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Festas de Lisboa. Turistas e nativos a postos para o arraial

Festas de Lisboa. Turistas e nativos a postos para o arraial

Mafalda Gomes Edilson Coutinho* 12/06/2018 11:33

Junho é sinónimo de Santos Populares. Os bairros portugueses enchem-se para festejar o Santo António, o São João e São Pedro durante toda a noite. Em Lisboa, a festa já começou

No bairro de Alfama, em Lisboa, as pessoas espalham-se pelas ruas logo pela manhã. Embora nos últimos dias ainda não tenha havido muito movimento antes do anoitecer, Paulo Martins, garante que “desde o primeiro dia que está agarrado ao grelhador” e já por lá passaram muitas pessoas. E há quem comece cedo: já chegou a ter pedidos de sardinhas às 11h30.

É sexta-feira à noite e dá para ter um cheirinho das festas que hoje e amanhã atingem o seu ponto alto na capital. Elsa Lopes veio da outra margem do rio Tejo para comemorar pela primeira vez o santo António em Lisboa. É comerciante e tem a barraca montada num local estratégico: mesmo no início de uma das ruas mais movimentadas do bairro e por isso acredita que os clientes chegarão até ela mais facilmente. A setubalense veio por causa da comadre, que a desafiou a juntar-se a ela, e não demonstra arrependimento. Mesmo que os turistas dominem a clientela, este ano estão à espera de muitas pessoas nas festas, “principalmente por causa do futebol”.

Os vizinhos não são encarados como concorrentes. Por lá todos “são simpáticos”. “Não conhecíamos ninguém e todos nos ajudaram”, conta a dupla. Habituada às festas de Setúbal, Elsa constata desde já uma diferença: na sua terra, uma das tradições dos bairros era fazerem-se fogueiras no chão para o convívio, o que dificilmente verá em Lisboa.

A verdadeira festa acontece no centro do bairro de Alfama, um largo onde se concentram vários bailes, restaurantes, barracas, pessoas e muita animação.

Numa das principais ruas do bairro, fazem-se filas para entrar nos restaurantes ao ar livre que estão sempre cheios de portugueses e turistas. O movimento começa a crescer e é com dificuldade o i conversa com um grupo de sete pessoas que veio de propósito para Lisboa comemorar o Santo António.

Nenhum deles é de Lisboa, mas também não é a primeira vez que não resistem ao chamamento das festas. “Há dez anos que temos vindo ao Santo António” garante Pedro Luís. Os motivos são sempre os mesmos: amigos, festa na rua, o ambiente da cidade e principalmente o bom tempo que ajuda a que a festa seja feita nesta altura.

Pedro tem conhecidos no estrangeiro a quem já chegou a dizer que “esta é altura certa para vir a Lisboa”. O habitué do santo António afirma que as opiniões dos turistas. Quando os interlocutores são brasileiros, a comparação com o carnaval é imediata. Também é dominado pelas festas de rua e as várias freguesias que por cá organizam marchas e arraiais são associadas aos blocos que dinamizam a folia do outro lado do Atlântico.

A festa popular que juntou os amigos de várias partes do país para uma noite de petiscos e música na capital deixa também o dono do restaurante satisfeito. Foram mais de 40 copos de cerveja que se contaram na mesa, para além da comida.

Pedro Luís quer continuar a vir à festa. Para ele, o que os santos trazem de diferente é a oportunidade de falar com toda a gente: “o português fica mais sociável nesta altura”.

Os amigos tiraram uma semana de férias e pretendem escolher um bairro para cada uma das noites, de forma a aproveitar melhor toda festa.

Estar num ambiente descontraído e viver um espírito de aldeia parece estranho para quem vem de fora, afinal Lisboa não deixa de ser por estes dias “uma capital europeia”. Mas é um dos motivos para a festa ser tão apreciada por portugueses e estrangeiros.

No meio da confusão das danças, vislumbra-se o humorista António Raminhos, nas gravações do mais recente programa de televisão em que assumiu a missão de só utilizar produtos 100% portugueses. Em tom de brincadeira, Raminhos já fez a sua análise: “se retirássemos tudo o que não era português dos santos, as ruas ficavam igualmente animadas, mas com menos bebedeiras e mais divertimento”, ironiza.

O que deixa o comediante mais triste são os turistas que “desvirtuam o espírito” da tradição popular. Embora as culturas não sejam muito diferentes entre os países europeus, em alguns países existem leis que proíbem os cidadãos de beberem livremente na rua. Estando em Portugal, muitos deles aproveitam para beber e esquecer as sardinhas, as danças e de tudo o resto que envolve as festas que marcam o mês de junho.

“Eu faço muitos espetáculos à noite, então quando estou no meio da confusão geralmente é em trabalho”, admite o humorista. A grande desvantagem de trabalhar com o público é que muitas vezes é abordado por pessoas que estão embriagadas, o que nos santos é um clássico.

António Raminho nasceu em Lisboa e viveu durante algum tempo nos Olivais. Confessa que nunca teve o espírito de bairrismo, e até nunca tinha ido aos Santos, mas mal chegou aos arraiais sentiu-se logo contagiado. “Eu próprio não sou de Alfama e chego aqui e sinto que sou de Alfama”, ri-se.

Onde vive atualmente não existem santos populares. Mas também há festas e quando lá vai percorre todos as barracas à procura da sardinha portuguesa porque diz ser um grande fã do peixe. Se peixe não costuma faltar nas festas, este ano prevê que haja uma grande procura por parte de turistas.

