23/9/18
 
 
Alexandra Duarte 16/07/2018
Alexandra Duarte

opiniao@newsplex.pt

Agora não, filho

Calcula-se que, até aos 17 anos de idade, um jovem já tenha ouvido, pelo menos, 150 mil vezes a resposta “não”, enquanto, por outro lado, só ouviu 5 mil vezes um “sim”

O tempo é um problema para todos os pais. O tempo que não passamos com os nossos filhos, o tempo que precisamos de arranjar para as tarefas com eles, o tempo de descanso dos filhos, o tempo que gostaríamos de ter com eles e só para eles, o tempo que precisamos de trabalhar também pelos nossos filhos, e por aí adiante… A confusão é tanta que nos limitamos a cumprir os horários, os nossos e os deles, sem pararmos para pensar no tempo e na sua importância no crescimento das crianças, ou sequer dando especial relevância às queixas que vão fazendo sobre a indisponibilidade dos pais para os ouvir ou estar com eles, a fazer o que desejam.

Tornamo-nos pais egoístas quando nós é que decidimos o tempo que estamos juntos e como vamos passá-lo. Este egoísmo fica compensado, na nossa consciência, porque dentro das nossas limitações e responsabilidades ainda desencantamos uns momentos para uma saída em família, uma ida ao cinema ou ao parque, um jogo de futebol ou outro programa que já foi repetidamente sugerido pelos mais pequenos. E lá vamos nós, satisfeitos porque estamos a conseguir preencher aquele critério básico para ser considerado um bom pai: passar tempo de qualidade com os filhos.

Não é deste tempo que quero escrever. É do outro, aquele que se perde todos os dias, mesmo estando ao lado deles ou eles ao nosso lado. O tempo que não se mede a não ser numa pergunta, num olhar ou num gesto. Aquele momento em que somos interrompidos com uma pergunta banal, tão banal que adiamos a resposta, sem nos darmos conta que a seguir poderia vir outra mais importante e determinante para o seu crescimento. Ou não.

As crianças são de uma simplicidade que se traduz nas suas formas de abordagem para conversar sobre temas mais complexos. Acho que nem elas sabem muito bem como ou quando iniciar certas conversas que gostariam de ter com os pais. À medida que vão crescendo, esta simplicidade enreda-se na timidez, no embaraço e até mesmo na falta de vontade para conversar. Tudo se torna mais complexo na adolescência, quando passamos a ser nós, os pais, a procurar conversar com eles e a desafiá-los para momentos juntos. Para uns, o esforço dá frutos, para outros é inglório.

Calcula-se que, até aos 17 anos de idade, um jovem já tenha ouvido, pelo menos, 150 mil vezes a resposta “não”, enquanto, por outro lado, só ouviu 5 mil vezes um “sim”. O não serve para muitas respostas e parte delas são mesmo indispensáveis no seu crescimento para estabelecer limites saudáveis, sem corromper a sua criatividade, ainda por definir. Outras respostas talvez pudessem ser dadas de outra forma ou até serem evitadas se estivéssemos emocionalmente disponíveis para nos relacionarmos continuadamente com os nossos filhos.

Tenho dificuldade, tal como muitos outros pais, em desligar do que estou a fazer quando sou intimada por um filho para ir ver a repetição de um golaço no jogo da FIFA ou planear uma ida a uma loja que sei antecipadamente, porque sou mãe e as mães sabem tudo!, que não vai dar em nada e não é nada daquilo que o meu filho está à procura…mas ainda assim ele insiste para irmos e remata: “Sempre era uma coisa que podíamos fazer os dois…” E eu percebi, não interessava o resultado, ou se seria a primeira loja de uma digressão pelas lojas da cidade, mas sim o irmos juntos.

Durante anos habituamo-nos a definir as suas rotinas – afinal, nós é que sabemos o que é melhor para eles, e, quando eles crescem, sentimos uma resistência natural em acompanhá-los, continuando a seguir e a adotar o mesmo comportamento que tínhamos quando eram mais pequenos.

Esta fase de transição, de crianças para quase adultos, é uma prova de fogo também para nós em que somos solicitados a todo o momento, mas de uma forma completamente diferente e impercetível. Por um lado, conquistámos mais tempo para os nossos afazeres e responsabilidades, uma vez que os filhos já são mais autónomos e o acompanhamento assume outras variantes menos físicas e com um desgaste menor ao nível do cansaço. Por outro, temos uma relação que cresce na proporção da nossa disponibilidade emocional e de como os fazemos sentir que, apesar das nossas diferenças de interesses, há caminhos que queremos fazer para irmos ao seu encontro.

Olho para trás e lamento alguns dos momentos em que respondi com um “agora não, filho!”, levando-o a dar meia volta e a regressar ao que estava a fazer. Olhava para os seus olhos e pensava que não tinha ficado incomodado e que depois o compensaria. Quando tinha tempo para retomar o que o tinha feito ir ter comigo, já era tarde. O momento já tinha passado. Hoje pergunto-me quantos momentos não terei perdido e se isso não fez com que tantas vezes já não me procurassem por saberem qual iria ser a resposta.

Hoje, os meus filhos não precisam de mim para mudar as fraldas, já fazem os seus pequenos-almoços, sabem escolher a roupa que vão vestir, arrumam as suas mochilas, organizam os seus dias e atividades, mas precisam de mim para os ouvir sobre as “mundanices” e pode ser que a seguir às conversas mais ligeiras esteja aberto o caminho para o lado mais sério da vida que custa sempre mais.

Dá trabalho e nem sempre estamos a entrar num mundo que nos faça sentido ou que sequer seja minimamente interessante, mas por eles voltei a querer jogar consola para conhecer os jogos de que falam, com o mais velho revivi as minhas saídas à noite quando era mais nova para que soubesse que também sei do que fala, acompanho-os em experiências mais radicais para que saibam que estarei sempre aqui, até nestes momentos mais difíceis para mim. Tal como as noites mal dormidas ou as fraldas, também esta fase será anterior a uma outra que se adivinha mais serena e já mais adequada à minha idade e condição física. Até lá… vou-me esforçar para pensar duas vezes antes de responder “agora não, filho!”…

 

Escreve quinzenalmente

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×