22/9/18
 
 
João Lemos Esteves 03/07/2018
João Lemos Esteves

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“Xutos” à democracia: Marcelo, o “Rock”; Costa, o “Roll”!

Marcelo não convida Donald Trump porque não quer espicaçar Catarina Martins e companhia, utilizando a “opinião pública portuguesa” para não assumir o óbvio: até o Presidente da República – com a sua obsessão pelas selfies e pelas sondagens – já está refém da extrema-esquerda

1. A imprensa portuguesa rejubilou na semana transata: afinal, os portugueses podem ter orgulho em pertencer a esta nação, que tem sobrevivido às contingências da História contra todas as probabilidades e vaticínios mais fatalistas. Não há muito tempo, os mesmos jornalistas, comentadores e autointitulados intelectuais que pululam pelas nossas televisões, rádios e jornais faziam carreira a parodiar, a satirizar e a denegrir Portugal. O nosso país não passaria, afinal, de uma “choldra”, de uma “país do quinto mundo habitado por gente inculta”, com uma “classe política absolutamente corrupta e impreparada”. Entretanto, tudo mudou: Portugal passou a ser fantástico; o “último paraíso na terra”; um “exemplo de civilização”! Qual a razão desta mudança súbita? Estará a economia nacional estruturalmente melhor, projetando um presente mais seguro e um futuro mais auspicioso para todos os portugueses? Será que o nosso poder político é mais competente, sequer transparente, do que no passado?

 

2. Não, não e não: Portugal, na lógica da opinião publicada (sim, porque hoje praticamente não há notícias: só opinião ou propaganda), virou paraíso porque o fetiche sonhado por numerosos jornalistas do politicamente correto se tornou realidade. Finalmente temos um governo da extrema-esquerda com o PS: o casamento sonhado (e negado) durante décadas foi consumado, derrubando--se destarte os muros que separavam a esquerda. E a esquerda unida será invencível: independentemente das preferências políticas dos portugueses devidamente manifestadas nas urnas, a esquerda (basta querer) vencerá sempre. É uma mera questão aritmética: somando-se os deputados do extremo-PS com a extrema-esquerda, é bastante verosímil que a direita fique afastada do poder por um longo tempo. Só uma maioria absoluta da direita assegurará a sua possibilidade de exercer funções governativas – pelo que só em situações de exceção, de crise profunda, após o PS levar o país à bancarrota (cumprindo a sua tradição político-constitucional mais conhecida e reiterada) é que a direita poderá aspirar a corresponder aos anseios de mudança da maioria (cada vez menos) silenciosa dos portugueses.

 

3. Pois bem, qual o motivo que excitou as nossas “elites comunicacionais”? A lição de História dada por Marcelo a Donald Trump – e o seu aperto de mão em forma de “puxão ostensivo”. A prioridade nacional desde quarta-feira tornou-se, pois, desvendar os segredos do “aperto de mão singular” de Marcelo Rebelo de Sousa. Para tal foram ouvidos especialistas em linguagem corporal e mestres de judo (parece que o cumprimento é uma forma de sinalizar a disposição do combatente) e o próprio Presidente Marcelo comentou ao “Expresso” a sua façanha. De facto, Marcelo descreveu o gesto como um “golpe de aikido”, confirmando as análises com que o país político-mediático se entreteve: o nosso Presidente é especialista em aikido, o que, como se sabe, é a principal valência de política internacional que um político deve ter. Mais acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa que não convidou o presidente Donald Trump para vir a Portugal porquanto tal poderia causar melindre na opinião pública nacional. Na mesma declaração ao “Expresso”, Marcelo revelou que o presidente da República Popular da China, Xi Jinping, virá a Portugal em novembro – o que é uma notícia, segundo o próprio Marcelo, entusiasmante. As leitoras e os leitores já perceberam o ridículo desta situação: então o nosso sábio Presidente Marcelo Rebelo de Sousa recusa convidar o presidente Donald Trump (o que é, aliás, um gesto contrário à cortesia diplomática, ainda para mais relativamente ao nosso mais importante aliado) porque isso poderia causar “urticária” na opinião pública devido ao “radicalismo” (como?!) do presidente dos EUA? No entanto, Marcelo anda muito contente (e a jornalista do “Expresso” fica em êxtase!) com a vinda do presidente de um Estado onde não há respeito pelos direitos humanos, não há limitação do poder político, onde há um Estado centralizado com “capitalismo de Estado” como é a República Popular da China! Então como é, senhor Presidente Marcelo: a opinião pública não fica com urticária por vir um presidente autoritário ao nosso país? Ainda para mais, Marcelo anunciou a vinda do presidente chinês a Portugal… nos Estados Unidos da América! O que, convenhamos, é uma singularidade diplomática…

