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Pedrógão Grande. A chuva não chegou para lavar a cinza dos corações

Pedrógão Grande. A chuva não chegou para lavar a cinza dos corações

Mafalda Gomes Rosa Ramos 17/06/2018 08:55

Um ano depois do grande incêndio de 17 de junho, pouco mudou. As estradas estão por limpar, ainda há gente a viver em tendas, só uma minoria das casas foram reconstruídas e os eucaliptos multiplicam-se, muito verdes, pelas encostas. Quem sobreviveu ainda chora os mortos 

Quando os gritos e o choro se calaram e os carros deixaram de explodir, um a um, Odete saiu do Ford Escort. Caminhou a medo por entre a escuridão, os chinelos a derreterem no asfalto e a pele a ameaçar descolar-se do corpo. Foi tropeçando nos cadáveres, pequenos montes de cinza ainda a fumegar, enquanto dava instruções ao marido, ao filho e à irmã de 81 anos, que seguiam atrás, também a pé pela estrada da morte, para não esbarrarem no que sobrava dos mortos. Só no dia a seguir haveria de saber que a nora, Susana, e as duas netas, Joana e Margarida, tinham morrido mais à frente, num dos carros. 

A aldeia de Várzeas, no concelho de Pedrógão Grande, foi a que mais mortos contou a seguir aos grandes incêndios de 17 de junho do ano passado: em poucos minutos morreram 14 pessoas. Na longa lista de mortos está o nome da família de Odete António. As netas tinham 12 e 15 anos; a nora, 40. Ao final da tarde desse dia fez-se noite mais cedo. E quando começaram a cair bolas de fogo do céu, a família fugiu da aldeia, em pânico, dividida por dois carros. O de Odete não ardeu por ser antigo e feito só de chapa. O da nora ficou carbonizado.

Várzeas ficou com 29 residentes. Em dezembro, pouco antes do Natal, a aldeia - um pequeno aglomerado de casas rodeadas de esqueletos de árvores por todos os lados - recebeu a visita do primeiro--ministro António Costa. “Foi a primeira vez que um membro do governo cá veio”, conta Mário Alves, vizinho da família. A comitiva, que incluiu um batalhão de jornalistas e de seguranças, chegou sem aviso prévio em dois autocarros da câmara. Desceram uma pequena ladeira e entraram na casa de Elisa, destruída pelo fogo e recém-acabada. Meia hora depois voltaram a fazer-se à estrada que se desenha aos ziguezagues pelo meio dos eucaliptais e nunca mais voltaram. Em Várzeas, ainda se choram os mortos e há uma espécie de solidão profunda escrita nos rostos dos que ficaram. “Ninguém nunca quis nem quer saber de nós”, desabafa Odete. 

A vizinha Elisa é afortunada. Já tem a casa pronta há meio ano, enquanto quase metade (40%) das primeiras habitações que se perderam nos incêndios de junho - arderam 261 - ainda não estão feitas e, em cinco casos, as obras só arrancaram este mês. Existem outras histórias que não cabem nas estatísticas do governo: há quem já tenha a casa pronta mas sem gás, mobílias ou eletrodomésticos.

Peter e Marion, por exemplo, continuam a viver numa tenda improvisada à porta da casa que perderam em Salaborda Velha, no concelho de Pedrógão Grande. Há uma semana tomaram banho de chuveiro pela primeira vez num ano porque o empreiteiro lhes ligou, finalmente, a água. Também só há uma semana passaram a usar sanita. Foi na tenda e numa pequena rulote emprestada que se abrigaram das chuvadas e do frio do inverno e da primavera. Também foi aí que escreveram ao ministro do Planeamento e das Infraestruturas quando, há uns meses, Pedro Marques disse na televisão que já não havia gente a viver em tendas nas zonas afetadas pelos incêndios. “Quis dizer-lhe que nós existimos”, explica Marion Ruiter, que nunca teve resposta à carta. 

A casa nova, uma vivenda branca a estrear com vista sobre quilómetros e quilómetros de floresta ardida, teve um preço demasiado alto para o casal de holandeses que, na década de 1990, se apaixonou pela zona Centro. Há um ano, Peter fugiu da aldeia com um pequeno rebanho de cabras dentro do carro e dormiu três dias ao relento à espera que o lume se apagasse de vez. E conta que a casa lhes roubou a pouca energia que restou depois desses dias. A moradia antiga tinha três quartos, mas o projeto que lhes foi apresentado no final do verão do ano passado só contemplava um. “Disseram-nos que, como não tínhamos filhos, só podíamos ter um T1. Recusámos. Nunca pedimos nada e, se nos queriam ajudar, que fosse de coração”, diz o holandês. 

