21/9/18
 
 
Carlos Zorrinho 20/06/2018
Carlos Zorrinho
opiniao

opiniao@newsplex.pt

2021 – Odisseia política

Antes de decidirem em que lado lunar devem aterrar, PSD e CDU têm de chegar ao encontro com a História marcado para 2021, sendo vistos pelos portugueses como parte da solução e não como parte do problema

Os tempos não estão apropriados para previsões políticas de médio ou longo prazo. Além da aceleração geopolítica global, em Portugal, a aproximação de um ano marcado por três eleições (europeias, regionais na Madeira e legislativas) vai naturalmente fazer crescer a intensidade política e a turbulência em torno dos combates de ideias e de propostas que estruturam o processo democrático.

Tenho consciência do risco que é escrever sobre 2021 sem ter a certeza do que vai acontecer amanhã. Faço-o, no entanto, a partir de um registo empírico e com base em episódios que sustentam um raciocínio lógico que o futuro se encarregará de validar ou não.

São cada vez mais os votantes tradicionais do PSD que, falando comigo, reconhecem que a dose de austeridade e a radicalização à direita do governo PSD/PP de Passos Coelho e Paulo Portas provocaram um empobrecimento e um dano desnecessário na sociedade e na economia portuguesa. São votantes que, embora se sintam ligados racional e emocionalmente ao partido, temem que ele volte a deixar-se embalar pela sereia do neoliberalismo sem sensibilidade social. São esses votantes que Rui Rio procura desesperadamente manter, não para vencer em 2019, que sabe ser uma meta pouco viável, mas para sobreviver a 2019 e poder definir o seu futuro como líder do partido nas autárquicas de 2021.

No final do século passado, um bom amigo com altas responsabilidades políticas na CDU fez-me notar que, ao contrário do que era a perspetiva corrente, que postula que a coligação PCP-Verdes é uma coligação com muitas autarquias, aquela coligação é antes a representação política de uma rede de autarquias. Era por isso, segundo o amigo que, por óbvias razões, não identifico, que o PCP não tinha ambições de governação nacional, evitando pôr em risco a estrutura autárquica que lhe dava substância e influência no terreno.

Esta análise (que entre outras coisas não integra a dimensão sindical da estruturação da CDU) ajuda a explicar o enorme abalo telúrico que constituiu para a CDU o resultado autárquico de 2017. É expetável, por isso, que o PCP, como uma força política respeitadora dos compromissos que assume, cumpra o acordo de incidência governamental, que tem sido responsável por uma assinalável recuperação da confiança e das condições de vida da maioria das portuguesas e dos portugueses, mas queira chegar a 2021 livre de restrições para travar uma batalha de sobrevivência nas autárquicas desse ano.

O ano de 2021 será, por isso, marcante na política nacional, aconteça o que acontecer até lá. É para esse ano que as lideranças do PSD e da CDU marcaram um encontro determinante com o seu destino. Mas tudo isto pode mudar. Os tempos de incerteza no mundo e na União Europeia (UE) demonstram que não há calculismo capaz de resistir à apreciação das pessoas.

Antes de decidirem em que lado lunar devem aterrar, PSD e CDU têm de chegar ao encontro com a História marcado para 2021, sendo vistos pelos portugueses como parte da solução e não como parte do problema. A forma como resistirem à tentação de se oporem ao que está a correr bem em Portugal determinará o enredo e o desfecho da odisseia política de 2021.

Eurodeputado

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×