25/9/18
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 25/07/2018
Eduardo Oliveira E Silva

opiniao@newsplex.pt

Assunção e Catarina: as palradoras

As líderes do CDS e do Bloco de Esquerda têm grandes qualidades políticas, mas ocupam um espaço mediático incomparavelmente maior do que o que têm na sociedade e nas urnas

1. Uma é meia loira, outra morena. Uma é de esquerda, a outra é de direita. Ambas são líderes políticas e têm outra coisa em comum: não há dia que não façam grandes proclamações e que os jornalistas não lhes estendam os microfones para as ouvirem debitar opiniões a um ritmo alucinante.

Há fogos, falam. Não há, falam também. Chove, falam. Não chove, dissertam sobre o clima. É verdade que ambas apresentam muitas vezes soluções sensatas para os problemas e procedem a denúncias sobre situações de injustiça ou casos absurdos. Ambas são excelentes comunicadoras e lideram movimentos com implantação significativa na sociedade. Mas, por amor à verdade, é preciso dizer que o número de horas, minutos e linhas que lhes são conferidos nos média são bem maiores do que as suas respetivas representatividades sociais e políticas.

Embora manifestamente impreparada, Assunção Cristas foi ministra de vastas pastas no tempo do governo Passos/Portas/Gaspar/troika, até ao dia em que lhe partiram o superministério, para evitar mais erros do que os que ia cometendo. Na área da habitação tem o seu nome indelevelmente ligado à atual lei do arrendamento urbano (em boa hora provisoriamente congelada pelo atual governo), por via da qual dezenas de pessoas mais velhas e indefesas têm sido desumanamente despejadas de casas sem que lhes seja dada a proteção social que Assunção prometera que ia existir – mas que não há, como ela sabia de antemão. E assim, em vez de uma lei de rendas progressiva, deu-se corpo a uma situação perigosa, injusta e imprevista para os mais desprotegidos. Como conta Miguel Sousa Tavares no seu mais recente livro a propósito de um episódio que se passou com ele, uma lei do arrendamento é algo que nem Salazar nem Mário Soares se atreveram a mudar. Mexer nessa matéria de forma equilibrada é algo que Cristas só poderia ter feito com pinças e muito mais gradualmente, utilizando o tempo como fator de reequilíbrio. A sua estratégia foi fazer uma primeira mudança e atirar o choque para quatro anos depois, o que acontece, portanto, agora. Criou um quebra-cabeças mais grave do que o existente à época, causando danos irreparáveis na sociedade, até mesmo em gente sociologicamente próxima do CDS. Sob um manto mais humanista que o de Portas, o CDS de Cristas acabou por reforçar a vocação de mero partido de interesses. Tudo é feito numa perspetiva da oportunidade (para não dizer oportunismo), que Assunção Cristas serve em estridentes intervenções diárias. Isto com o beneplácito de um Nuno Melo que aguarda a sua vez, depois de ela se lhe ter antecipado e de ele se ter deixado ficar pelo regaço opulento do salário de eurodeputado.

Do outro lado do espetro político temos Catarina Martins. Com carisma e talento, a líder do Bloco (uma coligação que começa no trotskismo e acaba numa esquerda-caviar, passando pelo maoismo e o leninismo, seja lá o que tudo isso for hoje) debita longas tiradas em defesa dos mais pobres e contra supostos interesses. Na verdade, tem conseguido travar alguns excessos neoliberais, em troca de introduzir na sociedade temas ditos fraturantes. Mais acutilante do que Assunção, Catarina beneficia da circunstância de jamais ter sido governo e, portanto, de nunca ter posto a mão na massa (honi soit qui mal y pense). Mas, atenção, ir para o governo é hoje o objetivo que faz mover grande parte dos bloquistas, embora essa possa ser a causa de uma eventual pulverização. Em função dessa estratégia de aproximação governativa, Catarina tem feito alguns magníficos fretes ao dr. Costa. O mais recente foi a farsa que permitiu a Manuel Pinho ir ao parlamento gozar com os deputados e os portugueses, tomados por palermas e mentecaptos. Enquanto a agenda de Cristas já foi testada, a do Bloco é uma carta fechada no terreno. No entanto, há que reconhecer que o Bloco agrega simpatias e votos junto de jovens com formação superior e cultos, que estão fartos da instabilidade em que vivem, remetendo-os para uma condição de subemprego ou de proletariado. E isso dá-lhe uma força e um vigor especial nas urnas, ultrapassando mesmo um baluarte como o PCP.

Sem serem radicais, Assunção Cristas e Catarina Martins são os atuais limites institucionais à direita e à esquerda da nossa política, o que em parte é bom, porque travam movimentos extremistas, nomeadamente à direita, onde se sente alguma tentação por uma experiência nessa área. Mas há um facto incontroverso: tanto uma como outra ocupam mediaticamente um espaço muito maior do que a realidade sociológica que representam. Há nisso mérito delas, mas há também demérito dos outros dirigentes partidários de esquerda e de direita.

 

2. Israel passou a ser formalmente um Estado racista e religioso, com a sua conversão na pátria dos judeus e não de outro povo como o árabe, o qual sempre lá esteve e constitui sensivelmente um quinto da população, com cerca de um milhão e 200 mil seres humanos. A decisão foi tomada numa votação feita a semana passada no Knesset, o parlamento de Israel. A História deveria ter mostrado aos judeus que a utilização de posições dominantes acaba muitas vezes por ter efeitos perversos terríveis e desumanos, podendo redundar no antissemitismo. Ao semear-se ventos, corre-se o risco de colher tempestades. Os israelitas de hoje julgam-se protegidos por Trump. Convém, todavia, considerarem que a criatura não é fiável e, sobretudo, não é eterna.

Jornalista

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×