 

4. Ora, por que razão terá Marcelo sentido “urticária” pela vinda do presidente dos EUA a Portugal (não obstante ter considerado a sua reunião com Donald Trump um “enorme sucesso” e com muita empatia entre os dois, como nós explicámos no “Sol” online na semana passada) – mas apenas júbilo pela vinda do presidente da China? Fácil: porque Marcelo não está preocupado com a opinião pública portuguesa – está tão-somente apreensivo quanto à sua popularidade junto dos militantes (e elite) do Bloco de Esquerda e da ala radical do PS. Marcelo não convida Donald Trump porque não quer espicaçar Catarina Martins e companhia, utilizando a “opinião pública portuguesa” para não assumir o óbvio: até o Presidente da República – com a sua obsessão pelas selfies e pelas sondagens de popularidade – já está refém da extrema-esquerda. Já convidar um presidente realmente autoritário que pensa que os direitos humanos são meros lirismos ocidentais e que tem evidentes objetivos expansionistas é uma animação para Marcelo – afinal de contas, até o Bloco de Esquerda e o PCP já se renderam aos encantos chineses. Portanto, no caso do presidente Xi, Marcelo não chateará nem Catarina Martins nem Jerónimo de Sousa. Não haverá, portanto, urticária na pele política de Marcelo… Assim como não haverá urticária no convite que Marcelo terá formulado ao presidente Putin para visitar Portugal: aliás, já em 2016, Marcelo, em declarações à agência de notícias do Kremlin, Sputnik, afirmou que “gostaria muito de receber o seu presidente, o presidente Putin, em Portugal”. Aí parece não haver urticária…

 

5. O melhor momento, contudo, ocorreu na passada sexta-feira. O poder político português esteve todo (literalmente todo!) no palco do Rock in Rio Lisboa, cantando as saudades que têm da sua alegre casinha. Entendamo-nos: a homenagem a Zé Pedro é mais do que merecida e justifica-se. Todavia, Marcelo poderia ter encontrado outras formas mais institucionais de proceder a tal tributo: por exemplo, um concerto aberto nos jardins do Palácio de Belém, como já fez. É que subir ao palco e ser fotografado encenando o símbolo do Rock in Rio suscita problemas políticos para o Presidente da República. Efetivamente, um Presidente que pugna e dá lições sobre a prevalência do poder político sobre o poder económico dá por esta via um sinal de que, afinal, é o poder económico e mediático que condiciona o poder político. Como poderá no futuro Marcelo Rebelo de Sousa reclamar (invocando a sua velha doutrina) que os políticos não devem envolver-se demasiado com iniciativas empresariais ou com os poderes fácticos? Será muito difícil…

 

6. Em segundo lugar, Marcelo Rebelo de Sousa ainda não percebeu que o tempo de tomar decisões difíceis está a chegar – no próximo ano teremos um calendário eleitoral intenso, com europeias e legislativas. Ora, o Presidente da República – que deveria ser o Presidente de todos os portugueses –, ao cantar junto de António Costa (e sua esposa, Fernanda, a estrela da noite, batendo todos em qualidade artística e vocal) e Catarina Martins, está objetivamente a beneficiar dois partidos políticos. Nossa questão: Marcelo também convidou representantes do PSD, do CDS ou do PCP para cantar no palco do Rock in Rio?

 

7. Por outro lado, como acreditar que Marcelo Rebelo de Sousa, quando for chamado a decidir sobre a nomeação do próximo governo, tem distanciamento crítico em relação a António Costa e Catarina Martins para rejeitar, em nome do interesse de Portugal, um executivo proposto por estes dois partidos? Politicamente, o que parece é. E o que parece é que Marcelo quer continuar com António Costa e Catarina Martins em São Bento… Enfim, os nossos políticos deram mais uns “xutos e pontapés” na qualidade da nossa democracia. Na autoridade do Estado. Surpresa? Talvez não… Portugal não é mesmo os Estados Unidos da América.

 

joaolemosesteves@gmail.com

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