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Maternidade. Mulheres com mais filhos envelhecem mais depressa? Ciência diz que sim

Maternidade. Mulheres com mais filhos envelhecem mais depressa? Ciência diz que sim

Shutterstock Beatriz Dias Coelho 30/07/2018 22:14

Estudo acompanhou centenas de mulheres. Investigadores concluíram que nas que têm mais filhos o envelhecimento celular é acelerado entre seis meses e dois anos a cada gravidez 

Alguma vez pensou que as mulheres com mais filhos têm um ar mais envelhecido? Certamente que não foi a única pessoa a suspeitar isso, e a ciência dispôs-se a testar a teoria e mostrou que é verdade.

O estudo de um grupo de investigadores das universidades norte-americanas de Northwestern e de Washington, intitulado “Reproduction predicts shorter telomere and epigenetic age acceleration among young adult women”, foi publicado na semana passada na revista científica Scientific Reports e concluiu que gravidezes múltiplas podem levar as células das mulheres a envelhecerem mais rapidamente.

A equipa analisou dois marcadores de envelhecimento celular diferentes: o comprimento dos telómeros e a idade epigenética. Como Calen Ryan, um dos autores do estudo, explicou, ambos os marcadores “preveem a mortalidade e ambos pareciam ‘mais velhos’ nas mulheres com mais gravidezes”. A partir de uma amostra de centenas de jovens mulheres das Filipinas, os investigadores concluíram que o envelhecimento celular tinha sido acelerado entre seis meses e dois anos por cada gravidez.

Mas não foi apenas isso que surpreendeu a equipa: os investigadores descobriram que as mulheres que, na altura da análise, estavam grávidas, tinham células mais jovens, e não mais envelhecidas como seria expectável.

“Paradoxalmente, apesar de a idade biológica de uma mulher ser mais elevada com cada criança que tinha, se uma mulher estivesse grávida quando as medições eram feitas, a sua idade epigenética, e numa escala menor os seus telómeros, pareciam mais ‘jovens’ do que seria de esperar dada a sua idade cronológica”, disse Christopher Kuzawa, outro dos autores do estudo e professor de antropologia na Universidade de Northwestern. É “uma situação interessante”, acrescentou, referindo-se ao paradoxo.

Mais filhos, menos anos de vida e doenças diferentes Não só as mulheres que têm muitos filhos têm tendência a viver menos tempo, como ao mesmo tempo podem desenvolver doenças diferentes daquelas que as mulheres com menos filhos desenvolvem. Mas o que continuava por responder até à realização deste estudo, como assinalou ainda Ryan, relacionava-se com a possibilidade de “detetar este tipo de efeitos usando marcadores de envelhecimento celular”. E não só: não se sabia também se seria possível  detetar “esses efeitos entre as mulheres relativamente jovens da amostra, que tinham entre 20 e 22 anos na altura”, acrescentou o mesmo investigador.

Mas o estudo agora publicado ainda deixa perguntas por responder. Por saber fica ainda o porquê de mulheres com mais filhos terem um maior risco de desenvolverem determinadas doenças e de terem um período de vida mais curto.

“O nosso estudo aponta para alterações celulares durante a gravidez, possivelmente relacionadas com mudanças adaptativas no sistema imunitário da mãe. Ainda há muito que não sabemos. Por exemplo, não é claro se estas dinâmicas vão persistir ao longo da vida, à medida que estas mulheres vão envelhecendo. Também não sabemos se estas mudanças vão levar a diagnósticos menos favoráveis ao nível da saúde a longo prazo”, acrescentou Kuzawa.

Podem não saber para já, mas querem lá chegar e é por isso que a equipa de investigadores já está novamente em campo. Em mãos tem agora um estudo de seguimento envolvendo as mesmas mulheres, 13 anos depois das primeiras medições, que aconteceram em 2005. O objetivo? “Queremos perceber se podemos replicar estas conclusões longitudinalmente e se as células continuam a parecer mais velhas, anos mais tarde”, continuou Ryan. “Ainda temos muitas questões para endereçar e que esperamos que nos venham a ajudar a compreender de que forma fatores como o estatuto socioeconómico e a dieta podem contribuir para a reprodução das mulheres”.

Outras descobertas O interesse de investigadores pela relação entre gravidez e envelhecimento não é novo e tem sido mote para vários estudos.

Este ano, em fevereiro, uma equipa da Universidade de George Mason, também nos Estados Unidos, acompanhou duas mil mulheres e concluiu que a gravidez pode envelhecer as células da mulher em 11 anos. E atenção: os mesmos investigadores sugeriram também que o processo de criação de um filho pode, igualmente, contribuir para esse mesmo envelhecimento celular.

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