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José Paulo do Carmo 29/06/2018
José Paulo do Carmo

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O Tejolense de Alfama

Aquela altura do ano em que os bairristas são finórios e os finórios se perdem pelos bairros típicos de Lisboa. Em que as meninas comem peixe com a mão e dançam ao som de Quim Barreiros ou da Rosinha indiferentes às letras ousadas que lhes ecoam no ouvido. É tempo do roça roça , do calor que pede uma cerveja ou copo de vinho fresco. As festas populares são um dos últimos redutos da tipicalidade cultural portuguesa no seu formato ainda tão genuíno e tão próprio que os próprios sinais dos tempos não conseguiram (ainda) apagar. É o amor pelo sítio onde moramos, a solidariedade entre vizinhos, amigos e turistas num trabalho comum para se apresentarem o melhor que podem.

Mas estas festas populares, que se dão por esta altura um pouco por todo o país, têm em si diversos enquadramentos e especificidades que as tornam tão próprias e tão peculiares. Ainda me recordo das primeiras a que fui em Lisboa, no início do meu percurso universitário. Era moda como hoje continua a ser e era oportunidade para sairmos todos à rua, dias de festa inteiro e algazarra o mais possível, assim como gostamos quando somos mais novos. Mas hoje, ao olhar para trás, recordo que mais que diversão eu estava ali porque todos estavam e na realidade não me divertia assim tanto. Passava as noites de um lado para o outro, esbaforido, sempre à procura de qualquer coisa que não encontrava por entre manjericos e febras.

Passei depois o tempo em que me recusava terminantemente a ir. Não estava para confusões sem o mínimo de conforto, não sou adepto de sardinhas tão pouco e talvez por isso tudo aquilo me fazia um pouco de confusão. Bebedeiras coletivas, cenas de pancadaria e uma dificuldade imensa em marcar mesa para jantar e acima de tudo forma de voltar para casa, com as ruas cortadas e os transportes públicos escassos para tanta procura. Esta era pelo menos a realidade que os meus olhos viam.

Nos últimos dois anos voltei às festas. Encontrei o meu espaço e percebi que por ali há espaço para todos. No meio das marchas populares e da  salada de tomate existem, percebi agora, distintas realidades e formas diferentes de viver as festas. Este ano fui a uma na Associação Tejolense. Ali mesmo no coração de Alfama, na Rua das Escolas Gerais. Consegui jantar “à maneira”, sem confusões e com acesso a bebida e comida quando e como queria. Maravilhosas febras no pão, num primeiro andar que nos permitia estar “onde tudo se passa” e a poucos passos da alegria generalizada. Encontrei-me pois no maravilhoso mundo da alegria entre turistas felizes com a novidade e o prazer dos residentes em transformarem o seu bairro no melhor bairro de Lisboa numa salutar competição.

É por isso importante conseguirmos atingir dentro da nossa realidade e das circunstâncias um estado de espírito que nos permita usufruir destes movimentos de cultura, absorvendo o que ela tem de melhor. E parece-me fundamental que possamos todos fazer um pouco para alimentar estes momentos tão nossos que marcam de forma decisiva quem nos visita, mas sobretudo que nos relaciona nos aproxima e nos apaixona. No Tejolense de Alfama “ponho o carro, tiro o carro à hora que eu quiser”. Festas dentro da própria festa de todos e para todos. Basta saber procurar. Que nunca acabe o Santo António, São Pedro, São João e todas essas demonstrações que transformam o país e nos puxam para sentimentos positivos.

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