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Spell Reel. A libertação em movimento

Spell Reel. A libertação em movimento

Cláudia Sobral 20/06/2018 21:22

A estreia na longa-metragem de Filipa César é o resultado de uma incursão com Sana Na N’Hada, e depois todo um país, pelas imagens registadas durante a libertação da Guiné por quatro jovens que Amílcar Cabral fez realizadores

Em 1967, Amílcar Cabral enviou, com o apoio de Fidel Castro, um grupo de estudantes para Cuba. Quatro deles para o Instituto do Cinema de Cuba, onde se tornariam os cineastas para, de regresso à Guiné-Bissau, filmarem a luta pela independência. Entre eles, Flora Gomes, que continuou depois o seu trabalho na ficção, e Sana Na N’Hada, autor de documentários como “O Regresso de Amílcar Cabral” (1976) ou “Les Jours d’Ancono” (1978), primeiro presidente do Instituto Nacional do Cinema e do Audiovisual (INCA) da Guiné-Bissau, guardião por isso do pouco de sobrava dos registos da luta armada pela Frente de Libertação Guineense nos arquivos.
 
Arquivos aos quais Filipa César foi dar em 2011, ano da sua primeira viagem a Bissau, num início do processo que acabaria por ir dar a um filme “Spell Reel”, documentário que veio como resultado, não como objetivo, nota a artista multimédia e realizadora sobre esta sua primeira longa-metragem que, dois anos depois da estreia no Festival de Cinema de Berlim, tem amanhã estreia comercial no CinemaIdeal, em Lisboa.
 
Mas talvez seja anterior a essa viagem o princípio de “Spell Reel”, documentário em que o regresso às imagens captadas por aquele grupo de realizadores durante a guerra e nos primeiros anos de governação socialista para a construção de um novo país – “havia essa literacia cinematográfica como parte do processo de libertação, havia essa procura de usar o cinema e a rádio como instrumento de reação à opressão colonialista”. Talvez tenha sido em 2009, quando conheceu Chris Marker em Paris, ou em 2003, quando descobriu “Sans Soleil” (1983). “Porque é que um realizador francês faz um filme a acontecer entre o Japão e a Guiné-Bissau? Fiquei intrigada.” 
 
E também isso vinha de antes, vinha de sempre, da vida inteira, e talvez o universo de feitiço, sortilégio (spell) esteja agarrado a mais do que uma bobine (reel) como descobrimos quando lhe perguntamos pelo princípio da sua ligação com a Guiné-Bissau: “A minha relação com a Guiné não é nenhuma mas ao mesmo tempo é quase fantasmagórica, porque o meu pai tentou fugir da guerra em 1966, não conseguiu e em 1967 foi lá parar. Teve que marchar para a guerra. Portanto a Guiné era aquela coisa que não é muito bem definida e um bocado problemática ao mesmo tempo. A Guiné era ‘o pai esteve lá na guerra’ – aliás, antigamente dizia-se ‘na tropa’, não se falava de guerra ainda nessa altura. Mas o meu pai, que era uma pessoa de esquerda, bem contra a colonização e aquele processo todo, deu-me sempre informação, foi na verdade ele que me falou do Flora Gomes e que me descreveu ‘Os Olhos Azuis de Yonta’ [filme do realizador guineense já de 1992] pela primeira vez.”
 
Ou talvez tenha sido depois o verdadeiro início, pelo menos o que determinou “Spell Reel”. Quando, após se deparar com o avançado estado de degradação do pouco que sobrava dos arquivos do INCA reuniu, junto do instituto Arsenal de Berlim, os apoios mínimos para, com um grupo de trabalho reuniu com Sana Na N’Hada, dar início à sua digitalização. “Spell Reel”, documentação desse processo, da digressão pelo país, em 2014, para a exibição desses arquivos acompanhada de debates, ao mesmo tempo que uma janela para o que eles contêm, não é então um mero filme montado a partir de imagens de arquivo. 
 
Material que não é praticamente editado, de resto. Preferiu atirá-lo, nas suas palavras, para uma janela sobreposta aos seus próprios registos ou ideias que apoiam a narrativa em forma de notas, do lado esquerdo do ecrã. “Como numa sala de montagem, porque quando se está a montar há sempre dois ecrãs, um do lado direito e um do lado esquerdo”, explica. “Esta ideia de trazer a sala de montagem para a sala de cinema foi tentar encontrar uma forma para que refletisse o que era o projeto.” Levar a sala de montagem para a sala de cinema, ao mesmo tempo que a sala de cinema se transforma em espaço para ritual. “Um ritual de animar as imagens para perceber o que é que essa animação produz também no presente, na contemporaneidade.”
 
O que acontece quando a imagem documental é materializada num espaço, no presente? Ouviremos respostas, algumas, a partir dos registos de Filipa César das projeções do material recuperado por todo o país. E ouviremos homens falar sobre pós-colonialidade. Como veremos, por exemplo, a câmara da realizadora percorrer a mesma ponte que percorreu Luís Cabral, o primeiro presidente guineense, na sua primeira visita oficial ao Sul, no verão de 1976. Viagem que foi convencido a fazer de carro, não de avião, desde Bissau, para que melhor compreendesse o real estado desse país a fazer-se. Veremos aquele grupo de quatro estudantes enviados para Cuba – Sana Na N’Hada, Flora Gomes, José Bolama Cobumba e Josefina Crato – cortar mato em trabalho voluntário, como continua a ser hoje feita a limpeza das bermas das estradas na Guiné-Bissau. 
 
Desdobrado em janelas, “Spell Reel” contempla-se como se contempla uma videoinstalação – vem daí afinal Filipa César, que sobre os seus fantasmas herdados tinha já em 2008 apresentado nesse suporte “Le Passeur”, instalação com as histórias de quatro passadores, com as questões da guerra e o colonialismo já latentes. 
 
Sobre o que acontece nesse momento em que o passado – no caso, o passado colonial – se materializa no presente, ou qual é afinal o resultado desta confrontação para além de um filme, já não é fácil para Filipa César regressar ao ponto de partida. “Temos esta coisa de apagarmos as imagens que temos com [o aparecimento de] novas imagens. Quando a realidade se materializa a realidade, parece que as coisas que imaginávamos desaparecem.” Mas sobre o processo, sobre a convocação de conflitos latentes – “eu, como portuguesa branca, sou um potencial significante da violência lá, posso ser” – Filipa César recorda as palavras de Sana Na N’Hada: “O Sana sempre me disse: ‘Filipa, tu nunca vais fazer nada certo neste projeto’. E essa é a questão. A ideia não é fazer uma coisa certa porque não há certo dentro do errado, não há maneira de fazer certo dentro de uma coisa que é má, no contexto da colonização e da pós-colonização ou aquilo a que chamamos de pós-colonialidade.”
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