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José Paulo do Carmo 27/07/2018
José Paulo do Carmo

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Falta de Cultura democrática

Frases feitas. Vão surgindo e proliferando em alguns setores da sociedade portuguesa. Certos conteúdos e conceitos são repetidos vezes e vezes sem conta num determinado espaço temporal e depois desaparecem. Basta assistirmos regularmente às conferências de imprensa dos treinadores e jogadores de futebol ou ouvir alguns políticos a falar. Fazem-no com tamanha desfaçatez que, não os conhecêssemos nós tão bem, diríamos que tudo aquilo faria sentido. E é vê-los com a cassete posta a debitar essas “tiradas da moda”, muitas vezes percebendo-se perfeitamente que não têm noção sequer do real significado de alguns “palavrões”. Mas ouvem-nos em determinados contextos, soam-lhes bem e, por isso, toca a integrá-los consecutivamente nas suas dissertações até as gastarem definitivamente - ou até arranjarem outros melhores.

A frase “falta de cultura democrática”, não sendo de difícil compreensão, é usada hoje por tudo e por nada. Até por quem devia ter o mínimo de vergonha na cara e abster-se de certo tipo de considerações. Ver Marques Mendes acusar outra pessoa de “falta de cultura democrática” é quase tão patético como imaginarmos Pinto da Costa a acusar qualquer outra pessoa de corrupção, ou pensarmos em José Sócrates a divagar sobre integridade. Esse é um dos grandes problemas da nossa sociedade. Não sabermos assumir os nossos erros. Passarmos uma escova neles - como se lá porque já não se fala já deve estar esquecido. Não é verdade. O que não falta por aí, infelizmente, são pessoas a atirar tijolos bem grossos para os telhados do vizinho para esconder os vidros de cristal que compõem o seu. Como se assim afastassem as atenções.

Voltemos então à frase supra citada. Um dos grandes erros que todos estes “filósofos” cometem é nunca assumirem os seus. Quando foi a última vez que se lembra de ouvir um político português dizer “eu errei”? E um treinador, quando é que disse, há pouco tempo, que o árbitro errou a seu favor e beneficiou a sua equipa? Ninguém é perfeito, e essa perfeição plástica é que é de desconfiar. Não seria por vezes mais fácil assumirmos as nossas próprias falhas, para também mais facilmente podermo-nos arrogar o direito de comentar e apontar aos outros? Se há coisa que eu sinto por cá é que um pedido de desculpas resolve muita coisa. E não custa nada, ou não deveria custar. Esta canseira de estarmos permanentemente a ouvir grandes oratórias de alguns bem falantes a tentarem justificar o injustificável é a razão primeira para perdermos a confiança em inúmeras instituições. Eu sei que, para as gerações mais velhas, é penoso pedir desculpa, parece que lhes fere muitas vezes o orgulho, acho que é transversal e cultural. É por isso fundamental que, aos mais novos, seja incutido desde cedo essa vontade de pedir desculpa e de assumir o erro.

Falta de cultura democrática é isso tudo e muito mais. É não respeitarmos instituições, não aceitarmos resultados, mas também não termos capacidade de perceber que, antes de criticar, devemos assumir as nossas culpas. Não sabemos pedir desculpa, mesmo sabendo que isso nos resolveria problemas de uma forma mais simples. Chama-se a isso integridade. Mas o orgulho fala muitas vezes mais alto. É por isso que esta nova frase “da moda” devia vir “colada” com ética para ser usada da forma correta. Porque quando não temos ética na vida, dificilmente teremos essa tal cultura de que tantos falam agora. Basta atentar nas suas “folhas” para perceber que há muito boa gente que perde fantásticas oportunidades para estar calada. Mas quando vemos que, pela Comissão de Ética da Assembleia da República, já passaram alguns dos grandes trafulhas deste país, acho que aquilo que nos resta é esperar que a página vire... 

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