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Bihor, não Dior. Artesãos da Roménia unem-se contra a gigante francesa

Bihor, não Dior. Artesãos da Roménia unem-se contra a gigante francesa

Mariana Madrinha 17/07/2018 12:21

A Dior inspirou-se (integralmente, ou quase) num traje típico de Bihor, uma região romena, e apresentou-o numa coleção como original. Os artesãos locais não gostaram e... responderam assim

Não é a primeira vez que uma grande casa de moda internacional decide inspirar-se em trajes tradicionais de uma determinada região. Numa coleção apresentada no ano passado pela Dior, uma das peças – um colete com diversas aplicações – parece ter sido integralmente copiada dos trajes regionais de Bihor, uma região da Roménia.

A casa francesa, liderada por Maria Grazia Chiuri, não mencionou onde se tinha “inspirado” e os habitantes de Bihor não tardaram a acusar a Dior de usurpar o seu património cultural. Talvez seja importante referir antes de entrarmos em mais pormenores que a marca comercializou os coletes por uma significativa quantia: 30 mil euros. Cada um.

A resposta não podia ser mais criativa – e vai muito para lá de palavras de descontentamento. Sob a mentoria da “Beau Monde”, uma revista de moda romena, os artesãos locais uniram-se e lançaram a sua própria linha de roupa – a que chamaram “Pre Fall – 1918/2018” e que pode ser comprada online. Estes são, dizem os artesãos na sua página (http://www.bihorcouture.com), “os primeiros passos” para que haja alguma equidade neste meio.

Na sua “carta de intenções”, publicada no site, os artesãos reconhecem que possa haver espaço para este “tipo de inspiração”, mas dizem que é “um bocadinho injusto que não haja qualquer retorno económico ou até reconhecimento para a comunidade, que se debate para manter as tradições vivas”. E, como resultado, avisam, “as tradições estão a morrer”, embora ressalvem que a culpa não é um chapéu que assente apenas à Dior e que a apropriação não se finda nas fronteiras romenas. “Durante anos, as grandes casas de moda internacionais inspiraram-se em diferentes culturas. Ultimamente, isto tornou-se um fenómeno global, com nomes como Tory Burch, Valentino ou Louis Vuitton a apresentar designs tradicionais originais de todo o mundo como itens novos das suas coleções.”

No vídeo de lançamento desta campanha que é uma espécie de grito do Ipiranga – o mote é qualquer coisa como “Compre Bihor, não Dior” – , as tecelãs e tecelões, os designers por trás da Bihor Couture, são as estrelas. E vendem o seu produto com argumentos de peso. Primeiro, dizem aos potenciais clientes que as peças à venda são bastante mais baratas. Depois, lembram que estas peças são “as originais”. E dizem até que são mais bonitas. “As nossas cores são mais garridas”, diz um artesão a quem foi pedido para comentar a versão francesa da veste tradicional romena.

 

Para usar com orgulho

As peças podem ser compradas diretamente no site, embora o período de entrega das encomendas varie. O colete da discórdia, que aqui é vendido por 500 euros, demora um mês a ser confecionado. Mas há roupa e acessórios para todos os bolsos: as braceletes custam a partir de dez euros, os lenços tradicionais podem ser comprados a partir dos 45 euros e as camisas romenas – que, explicam os artesãos, são bordadas à mão com diferentes motivos, pelo que cada camisa conta uma história diferente – custam a partir de 40 euros. “Trazem sorte à pessoa que as vestir. Usem-nas com orgulho”, recomendam.

Por último, mas não menos importantes: as vendas são distribuídas pelos artesãos, que assim ganham a almejada bolha de ar para continuar a exercer a sua arte por mais uns anos. E, quem sabe, chamar novos aprendizes para o ofício.

Na página, a Bihor Couture apresenta ainda alguns dos artesãos que confecionam as coloridas e intricadas peças, como é o caso de Dorina Hanza (na foto acima, à esquerda). A professora e artista popular é, além de artesã, uma das caras da campanha, já que tem dedicado toda a vida a manter as tradições de Bihor vivas. Segundo o site, Dorina diz que “guardou no seu coração um lugar especial para os seus antepassados, que lhe deixaram os segredos do bom artesanato”. E, diz, continua a usar esse amor de uma forma bem pragmática: emprega-o diariamente no seu trabalho.

 

Uma campanha vencedora

Além do site e da divulgação do projeto, feita por várias revistas internacionais da especialidade, a campanha teve outro momento-chave: as tecelãs fizeram uma aparição na última Semana da Moda de Paris, onde mostraram do que são capazes. E pediram ainda a figuras como Beyoncé ou Lady Gaga para adquirirem as suas obras.

Até agora, as cantoras ainda não foram avistadas com nenhuma peça, mas os frutos da campanha já começaram a aparecer. Em junho, na última edição do Festival Internacional de Criatividade de Cannes, a Bihor Couture ganhou três Leões de Ouro.

E o resultado já vai para lá do reconhecimento. De acordo com um vídeo publicado há cerca de um mês no Facebook pelos criadores da campanha, os artesãos já receberam encomendas suficientes para cerca de quatro anos e meio de trabalho. É obra – romena, claro está.

 

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