Bica para os mais novos Na Bica, outro palco central das festas de Lisboa, o público é mais jovem. A música também acaba por se distanciar do cariz popular, mas não deixa de atrair centenas de pessoas que se querem divertir.

Para quem não perde os Santos as comemorações representam, sobretudo, memórias. Para lisboetas e não só, esta tradição de sair às ruas dos diversos bairros evoca os tempos em que iam com os pais e os avós ver os bailes populares.

Ana Costa é do Bombarral, tem 19 anos e estuda em Lisboa. Costuma ir a casa no fim de semana, mas este mês decidiu aproveitar as festas, até porque nunca tinha estado no Santo António. Apesar de não ter termo de comparação, está a gostar bastante. As expectativas da estudante estão altas: “acho que vai ser sempre assim”, com muita animação, alegria e música, dizia na passada sexta-feira.

Diogo Cardoso, de Torres Vedras, também está pela primeira vez nos Santos. Demonstra estar surpreendido com a animação e não estava à espera de gostar tanto, até porque “são muitas pessoas” e o ambiente fica mais pequeno.

Daniela Martins tem 19 anos e veio de Viseu para estudar Relações Internacionais. É o primeiro ano que está nas festas e está a gostar mais do ambiente ao vivo do que o que via pela televisão. Apesar da presença na avenida esta terça-feira ser incerta, por causa dos exames da faculdade, pela amostra da última sexta-feira não se ia arrepender: “está um ambiente fantástico”.

Os estudantes garantem não ser muito fãs da sardinha, mas isso não é impedimento de jantarem ao som dos bailes. Ficam perfeitamente satisfeitos com uma bifana, que sabe melhor na festas de Santo António, confessam alguns.

Lucca Beneduce, de São Paulo, Brasil, também está em Lisboa a estudar. O rapaz de 19 anos chegou a Portugal há menos de um ano e conta que toda esta festa foi uma surpresa para ele.

Após um começo difícil em termos de adaptação, Lucca considera que estes convívios são muito bons para relaxar. Até porque também está em época de exames e, para não pensar muito nas saudades da família, sair dá algum consolo.

O estudante também sublinha que o Brasil tem algumas festas parecidas e não é só no carnaval: há arraiais e as festas juninas, precisamente a tradição de festejar os Santos que os portugueses deixaram em terras brasileiras. Lá as pessoas também bebem cerveja, dançam e cantam músicas engraçadas, descreve Lucca.

Numa mesa, ainda à espera de comida, dois casais franceses a jantar separados metem conversa. Também para os turistas é uma oportunidade de convívio.

Um dos casais estava pela primeira vez em Lisboa, e o outro, apesar de já ter estado em Portugal, também nunca tinha participado na festa de Santo António. E acabaram ali um pouco por acaso: estavam a andar pela rua e começaram a ouvir a música cada vez mais perto. Até que descobriram Alfama. Os comentários sobre a cidade são curtos, mas retratam bem a Lisboa das festas populares: muito linda, grande e divertida.

*Texto editado por Marta F. Reis

Testemunhos

Aian Van Creij

“Nasci no Brasil e estou há um ano e meio em Portugal. No ano passado perdi os santos populares, mas este ano pretendo vir o máximo de dias possíveis. Estou em Alfama pela primeira vez por causa do meu amigo Filipe que me trouxe a conhecer esta festa maravilhosa. Estou habituada a este tipo de festa porque no Brasil também temos o São João e a única diferença é o género de música.

Paulo Martins

“Vivo na zona da Sé de Lisboa há mais de sete anos. Estou sempre com o meu grelhador ligado e gosto muito de aqui estar. Até tiro férias do meu emprego para vir assar sardinhas desde manhã até de madrugada. Para mim esta festa representa alegria e, sobretudo, tradição. Desde pequeno ouvia falar em santo António, mas só agora é que sei o que realmente significa o bairrismo que sinto.

Estudantes

“Somos todos de diferentes zonas do país e estamos a estudar na capital portuguesa. Em época de exames, os Santos Populares são a melhor descontração que encontramos no centro da cidade. Estamos a gostar muito e queremos que continue sempre animado. Gostamos de vir para a Bica porque fica mais próximo do Bairro Alto.

Miguel Lopes

“Sou de Alfama e não é a primeira vez que faço o Santo António. Já é tradição na minha família montarmos a nossa barraca. Gosto muito disto e nos próximos anos vou continuar por cá. O público antigamente era mais portugueses, mas agora tem sido mais ingleses e franceses. Aquilo de que realmente gosto é a diversão e representar o meu bairro. Fico toda a noite e não me canso.”

Turistas

“Somos todos de Berlim, mas conhecemo-nos em Alfama. Estávamos a passear pela festa e ouvimos alguém a falar a mesma língua. Foi uma surpresa para nós encontrar as ruas cheias de pessoas, músicas e enfeites. Achámos a comida cara, mas estava tudo muito bom e vamos continuar a ir aos Santos nos próximos dias. Também queremos conhecer outros pontos da cidade.

Hilda Esperança 

“Tenho 60 anos e há três que faço parte das festas populares de Santo António. Este ano está a ser bom, mas têm vindo cá muitos turistas. Ainda é incerto fazer um balanço antes do final dos arraiais, mas até agora tem sido positivo. No meu grelhador não vendo só sardinhas, tenho também chouriço, que é muito procurado por todos os portugueses e turistas.”

 

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