26/9/18
 
 
António Cluny 19/06/2018
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

A perplexidade atual do voto democrático e a emergência dos fenómenos populistas

Os populismos espelham, quase sempre, o irracionalismo que a falta de perspetivas democráticas produz na ausência de um programa mobilizador e abrangente e, sobretudo, assente no bem comum

Em março deste ano foi publicado em França um pequeno livro reproduzindo uma intervenção do historiador e sociólogo francês Pierre Rosanvallon, proferida durante os Encontros da Laicidade, uma iniciativa do Conselho Departamental do Alto Garona.

O título do livro é “Reformar a Democracia para o Bem Público”.

Não interessa aqui discutir a obra, a evolução e as opiniões deste renomado intelectual, que se dedicou em especial ao estudo do funcionamento da democracia e das suas instituições em França.

Muito do que escreveu deveria, em todo o caso, ser lido ou relido por quantos se preocupam com o funcionamento das instituições públicas, pois a abordagem que Pierre Rosanvallon delas faz adequa-se melhor à realidade portuguesa que a de muitas outras obras – sobretudo de inspiração anglo-saxónica – sobre a governance.

O que particularmente me chamou a atenção neste pequeno livro foi, todavia, uma observação sobre a debilidade atual do sentido útil do voto dos cidadãos para a construção de um projeto comum e mobilizador de vida.

Diz Rosanvallon a propósito da erosão da democracia como instrumento de projeção de futuro: “O cidadão sente ter perdido poder porque, se o seu voto lhe permite derrotar ou eleger alguém, ele tem hoje uma menor capacidade de projeção democrática.”

Em muitas situações – e, em Portugal, esta questão é hoje fundamental –, o problema da projeção de um futuro comum, que, por isso, envolva e mobilize uma parte significativa da sociedade que dele tem sido arredada, é real.

Na falta de um tal projeto ou, pelo menos, de um acordo alargado e credível sobre aspetos importantes que possam unir camadas determinantes da sociedade na construção de um futuro melhor, o sentido político e democrático do voto acaba por se perder.

O reforço democrático da nossa sociedade consiste, pois, menos na análise e especulação sobre hipóteses das maiorias a constituir em termos de alianças pós-eleitorais e mais, muito mais, na verificação por parte dos cidadãos de que, através do seu voto, podem contribuir efetivamente para a edificação do seu futuro.

É na erosão da possibilidade de o voto cidadão contribuir para esse futuro que se instalam os chamados populismos.

Os populismos espelham, quase sempre, o irracionalismo que a falta de perspetivas democráticas produz, devido à ausência de um programa mobilizador e abrangente e, sobretudo, assente no bem comum.

A opção pela irracionalidade das respostas populistas é, pois, a contestação limitadamente racional da sociedade à irracionalidade de democracias que não projetam futuro, mas medos e conformismos.

No plano político, Portugal tem conseguido evitar, até hoje, o surgimento de respostas populistas às dificuldades sentidas por largas camadas da população.

Isso deve-se também, mais recentemente, à capacidade que a nossa democracia tem tido para oferecer alternativas, mesmo que limitadas, ao postulado neoliberal da sua definitiva inexistência.

Alguns sinais de populismo parecem, porém, insinuar-se entre nós. Têm-se evidenciado sobretudo na emergência recente de alguns fenómenos, comportamentos e episódios desportivos e sindicais.

A possibilidade de esses comportamentos, por ora marginais, não virem a reconfigurar-se em breve como respostas políticas populistas reside, pois, na capacidade de a nossa democracia continuar a atender às necessidades atuais de um futuro abrangente e capaz de projetar soluções que privilegiem o bem comum.

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