Cada metro e cada centímetro da vivenda teve de ser negociado a ferros com “as senhoras do REVITA [fundo criado pelo governo para apoiar as reconstruções]”. Em outubro, o casal desistiu das negociações e aceitou assinar os papéis da versão do que é hoje a casa: um T2 com menos 90 metros quadrados do que a original. No final de abril, com as obras prestes a arrancar, foram informados de que, afinal, lhes iam “tirar” mais 4,5 metros de área. “Perguntei como era possível fazerem isso, porque tínhamos assinado a planta, e responderam que esse contrato já não tinha validade por ter sido assinado em outubro.” De tanto baterem o pé, a obra acabou por se fazer com os 4,5 metros a mais. 

No que diz respeito a apoios, tudo correu mal com o casal holandês de Salaborda Velha. Cozinhavam em fogueiras à porta da tenda, mas quando chegaram as primeiras chuvas, no final de novembro, o lume não se aguentava. “Fomos à Segurança Social pedir dinheiro, porque não tínhamos rigorosamente nada, para comprar um fogão de campismo, a gás, e um pequeno aquecedor. Disseram que tínhamos de preencher formulários e de entregar três orçamentos para cada objeto. Passado uns dias, regressei com as papeladas, mas a senhora da Segurança Social disse que não podiam ajudar porque era meio de dezembro e já tinham fechado a caixa.”

Não fosse a ajuda dos vizinhos, que emprestaram os 75 euros, e o casal teria passado a noite de Natal com fome e debaixo de gelo. Agora, Peter e Marion aguardam a visita do empreiteiro para lhes ligar o gás e a chegada da Cruz Vermelha, que ficou de doar os móveis. A casa vai-se compondo ao lado da tenda, mas não é suficiente. “É a nossa casa, nunca será o nosso lar.” Quando deixarem de viver na rua, Peter e Marion prometem continuar a sonhar. Planeiam abrir uma produção de queijo e querem construir um museu que recorde o fogo.

A cinco quilómetros, em Nodeirinho, Sebastião Esteves também ficou com uma casa mais pequena. A antiga, construída em pedra e madeira, tinha dois quartos. A vivenda térrea onde vive desde o Natal só tem um. Quando recebeu o primeiro projeto, o antigo taxista, viúvo e com 84 anos, ainda pediu “às senhoras da câmara” se lhe podiam fazer mais um quarto. “Disseram que não tinha direito por ser sozinho e não ter filhos.” 

Resignou-se e aceitou a casa mesmo assim. “Perdi tudo, à exceção da roupa que tinha vestida. Foram-se as minhas memórias, os retratos do meu pai, da minha mãe, o dinheiro que tinha guardado... Estar vivo é uma sorte e terem-me feito esta casa ainda mais”, justifica. 

No dia do fogo, Sebastião esperou que o tornado de fogo - que uivava tão alto que os ouvidos ameaçavam rebentar - passasse na casa de banho, agachado ao lado de uma botija de gás. “No meio da aflição nem me lembrei do perigo, só queria proteger-me.” 

O fogo veio em fúria de trás dos montes. Varreu campos e hortas, levou telhados, partiu árvores. Do interior da casa, Sebastião ouvia explosão atrás de explosão. “Durou sete, oito minutos.” Quando ganhou coragem para sair, viu uma pilha de lenha com três metros que tinha no pátio em chamas. Meteu-se no carro, prego a fundo, arrancou para a aldeia e juntou-se ao resto do povo, que sobreviveu à passagem do diabo dentro de um tanque comunitário. Uns choravam, outros gritavam. Houve quem rezasse. Pouco depois, era levado de ambulância para Pedrógão. Já não ouviu as três garrafas de gás que tinha em casa explodir nem viu as chamas de metros engolirem as paredes. 

Nas três noites seguintes dormiu num lar em Pedrógão. Ao terceiro dia recebeu ordem de despejo. “Disseram-me que não podia ficar ali. Só de dia, à noite não havia espaço. E comunicaram-me que iria para outro lar em Alcobaça [a 126 quilómetros]. Claro que disse que não. Manda-se assim uma pessoa para tão longe? Responderam-me que, nesse caso, tinha até ao fim do dia para encontrar uma casa.” Desdobrou-se em telefonemas e conseguiu alugar uma vivenda sem telhado em Casal da Francisca. Foi aí que passou o início do inverno. Na noite de Natal, Sebastião já estava na casa nova, mas não preparou as batatas e o bacalhau como costumava fazer. Passou a consoada sozinho, agarrado à nova salamandra da cozinha. 

Também não houve Natal no centro do povo, na casa de Isabel - que perdeu o filho Diogo, com 24 anos, um irmão, o padrinho de 74 e a mulher. Um ano depois, quase toda a gente ainda fala com os seus mortos e Isabel entretém-se a conversar com o retrato do filho. Umas vezes, porque se esquece de que está morto. Outras, porque se sente sozinha. Outras ainda porque se arrepende de o ter deixado arrancar na carrinha, sozinho, no meio da tempestade de lume. “Entrou em pânico e só dizia que queria fugir. Eu ia-lhe gritando que o melhor era trancarmo-nos em casa e fui entrando. Ele ficou a ajudar os vizinhos porque havia casas a arder.” Quando o vento e o fogo se foram, o filho já não estava na aldeia. No dia seguinte, o irmão, Rafael, com 17 anos, foi chamado a fazer o reconhecimento da carrinha, carbonizada numa das estradas de acesso à aldeia. Já depois de se saber que Diogo tinha morrido, Rafael correu as casas de Nodeirinho a bater às portas, em desespero, convencido de que o irmão ainda havia de aparecer. Semanas mais tarde, Isabel iria à Medicina Legal reconhecer o pouco que sobrou do corpo do filho.

