18/9/18
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 06/06/2018
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

A geringonça ganhou geometria variável, para o que der e vier

É raro Os Verdes não votarem ao lado do PCP, como aconteceu no caso da eutanásia. Mas essa pode ser uma via para, no futuro, se sustentar uma nova geringonça, deixando o PCP menos amarrado

1. O debate parlamentar sobre a eutanásia trouxe uma única novidade, a saber, a circunstância de PCP e Verdes não terem votado da mesma maneira. Não foi a primeira vez, embora seja de registar de forma especial por se tratar de um tema dito fraturante. Esta atitude de aparente divergência pode ser precursora de uma nova realidade política, antes ou depois das legislativas. Os Verdes podem vir a ser a muleta que o PCP empresta a Costa e ao Bloco para manter de pé uma forma futura de geringonça, enquanto os comunistas vão à sua vida, procurando reocupar um lugar mais ativo no movimento social e reconquistar as posições perdidas nas autárquicas, coisa que os traumatizou profundamente.

Com Os Verdes mais envolvidos na geringonça, haveria vários ganhos estratégicos. Desde logo, a circunstância de os ecologistas entrarem diretamente na disputa do espaço do Bloco, o qual marca a agenda das questões de consciência e domina o campo mediático.

O PCP precisa de ter mais campo para voltar a crescer, aproveitando o facto de ainda integrar uma mistura única de gerações que cobrem da resistência ao salazarismo até um grupo de quadros de qualidade que já surgiu neste século.

2. Os cem dias de Rui Rio têm um balanço difícil de fazer. O líder social-democrata não arrancou bem, até porque fraquejou de início quando optou por fazer cedências sucessivas a Santana que, entretanto, já o largou, como era previsível. Por outro lado, Rio integrou figuras na sua comissão política que não são propriamente mais-valias, como está à vista. Já as escolhas que se previam sólidas confirmaram que são competentes e capazes. Ressalvam-se, no entanto, certos desacertos pontuais com Negrão por falta de coordenação e comunicação, o que não impede que o líder parlamentar esteja a cumprir relativamente bem. Quanto a Rio individualmente, o balanço é positivo. Aos poucos vai-se afirmando num estilo próprio, sem grande retórica ou tiradas demagógicas e dentro de um quadro de sobriedade e seriedade. É um processo de consolidação de liderança que entra bem nos grupos sociais mais politizados e com algum poder de compra que prezam a estabilidade. Em contrapartida, não se vê preocupação especial nem medidas dirigidas aos mais desfavorecidos. A melhor proposta do PSD foi conhecida apenas esta semana e tem a ver com o incentivo à natalidade, prevendo a atribuição de um total de dez mil euros de subsídios por nascimento, a serem pagos ao longo de 18 anos. Rio explicava há dias que, quando pegou na Câmara do Porto, os primeiros cem dias foram bem mais difíceis. Talvez. Mas não tem a ver a bota com a perdigota. No Porto tinha conquistado o poder e executava um plano, cortando a direito. Agora ganhou um partido, ou seja, um grupo residual de gente, por mais influência que tenha. Nada a ver com o eleitorado nacional. Rio tem pela frente três batalhas no prazo de um ano: regionais da Madeira, europeias e legislativas. Perder qualquer uma delas pode custar-lhe o lugar ou desgastá-lo junto da opinião pública, pois uma derrota do PSD será apresentada como um triunfo pessoal de António Costa, que é a referência dos socialistas enquanto tiver o atual brilho cintilante. Este, porém, pode oxidar por causa da crise que ameaça a Europa na Itália, na Espanha, com o Brexit e com a guerra comercial declarada por Trump, isto para citar só questões mais imediatas e externas.

3. Quem hoje vá a uma estação dos CTT pode apreciar um exemplo da devastação provocada pelo governo Passos/Portas/Gaspar/troika. O que era uma empresa tornou-se uma confusão pegada. As cartas tardam, certos carteiros já nem batem às portas com os registos, filas enormes e lentas no atendimento e nem o banco que foi dado de brinde aos novos donos parece capaz de contribuir para tornar a empresa eficaz, até pelo contrário. Enfim, um potencial Titanic. Talvez uma reversão da privatização possa evitar um naufrágio.

4. “Uma Vida em Directo” é um livro imperdível em que o jornalista Luís Costa Ribas conta uma vida profissional cheia de peripécias e grandes momentos. Costa Ribas tem sido o descodificador dos Estados Unidos aos portugueses, explicando milhares das suas especificidades complexas. Mas Ribas é mais do que isso. Trabalhou para a Voz da América e cobriu acontecimentos planetários. O livro é obrigatório para quem se interesse pelo jornalismo ou pretenda um testemunho de quem viveu situações únicas, relatadas com base na memória e em documentação consistente, sobretudo relativamente a Angola. Costa Ribas integra uma geração de jornalistas e comunicadores que se afirmou na Rádio Renascença em finais dos anos 70 e nos anos 80. Foram profissionais que deram e ainda dão cartas em jornais, agências, rádios e televisões, em áreas que vão do desporto à política, passando pela economia. Alguns deixaram a profissão, mas tiveram êxito em setores como a banca, os tabacos, os petróleos, o gás, as elétricas, o recrutamento de talentos ou a difícil tarefa de editor. Uma geração de ouro, sem dúvida. Costa Ribas radicou-se nos EUA em 84. Todavia, nunca se desligou de Portugal, nem os amigos e camaradas de trabalho da Renascença e da SIC o esquecem.

Jornalista

 

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