18/9/18
 
 
José Paulo do Carmo 08/06/2018
José Paulo do Carmo

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Às 19h na marquise da minha avó

A vida não é nem nunca será perfeita, já o referi aqui algumas vezes, mas existem momentos que, de tão bons que são, desejaríamos não terminassem nunca

Tenho para mim que é nos momentos perfeitos e na quantidade destes que conseguimos colecionar que podemos medir o nosso grau de felicidade. Se é que isso pode ser alvo de algum tipo de medição. A vida não é nem nunca será perfeita, já o referi aqui algumas vezes, mas existem momentos que, de tão bons que são, desejaríamos não terminassem nunca. É lógico que para sabermos o que é bom temos de perceber o que é menos bom, para sabermos do que gostamos temos de provar aquilo de que gostamos menos. É a nossa forma de experienciar e de nos testarmos a nós próprios, de criarmos as nossas balizas e de chegarmos às tomadas de decisão com um barómetro definido.

Mas se a felicidade para mim é feita desses momentos perfeitos, o nosso equilíbrio emocional é-nos muitas vezes trazido pelas memórias fantásticas e pelas boas recordações. É normal que uma pessoa traumatizada, que tenha tido inúmeros problemas na infância, tenha mais dificuldade em conseguir enquadrar-se num padrão comportamental equilibrado. E é um exercício que tenho feito ultimamente com maior frequência. Quase sem querer, sou assolado por histórias que me acompanham desde sempre e que vão aparecendo sem pedir licença.

Lembro-me por exemplo, como se fosse hoje, de passar tardes inteiras na marquise da minha avó, sozinho, no chão, a jogar Subbuteo e a desejar que ninguém aparecesse para me incomodar. Sempre me dei bem com esses momentos de solidão aparente que me permitiam falar sozinho e interrogar-me a mim próprio sobre diversas questões e até atitudes. Mas naquelas tardes, quando o sol se punha para lá das 19h, já depois de um lanche daqueles de avó galinha, com café muito fraquinho e pão caseiro ainda quente e acabado de sair do forno, eu sentia qualquer coisa mágica que ainda hoje não sei bem explicar.

E dizia à boca cheia (porque sempre tive facilidade enorme em elogiar, o que é uma característica pouco portuguesa) aos meus familiares e amigos que, se existia um paraíso na terra, se ele representava mesmo tudo aquilo de bom que nos incutiam, então eu tinha encontrado o meu, por volta das 19h, lá naquela marquise virada para o sol com mantas no chão, para não escorregar. E era sempre uma chatice quando alguém me vinha chamar para irmos embora.

Outro dos momentos de que me lembro com inevitável saudade era o dia da semana em que a minha tia Olinda nos (a mim e ao meu primo Gonçalo) ia buscar ao infantário. E, vez um vez o outro, lá íamos nós ao colo, com a sensação de que estávamos a guiar, percorrendo em ponto morto a estradinha sem trânsito que nos levava ao portão. Depois, lá voltávamos para os nossos lugares, com o cinto posto, e aguardando ansiosamente a chegada a casa, onde despejávamos literalmente uma gaveta cheia de livros que a tia fazia questão de ler com uma paciência enorme.

Não imaginam elas nem imaginava eu que essas recordações e muitas outras que guardo fizeram de mim uma criança tão feliz e realizada. E é ver-me hoje em dia, por vezes, com um sorriso parvo a olhar para o sol e a recordar diversos momentos desses. Acho que é por isso que sou tão ligado às crianças. Sinto uma química brutal com elas e um compromisso de lhes proporcionar e retribuir o que recebi quando era da idade delas. É isso e o facto de nunca ter abandonado essa criança que há em mim. Talvez por ter memórias tão fortes ou pelo sol que me batia na cabeça e fugia no horizonte, lá pelas 19h, na marquise da minha avó.

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