24/9/18
 
 
José Paulo do Carmo 06/07/2018
José Paulo do Carmo

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Pastelaria Suíça? Saudades de quê?

Só concebo que possa ter saudades “daquilo” quem não vai lá há largos anos

A Pastelaria “Postiça”, tal têm sido as reformas mal efetuadas no espaço ao longo dos anos, descaracterizando-o e toldando a sua identidade e elementos arquitetónicos, vai encerrar e logo apareceram vozes de grande contestação e abaixos-assinados (sim, somos o país deles) para impedir que deixasse de existir. Inclusive encheram as redes sociais do tenista espanhol Rafael Nadal, suposta e erradamente associado ao fundo que comprou o edifício, pedindo-lhe que intercedesse para que o histórico estabelecimento continuasse intacto. Uma série de disparates num só.

Primeiro, só concebo que possa ter saudades “daquilo” quem não vai lá há largos anos. Mas a isso já estamos nós habituados. São os mesmos que pedem a manutenção de teatros, etc., mas que nunca lá puseram os pés e nada fizeram para que se mantivessem rentáveis . Os que falam de cultura como se ela lhes desse um livre passe para exercerem superioridade moral quando nunca fizeram nada por ela. Bola. Neste caso específico, é pior ainda. Na minha opinião e tendo em consideração o que lá experienciei, o espaço está feio, foi muito mal reabilitado e está muitas vezes sujo. O serviço é péssimo, os empregados antipáticos receberam-me com cara de poucos amigos, o tempo de espera é exasperante e a comida... bem, disso nem é bom falar. O pastel de nata tão medalhado é uma sombra do que foi e do que podemos encontrar em vários sítios (se quer um de qualidade, passe na Aloma, em Campo de Ourique, ou na Piccolina, em Fátima, e vai ver o que é bom). Preços exagerados para a falta de qualidade dos produtos.

Foi sobretudo essa a razão do encerramento. Tudo aquilo é mau, por isso quem vai não volta. Ainda por cima é um péssimo cartão-de-visita da cidade. Basta ouvir as críticas dos turistas para percebermos. Promoção altamente negativa para Lisboa. Acho piada, por isso, que as pessoas queiram a manutenção do espaço e que alguém tenha de pagar por isso. Só porque sim. Eu sou amplamente a favor da manutenção dos locais históricos da cidade. Dos bons. Que mantiveram os elementos arquitetónicos e a qualidade. Existe até no Brasil uma forma jurídica de proteger os mesmos a que dão o nome de “tombado”. Esses espaços “tombados” (vem a palavra da Torre do Tombo) não podem alterar os elementos que o tornaram histórico seja no seu desenho seja no objeto social e no serviço que prestam, tendo através dessa manutenção isenções fiscais e contribuindo assim para a manutenção do património histórico das cidades.

Por cá foi criada há pouco tempo a designação de “lojas históricas” para tentar preservar esses mesmos locais, mas de uma forma muito mais sugestiva (ficando à consideração dos proprietários concorrer para a obtenção de benefícios) do que impositiva, como no Brasil, onde é o Estado ou os municípios que determinam os espaços que são “tombados”. É que é muito fácil dizer que uma coisa que é de outros não devia poder ser vendida ou alterada (não lhes calha no bolso), mas quando é nosso não pensamos da mesma forma. 

Tem por isso de ser encontrada uma fórmula que proteja claramente os que realmente interessam. Dar verdadeiro valor e atenção com medidas apelativas para que perdurem no tempo. Mas da parte dos proprietários tem de existir também cuidado e brio para saberem adaptar-se, tornando-se negócios rentáveis. É que nós precisamos mesmo que eles se mantenham, fazem parte de nós. Trazem-nos boas memórias. Não a Pastelaria Suíça, essa não me deixa saudades nenhumas. Mas pelos vistos há quem adore por lá passar. Há gostos para tudo...

 

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