19/9/18
 
 
Carlos Zorrinho 01/08/2018
Carlos Zorrinho
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Trump – o filho da nova ordem digital

Os novos populistas, pelo menos como tipologia geral, são o produto da megaplataforma digital em que se transformou o mundo de hoje. A nova ordem é uma ordem digital

Há cerca de uma semana pude debater o tema da transformação digital e das suas implicações nas relações internacionais com um grupo de jovens de toda a Europa que participaram em Portugal no 23rd Portuguese Atlantic Youth Seminar, realizado na Academia Naval do Alfeite.

O tema proposto, “Conexões Digitais – um mundo sem fronteiras”, pressupunha a ideia de uma nova partida e de uma nova reconfiguração da ordem mundial em moldes muito diferentes da velha ordem. O mundo digital cria a aparência de ser um mundo sem fronteiras, mas o seu desenvolvimento exponencial tem feito implodir muitas fronteiras institucionais, administrativas e legais.

No lugar de cada fronteira que se esvai ou enfraquece nascem novas fronteiras definidas pelos padrões de interconexão das diversas redes. Esta nova cartografia emergente é autorregulada ou desregulada, dado que os novos enquadramentos legais só agora começam a ser esboçados.

Somos tentados a pensar que a destruição da velha ordem internacional se deve à ação de personagens ainda há pouco tempo improváveis em lugares de liderança global. Precisamos de alterar em 180 graus a nossa perspetiva de observação. Os novos populistas, pelo menos como tipologia geral, são o produto da megaplataforma digital em que se transformou o mundo de hoje. A nova ordem, ou desordem global, é uma ordem digital e Trump é o seu filho dileto.

Vivemos hoje num mundo estruturado em redes mais ou menos temáticas, legais umas e ilegais outras, que se combinam e interagem gerando múltiplas ordens globais que concorrem ou cooperam entre si com geometrias variáveis e oportunistas, e nas quais os líderes populistas e desprovidos de compromissos históricos e éticos jogam os seus interesses de poder e de sobrevivência.

Aceitar, pelo menos como hipótese, que a nova ordem digital cria condições para a emergência das lideranças populistas e erráticas convoca-nos para uma mobilização cívica para agir, visando desenvolver redes alternativas integradoras e reguladoras que nos permitam jogar o jogo no terreno em que temos vindo a perdê-lo.

Estando em Portugal, num espaço que evoca a nossa marinha e os nossos marinheiros, com uma vista privilegiada sobre o Tejo e sobre Lisboa, sugeri aos meus jovens e profundamente informados e motivados interlocutores, como exemplo de ação, a criação de uma rede não territorialmente contígua de países médios, com história, tradição e laços globais, para regular o choque de grandes potências que se adivinha no horizonte como substituto da falência da Pax americana.

A rede que permitiu a eleição de António Guterres como secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) é um exemplo de uma rede com dinâmica positiva e que pode ser contraposta à dinâmica destrutiva da rede que conduziu Trump ao poder na Casa Branca.

O contexto mudou, mas nada está perdido. O bem e o mal continuarão a sua luta perene, agora em novos territórios.

É na nova ordem digital que tudo se vai jogar. Todos temos uma palavra a dizer na geopolítica global das novas fronteiras digitais, porque elas serão construídas à nossa imagem e semelhança. À imagem e semelhança dos valores que fizermos prevalecer.

 

Eurodeputado

 

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