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A Mão na Coisa... Ou todas as mãos em todas as partes

A Mão na Coisa... Ou todas as mãos em todas as partes

Hugo Alves Cláudia Sobral 13/07/2018 19:56

Em “A Mão na Coisa, A Coisa na Boca, A Boca na Coisa, a Coisa na Mão”, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira refletem sobre a influência da arquitetura dos espaços públicos na construção de uma memória queer, que em Portugal a ditadura apagou

Um grande urinol público como tela para poesia de casa de banho – ou uma antologia de poemas de Judite Teixeira, António Botto, Raul Leal, Cesariny, Almada Negreiros, Bocage, Variações, pintados como se pintam paredes de casa de banho por cima da célebre frase de Galvão de Melo, em capitulares que dão um grito: “A revolução não foi feita para putas e paneleiros”. Reação ao manifesto publicado pelo Movimento de Ação Homossexual Revolucionária na última página do “Diário de Lisboa” a 13 de maio de 1974, sem que tenha surtido contudo grandes efeitos práticos para uma comunidade que continuava relegada à inexistência.

Que a revolução não foi feita para eles – as putas e os paneleiros – já se sabe. E aí voltaram a esbarrar João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira ao regressarem à História da homossexualidade em Portugal, descriminalizada apenas em 1982. Mais do que criminalizada, na verdade, condenada à inexistência. “Porque não é usada a palavra homossexual. Quando se criminaliza pela primeira vez a homossexualidade, não fala em homossexualidade, fala-se em atos de vadiagem. As pessoas eram presas não era por serem homossexuais, porque a homossexualidade em Portugal não existia, ponto. As pessoas eram presas por vadiagem”, nota Nuno Alexandre Ferreira.

“Vadios” é então o título deste urinol. Escultura imersiva que toma o lugar central da galeria Cristina Guerra, em Lisboa, que acaba de inaugurar a mais recente exposição da dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira: “A Mão na Coisa, A Coisa na Boca, A Boca na Coisa, a Coisa na Mão”. E com isto voltamos ao Estado Novo que, se não foi ponto de partida, foi de chegada para os artistas que, à procura do paralelo em Portugal para o que se passava nas Rambles do Central Park de Nova Iorque na década de 1970, olhando para o espaço público como lugar de construção de uma memória queer que se apagou quando, no início da década de 1980, a epidemia da sida serviu para levar ao fim dos urinóis públicos, usados para a prática de cruising.

“Com o desaparecimento destes espaços, há uma parte da memória da convivência desta comunidade que desaparece.” E olhando para Portugal no tempo dessa “era dourada do cruising”, como a descreve o escritor e jornalista de Brooklyn Michael J. Bullock no texto de apresentação da exposição, o que havia? Nada. “Começámos a tentar perceber o que é que acontecia aqui e é aí que chegas a esta ideia da inexistência de memória, da inexistência de registos, porque há mesmo um apagamento.”

A partir daqui, a exposição foi construída como um conjunto de memoriais, assim descreve Nuno Alexandre Ferreira o conjunto das obras criadas para “A Mão na Coisa, A Coisa na Boca, A Boca na Coisa, a Coisa na Mão”, em alusão a uma portaria da Câmara de Lisboa de 1953, a determinar as coimas para os “actos atentatórios à moral e aos bons costumes” em “frondosas vegetações” de logradouros e jardins públicos: “Mão na mão, 2$50; mão naquilo, 15$00; aquilo na mão, 30$00; aquilo naquilo, 50$00; aquilo atrás daquilo, 100$00”. E ainda, por último: “Com a língua naquilo, 150$00 de multa, preso e fotografado”.

Logo à entrada da galeria, a obra que dá o título à exposição: um tronco de três metros e meio de altura, como um pilar, em rodelas de calças de ganga – na década de 1970, o uso de calças de ganga com T-shirt branca era associado nos Estados Unidos aos prostitutos homossexuais. Milhares de calças de ganga empilhadas como corpos, em homenagem a cada um dos homossexuais que viveram “sob o jugo da ditadura mas escolheu revoltar-se contra as suas leis”. Na última sala da galeria, depois de uma grelha de ventilação junto ao chão a leitura de textos que descrevem encontros sexuais em espaços de cruising – “o facto de não existir registo leva a que esta passagem de memória seja feita de forma oral” – uma floresta de árvores cortadas, a partir dos cós das calças usadas na escultura inicial. “Daddies”.

E talvez seja uma peça quase invisível, ao fundo da segunda sala. “Silence=Death”, a partir do eternizado slogan do Act Up, movimento emergido do esquecimento para o qual era atirada a comunidade homossexual de vários países em pleno auge da epidemia da sida. A higienização de milhares de cotonetes brancos para uma palavra, em português: silêncio.

 

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