”. Depois de ter arrancado em 2015, esta criação, que combina o génio extravagante do criador de “Babylon 5”, J. Michael Straczynski, e a intuição estética das lendárias irmãs Wachowski, responsáveis por “The Matrix”, acabou cancelada no final da segunda temporada, em 2017, deixando os muitos fãs (claramente, não os suficientes) em estado de choque. Teriam de fazer o seu luto sem sequer a compensação de um final que houvesse deixado a casa minimamente arrumada. E esta teria sido só outra série de culto abatida quando ainda prometia muito, não fosse a diferença de paradigma introduzida pelo modelo da Netflix. Neste serviço, as séries ao invés de, com o seu fim, serem lançadas no limbo televisivo, passam a um estado de aparente dormência, com a possibilidade de alargar o seu público pacientemente, até estarem armadas e terem os números para voltarem à carga.

Em parte, foi isto o que “Sense8” conseguiu. Face a um final que abandonou a trama como uma fratura exposta, os fãs não se resignaram, e, no que poderia ser uma página arrancada do próprio guião da série, uniram-se, usaram as suas capacidades de mobilização através da internet e agiram coletivamente de forma a resgatar a série. É certo que os estúdios não mudaram de ideias no que toca ao cancelamento, mas deve considerar-se uma vitória e um excelente precedente o filme de duas horas anunciado no verão de 2017, e que chegou em junho passado ao serviço de streaming.

Se duas horas não dá para mais do que cauterizar o coto, tratando-se de uma trama que, para alcançar uma conclusão satisfatória, talvez precisasse de mais algumas temporadas, pelo menos, há de amparar as muitas viúvas de uma série que, tão cedo, não terá rival no que toca à forma corajosa e desabusada como lidava com questões de identidade.

Foi, de resto, Lana Wachowski quem começou por levantar reservas à hipótese de apertar em duas horas uma proposta que pedia um horizonte bem mais vasto. Mas o que não podia era defraudar a campanha orquestrada coletivamente pelos fãs, e pelos próprios atores da série, no sentido de providenciar um balão de oxigénio para que “Sense8” não fosse mais uma dessas precoces carcaças no cemitério televisivo, com o machado dos executivos alojado entre os ossos.

Na mensagem que deixou no Facebook anunciando as boas novas, Lana premiou o otimismo dos seguidores, afirmando: “Neste mundo é fácil ser-se levado a pensar que não somos capazes de fazer a diferença, e que, quando um governo ou uma instituição toma uma posição, há algo de irrevogável nela. É fácil ser-se convencido de que o amor nunca está à altura dos imperativos do lucro.” Com isto, Lana adiantava que, se muitas vezes esse é o caso, desta vez, o amor dos fãs conseguiu trazer de volta a criação a que se dedicara como a mais nenhuma outra.

Antes de nos abalançarmos numa tentativa de puxar o fio que possa dar uma perspetiva à meada desta série, vale a pena lembrar que um dos motivos que fez de “Sense8” uma criação televisiva tão empolgante foi o astronómico orçamento, que, alegadamente, rondaria os 9 milhões de dólares por episódio. Permitiu isto que fosse filmada em mais de uma dúzia de países, e complementada por efeitos especiais à altura dos tantos saltos, mudanças de ritmo e inúmeras vezes em que o enredo nos desafia a suspendermos a descrença para aceitarmos as suas mirabolantes reviravoltas.

