18/7/18
 
 
José Paulo do Carmo 13/07/2018
José Paulo do Carmo

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Os “Tubarões” que resgataram os “Javalis”

Esses heróis que substituíram a capa por botijas de oxigénio mereciam também eles o convite para todas as finais de todos os desportos e para todas as estreias que bem quisessem

O mundo dividiu-se durante 15 dias entre a emoção do Mundial de futebol e o suspense do resgate das 12 crianças e do seu treinador, também membros de uma equipa intitulada “Javalis” que, numa ação de grupo, acabaram por cair numa armadilha feita por uma gruta traiçoeira e perigosa como existem tantas na Tailândia. E foram longos dias de peripécias e novos acontecimentos dignos de uma série da Netflix, em que cada episódio nos fazia ficar colados ao ecrã à espera de novidades que nos fizessem respirar de alívio. Uns realmente preocupados, outros entusiasmados com a realidade tornada entretenimento.

Fomos vendo durante esses longos dias inúmeras demonstrações de solidariedade e de apoio. Desde o empenho do empreendedor e filantropo Elon Musk, patrão da Tesla, com o desenvolvimento imediato de uma cápsula que pretendia transportar as crianças em segurança ao longo do percurso, ao convite do presidente da FIFA (Federação Internacional de Futebol) para os jovens assistirem à final do campeonato do Mundo, e até a uma escala interna, com o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, a fazer questão de convidar a equipa para um estágio no Centro do Seixal. Desconfio, por isso, que estas crianças não terão mãos a medir para tantas solicitações nos próximos meses ou anos. Se estiverem bem de saúde e recuperarem totalmente, arrisco-me a dizer que foi mesmo a melhor coisa que podia ter acontecido a estes jovens, oriundos de famílias humildes, que serão elevados a estrelas. 

No entanto, por muito que custe, os heróis, ali, não foram as crianças. Essas limitaram-se a tentar resistir e sobreviver, instinto de qualquer ser humano. Ali, os heróis foram os “Tubarões”, que arriscaram a própria vida a tentar salvar a de uns perfeitos desconhecidos. Comportamento altruísta inolvidável de um conjunto de pessoas que nem sequer pestanejaram perante as inúmeras dificuldades e perigos e fizeram-se à gruta, sabendo que eles próprios corriam riscos imensos. Muitos deles também com família e filhos em casa. E nunca saberemos verdadeiramente o que passaram eles ali dentro, para além de um retrato num filme que surgirá, suponho, daqui a pouco tempo.

Esses heróis que substituíram a capa por botijas de oxigénio mereciam também eles o convite para todas as finais de todos os desportos e para todas as estreias que bem quisessem. E eu não vi nenhum. Mereciam homenagens e reconhecimento. Talvez mais do que tiveram. Porque, para além do nobre gesto, da arrojada e heroica atitude, mostraram-nos que ainda existem pessoas assim. Que neste planeta também reside gente boa, feita de aço e de sentimentos, que fazem pelos outros sem esperar nada em troca e que vão com tudo sem pensar nas consequências. E estes merecem tudo. Porque gestos destes devem ser recompensados, até para mostrar aos outros que vale a pena sermos assim, cheios, intensos, inteiros.

É só isso que peço. Para que não nos esqueçamos do que se passou naquela gruta, feito naqueles 15 dias por aqueles “Tubarões”. Porque é nestas demonstrações que damos passos seguros para o “lado bom da força”, é nestes momentos que sentimos valer a pena apostar nos outros, dar sem esperar nada em troca, apoiar quem precisa e ajudar quem está desamparado. E com tanta porcaria que pulula à nossa volta, que tenhamos mais dias assim. O meu obrigado a estes antiestrelas que, mesmo à saída, pouco ou nada disseram e que, ao invés de aproveitarem o palco, saíram tímida e sorrateiramente. E à pergunta “sentem-se heróis?” responderam: “Não, sentimo-nos aliviados.” 

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