Dos 66 mortos, quase 50 perderam a vida a fugir das chamas, dentro de carros e em estradas de acesso às aldeias da região. Mais de 30 morreram na EN 236-1. Foi aí que ficaram dez dos 11 mortos da aldeia de Pobrais, no concelho de Pedrógão Grande. Muito provavelmente, um dos carros com que Odete se cruzou quando fugia da estrada da morte foi aquele onde seguiam duas primas com o mesmo nome, Anabela. Quando o incêndio começou a aproximar-se da aldeia de Pobrais, José Esteves meteu-se num carro e a mulher e a prima seguiram noutro. Andaram 500 metros até ao cruzamento com a Nacional. No meio do escuro, das labaredas e da confusão de carros, ele, que seguia à frente, virou à esquerda. Anabela escolheu virar à direita e morreu. Minutos depois, José salvava a vida a um casal que circulava numa berma, com os corpos a arder. Meteu-os dentro do carro e seguiram para as Várzeas.

Este domingo há uma homenagem às vítimas do incêndios com o Presidente da República, em Pedrógão Grande. No memorial aos que não sobreviveram figura o nome de Anabela Esteves, mas o marido não estará lá para o ver. Depois de ficar viúvo, tem-se dedicado a viajar e evita passar tempo em Pobrais. Deixou de trabalhar - esteve emigrado em vários países, empregado na construção de estradas - porque diz que aprendeu que “a vida escapa muito depressa por entre os dedos”. Não é dado a metafísicas e, por isso, prefere não pensar no instante em que a mulher virou à direita no cruzamento. “Eu, culpado, não me posso sentir... (silêncio) Aquilo são minutos. Foram minutos e eu escapei por segundos”, desabafa, antes de desaparecer por entre os grandes portões da vivenda, que ficou intacta a seguir à passagem do fogo.

Passou um outono, veio o inverno e a primavera está quase acabar. Um ano depois, pouco parece ter mudado nas zonas varridas pelo fogo. As aldeias continuam a morrer: só em Várzeas já se fizeram 17 funerais depois de enterrados os mortos dos incêndios. As bermas da estrada da morte não foram limpas e os eucaliptos multiplicam-se livremente, muito verdes, nas encostas. À entrada de Castanheira de Pera foi construído um grande parque para armazenar madeira, mas os troncos vão adoecendo devagar, sem qualquer cobertura ou proteção, fustigados pela ação das chuvas, do vento e, agora, do calor. Do outro lado da estrada, dois homens fazem uma grande queimada, em luta feroz contra o vento. Não se veem GNR’s nas aldeias ou vigilantes nas florestas. Nas autoestradas da região, como a A13 ou a A23, as concessionárias não cumpriram a lei e o mato amontoa-se nas bermas e nos separadores centrais. Os bombeiros de Pedrógão desabafam que continuam a braços com a habitual crise de voluntariado e de associados. E o luto, esse, também continua. 

Em memória das vítimas   

Afonso Conceição, Alzira Costa, Américo Rodrigues, Ana Henriques, Ana Lacerda, Ana Tomé, Anabela Esteves, Anabela Carvalho, Anabela Araújo, António Costa, António Nunes, António Lopes, Armindo Medeiros, Aurora Abreu, Bianca Nunes, Bianca Machado, Dídia Lopes, Augusto Costa, Eduardo Costa, Eliana Fernandes, Francisco Damásio, Fátima Carvalho, Fausto Costa, Felismina Ramalho, Fernando Abreu, Fernando Santos, Fernando Silva, Gonçalo Conceição, Jaime Luís, Joana Pinhal, Joaquim Costa, José Silva, José Graça, José Tomás, Lígia Sousa, Luciano Joaquim, Lucília Simões, Luís Piazza, Manuel Fidalgo, Manuel Almeida, Manuel Bernardo, Margarida Pinhal, Maria Abreu, Maria Ferreira, Maria Almeida, Maria Gonçalves, Maria Graça, Maria Silva, Maria Neves, Maria Rosa, Maria Odete Bernardo, Maria Rodrigues, Mário Carvalho, Martim Machado, Miguel Costa, Nélson Nunes, Paulo Silva, Ricardo Martins, Rodrigo Rosário, Sara Costa, Sara Antunes, Sérgio Duarte, Sérgio Machado, Sidnel Rosário, Susana Pinhal, Vasco Rosa, Vítor Rosa 

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