Na sua cativante metamorfose ambulante, a série conta com oito estranhos, todos levando vidas, na maior parte, bastante comuns, à volta do mundo. E o puzzle narrativo vive da forma como as mudanças de perspetiva oferece camadas à série, dispondo de vários iscos, estímulos de que esta se serve para nos manter minimamente focados, enquanto um desfile algo confuso de informações e peças se encaixam de um modo aparatoso. Além da beleza estonteante de certos planos - aqui e ali afetados por uma espécie de cobertura glacê, que associamos aos spots publicitários e videoclips musicais -, temos um elenco de atores de várias nacionalidades, vestindo personagens ligadas por razões misteriosas, e que irão formar um clã poderosamente coeso. Assim, de um momento para o outro, os membros deste bando de tão diversas origens começam a entrar pela consciência e sensibilidade uns dos outros: Temos o polícia de Chicago que, subitamente, dá por si no mesmo quarto de uma bela mas esquiva DJ islandesa. Temos a hacker transgénero e lésbica que dá por si no lugar do morto num autocarro conduzido pelas ruas de lama de Nairobi por um motorista com uma séria obsessão por Van Damme. Há a virginal cientista indiana que, nas vésperas do seu casamento, dá por si a cruzar-se insistentemente com um gangster alemão. E há ainda o protagonista de filmes de ação mexicano, ainda no armário em relação à sua homossexualidade, e que, sem saber bem como, dá de caras com uma mulher de negócios sul-coreana que, ao primeiro sinal de chatices, prova os seus dotes como especialista em artes marciais, rompendo com o registo mais fofo da série - às vezes tocante e comovedor, outras irritantemente ingénuo e mesmo piroso -, desflorando cenas de porradaria altamente estimulantes.

Parece confuso? Pois, as coisas só estão a aquecer. Em breve, vamos descobrir que os nossos oito protagonistas não só estão unidos por laços que vão muito além da telepatia, mas são exemplares de um outro ramo paralelo da evolução humana, e que, como eles, há muitos outros. Não falta também uma maléfica corporação empenhada em levar à extinção esta anómala subespécie, obrigando os “sensates” a unirem esforços para escapar à caçada que lhes é movida por um deles, um tipo mal-encarado cuja alcunha é o “canibal”.

O traço que isola esta série e poderá fazer dela uma precursora num terreno ainda bastante inexplorado da ficção televisiva é a forma como, tomando balanço numa premissa que se delicia ao romper com as nossas noções da realidade e com os limites da nossa sensibilidade e consciência, cria um terreno igualmente propício à suspensão dos nossos juízos morais, dinamitando uma série de preconceitos. “Sense8” reflete evidentemente as preocupações das irmãs Wachowski, e, desde logo, a experiência da mudança de sexo das duas, fazendo-se valer do conceito de transhumanismo, ou seja, a ideia de que, no futuro, poderemos superar os constrangimentos que nos isolam, e romper as costuras da nossa individualidade.

Foi Julian Huxley, o irmão de Aldous, que cunhou o termo num livro de 1927, chamado “Religion Without Revelation”, onde defendeu que o transhumanismo passaria por “o homem permanecer o que é, mas transcender a sua individualidade, dando-se conta de novos horizontes abertos à natureza humana”. Como lembra Joshua Rothman na “The New Yorker”, Julian foi uma figura contraditória, tendo sido um dos impulsionadores do World Wildlife Fund (WWF) e o primeiro diretor da UNESCO, foi também, por um tempo, o presidente da British Eugenics Society. “Como ele, o movimento transhumanista - que atualmente tem focado a sua ação no aprimoramento humano através da alta tecnologia - é, ao mesmo tempo, intrigante e assustador”.

“Sense8” não perde muito tempo a contemplar o lado mais inquietante deste movimento, preferindo explorar a fluência emocional entre seres que se vão tornando cada vez mais íntimos à medida que o esforço para sobreviver os leva a cooperar, a gozar de uma poderosa sincronia, com a mistura das peculiaridades e capacidades de cada um, bem manejadas, acabando por equivaler-se a superpoderes. Enquanto aprendem a tocar em banda, e alguns até se apaixonam, alcançando níveis de prazer inimagináveis para nós (meros humanos), vão enfrentando as atribulações das suas vidas em assembleia. O argumento acompanha a superação dos complexos e traumas de cada um dos protagonistas, e, nesse processo, declara guerra a todas as formas de intolerância. E se as boas intenções da série não a tornam demasiado pastosa, isso deve-se ao facto de nunca estarmos muito longe de uma esquina, do corte para uma cena de ação gozosamente tresloucada. A par disto, a série também faz bom uso da nudez e do sexo, num erotismo que acentua a iridescência deste mosaico, celebrando a pansexualidade, sem culpas, com o corpo visto como um veículo para se participar da inebriante sinfonia que será algo como o concerto que ouvirão os deuses nas suas cabeças.

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