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Asghar Farhadi. "O que faço é colocar luz sobre partes escuras da vida"

Asghar Farhadi. "O que faço é colocar luz sobre partes escuras da vida"

DR Cláudia Sobral 25/06/2018 12:27

A última visita do realizador iraniano a Portugal tinha sido há dez anos. Desde então, tornou-se num dos nomes mais icontornáveis do cinema. Do seu país ou de qualquer parte do mundo 

Se hoje é dia para portugueses e iranianos estarem por uma vez a olhar para o mesmo, melhor será tirar já isso do caminho. Assunto puxado por Asghar Farhadi, nome incontornável do cinema iraniano, e não em início de conversa, mas quando veio o pretexto. Como se estivesse à espera. “No Irão as pessoas gostam muito deste país, por causa do Carlos Queiroz”, sorri o realizador perante o grupo de jornalistas que recebeu para uma conversa em mesa redonda. Farhadi também? “Adoro-o, já é quase iraniano. Tem uma personalidade muito interessante, é muito inteligente, simpático. Conhece o meu país muito bem, de uma forma inacreditável.” Mas não apenas isso. Desde aquele dia em que Farhadi venceu o seu Óscar, o primeiro, de Melhor Filme Estrangeiro, com “O Vendedor” e o treinador português o felicitou publicamente que ficou claro que não só pelo Irão se interessa Carlos Queiroz. “Ele sabe de cinema também.”

O resto fica para este fim de tarde, para o jogo a que assistirá com certeza “fechado no hotel” ainda em Espinho, onde passou os últimos dias a convite do FEST - New Directors New Films Festival, que termina hoje, e de onde o realizador iraniano seguirá para Madrid, onde está prestes a estrear o filme que abriu este ano o Festival de Cinema de Cannes, “Todos Lo Saben”. Um filme espanhol, espanhol de verdade, será seguro dizer-se, protagonizado por Penélope Cruz e Javier Bardem como casal separado pelo tempo, que também o FEST exibiu pela primeira vez em Portugal numa sessão privada, na sexta-feira, depois da masterclass com que ao longo de duas horas o realizador iraniano deixou o grande auditório do Centro Multimeios de Espinho a abarrotar. 

E falemos sobre o tempo. Para Farhadi é sobre isso este seu mais recente filme, o segundo feito fora do Irão onde, não importa quantos vá fazer fora, regressará sempre. Mas o primeiro completamente desligado do Irão (“OPassado”, rodado em Paris, não deixava de ser uma história iraniana). Tinha o realizador dito na sessão de perguntas e respostas com o público logo após à projeção de “Todos Lo Saben”, na sexta-feira à noite, que o via como um filme sobre o passado também, e para o vermos assim basta que o vejamos aos olhos de Pablo (Javier Bardem): “Nunca sabemos que passado está a vir em direção a nós. Achamos que o tempo é uma linha, mas é um círculo.”

Pontos de vista sobre uma história – no caso, duas em paralelo, para duas perguntas às quais o filme não deixará resposta – haverá sempre muitos, ou todos, e disso bem sabe o realizador que, de volta à mesa redonda com um pequeno grupo de jornalistas portugueses, nota como apesar de não ser esse um objetivo os seus filmes são demasiadas vezes interpretados de um ponto de vista mais político do que aquele que desejava. “Em muitos países ocidentais, um realizador do Médio Oriente é muitas vezes visto como uma pessoa que chega para dar informação sobre o Médio Oriente. Mas não é esse é o nosso trabalho. Fazemos filmes porque gostamos de cinema. Para o resto podem ir ao Google. Se eu faço um filme fora, dizem-me que estavam à espera de um filme sobre o meu país. E eu não gosto disto, deste cliché. Por isso, sim, talvez me interessasse fazer um filme sem estes elementos, sem ligação ao meu país, para ver o que acontecia. E agora sim, agora já falamos de cinema.”

E vamos ao cinema então. E do que há de político no cinema, Farhadi diz que um filme poderá ser tudo. “O cinema pode ser muita coisa. Político, moral, psicológico, e isso também tem a ver com o público. Se a audiência se interessa por questões políticas, verá qualquer filme desse ponto de vista.” Por exemplo: “Sobre este meu último filme, perguntaram-me se tinha feito pesquisa sobre a situação política em Espanha. Eu disse que tinha lido uns livros sobre o tempo de Franco, etc., mas que nem por isso. E essa pessoa perguntou-me como, porque que em Espanha este seria um filme político. O que respondi foi que o que fiz foi descrever a vida numa pequena cidade espanhola e que ele é que encontrou uma forma política de interpretar o filme.” 

E não sabe trabalhar de outra forma Farhadi, é o que nos diz. “Se fizer um manifesto político num filme que faça agora, nos próximos dez, 15 anos ou noutro país isso não será entendido. Para mim não é isso a arte.” Para o realizador de “Uma Separação” ou “O Vendedor”, filme que marcou o seu regresso ao Irão depois de “O Passado”, em França, e que lhe deu no ano passado o seu primeiro Óscar, de Melhor Filme Estrangeiro, o papel que deve ter o cinema, um filme, é desafiar o público à reflexão. “Quando vemos um filme, o que é que nos acontece? Ficamos felizes, tristes, às vezes as duas coisas. Se ficarmos neste lugar, tristes, felizes, o filme terá acabado ao fim de uns dias. Se estas emoções, boas ou más, nos desafiarem a refletir sobre um assunto, o filme permanecerá vivo para sempre.” Não tem que haver uma mensagem, sublinha. “Num filme do Bergman, não conseguimos encontrar uma mensagem. Um filme de Bergman é sobre o ser humano.”

Bergman, também ele homem do teatro feito do cinema, como Farhadi, dramaturgo no início da sua carreira. Universo que recuperou em “O Vendedor”, com a encenação “Morte de Um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller dentro do filme. E tudo partiu daí, da imagem de um foco de luz sobre um ponto específico de um cenário. Algo que se encontra nesse filme iniciado e terminado em apenas um ano, pelo meio deste “Todos Lo Saben” que chegará às salas portuguesas no outono com distribuição da Alambique. Mas também no que acredita ser a sua forma de construir narrativas. “É um bocadinho o que faço nos meus filmes, pôr uma luz sobre uma parte escura da vida.”

Sobre as luzes, holofotes, passadeiras, Farhadi agradece não os ter encontrado por aqui. “Há dois tipos de festivais. Os grandes festivais, que são muito bons para os filmes, para a sua promoção, e estes, que são bons para o cinema.” Na véspera, perante uma plateia repleta de jovens de todas as partes do mundo em início de carreira, ou a aspirar ainda a uma, na indústria do cinema, havia dito mais, havia dito, com um agradecimento, que “o cinema é isto”. Sem passadeiras, sem holofotes, só o cinema e todos à sua volta como estiveram mais uma vez ao longo da última semana participantes e convidados de mais uma edição do FEST.

E estava certo Farhadi, sentirá na pele a jornalista no momento em que, a terminar este texto, vem o realizador sentar-se por acaso ao seu lado, minutos antes do início da cerimónia de entrega dos prémios. Não fosse o plano do realizador iraniano ver o jogo em que Portugal e Irão decidem esta tarde a passagem à fase seguinte do Mundial no hotel, talvez alguém tivesse a sorte de poder torcer pela segunda seleção mais portuguesa deste campeonato do mundo de futebol ao lado dele.

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