20/9/18
 
 
João Lemos Esteves 05/06/2018
João Lemos Esteves

opiniao@newsplex.pt

Donald Trump: o presidente da justiça social

Desde a ascensão do movimento de direitos civis – onde pontificará sempre o trabalho notável e de uma coragem sobrehumana de Martin Luther King –, o perdão post mortem de Jack Johnson tem sido reivindicado pela comunidade afro-americana

1. Temos escrito, neste nosso espaço no i e no “Sol” online, que uma parte substancial da imprensa (seja nos EUA, seja em Portugal, o que mostra que é um fenómeno à escala global) há muito que deixou de se focar no jornalismo – e passou a empenhar-se militantemente na política partidária. Ao contrário do que alegam – por conveniência e não por convicção, pelo menos na maioria dos casos – os interessados, os média tendem a ignorar hoje ideias como imparcialidade, rigor, isenção e honestidade. Preferem tomar posição (sempre para o mesmo lado, inclinando claramente o campo do debate político para a esquerda), truncar factos, distorcer realidades para agradar aos patrões e aos seus gurus políticos. O que é impressionante é que não há ninguém que contrarie estas nossas conclusões; não há ninguém que seja capaz dessa extrema ousadia mentirosa de afirmar que a maioria dos jornalistas são motivados pela verdade. Todos sabemos que, infelizmente, têm uma agenda política – e essa passa por criar uma sociedade totalitária onde a esquerda impõe os seus interesses, tornando a democracia uma ditadura por outros meios.

2. Registámos mais um exemplo flagrante da enorme parcialidade dos média na semana transata: ficou igualmente provado (se dúvidas ainda subsistissem) que os grandes grupos empresariais de média são motivados pelo ódio ao presidente Donald Trump. Senão vejamos. Jack Johnson foi o primeiro kickboxer afro-americano a tornar-se campeão da modalidade no dealbar do século passado, assumindo-se como uma referência de afirmação da comunidade negra nos EUA num período histórico particularmente complexo (vigoravam ainda, e sem contestação consequente, as leis de Jim Crow, que impunham a segregação dos negros nos estados do sul). No entanto, em 1913, o sonho de Johnson rapidamente se converteu em pesadelo: o lutador acabaria por ser condenado a pena de prisão ao abrigo do Mann Act, uma lei federal que proibia o transporte interestadual de mulheres brancas para “fins imorais”. Para a História haveria de permanecer para sempre a perceção, pela comunidade afro-americana, de que a detenção e subsequente condenação se deveram apenas a motivos de ordem racial: o campeão Jack Johnson seria, pois, mais um exemplo de discriminação racial, símbolo da incapacidade da nação americana de superar os traumas divisionistas oriundos ainda da guerra civil.

3. Desde a ascensão do movimento de direitos civis – onde pontificará sempre o trabalho notável e de uma coragem sobre-humana de Martin Luther King –, o perdão post mortem de Jack Johnson tem sido reivindicado pela comunidade afro-americana, até como símbolo da união da sociedade dos EUA na condenação da discriminação racial. Como um sinal de redenção histórica: uma atuação presente sobre o passado, para construir o futuro. A tridimensionalidade da História nunca esteve tão presente; e nunca foi tão premente. Pois bem, esta análise, antes da eleição do presidente Barack Obama, afigurava-se largamente maioritária na sociedade norte-americana: a CNN realizou documentários e entrevistas sobre a estrela do kickbox caída em desgraça; os movimentos de defesa dos direitos dos cidadãos afro-americanos exigiam o perdão presidencial; a esquerda progressista americana organizava manifestações de rua a favor de tal perdão. Quando o presidente Obama tomou posse, a família de Jesse Johnson e os movimentos dos direitos dos afro-americanos rejubilaram: seria desta, sem dúvida, que a memória de Jack Johnson seria reabilitada. A injusta condenação no tribunal seria substituída por uma justa absolvição presidencial. Só o primeiro presidente afro-americano poderia repor a justiça para o primeiro grande campeão afro-americano.

4. Ora, nada disso sucedeu: pelo contrário, o presidente Obama (juntamente com o seu procurador-geral e putativo candidato presidencial em 2020, Eric Holder) não só se recusou a perdoar Jack Johnson como ainda reforçou oficialmente a ideia de que o campeão afro--americano cometeu vários crimes de abuso sexual e violência doméstica. A própria família de Jack Johnson lamentou a inação do presidente Obama, considerando-a uma afronta à memória da comunidade afro-americana, para além de um brutal desrespeito pelos seus direitos. O movimento Black Caucus não deixou mesmo de mostrar frustração pela decisão da administração Obama, o presidente que prometeu cicatrizar as feridas das tensões raciais do país. Não é, pois, de admirar que tenham eclodido manifestações como a de Ferguson, no Missouri, no término do segundo mandato de Obama: o grau (e a intensidade) das expetativas frustradas conduziu à exasperação de milhares de americanos para quem a incapacidade de Obama poderia significar a sua irrelevância política como facto irreversível. Uma espécie de condenação histórica à liça de sentença fatal do destino: após Obama, a história da comunidade afro-americana seria (será?) sempre pior. É esta inquietação quanto ao futuro que o presidente Donald Trump herdou. Daí o corolário para o qual temos chamado a atenção: o drama mais pungente da comunidade afro-americana não é o (infundado) receio das políticas do presidente Trump; antes, traduz-se no legado não satisfatório do presidente Barack Obama. Na ótica daquela comunidade, o presidente Obama não se revelou capaz de enfrentar o problema do “diabo constitucional” adveniente do final do séc. xix, não obstante a sua oportunidade histórica para o fazer. É neste contexto que o presidente Donald Trump decidiu, na passada semana, concretizar finalmente a aspiração de há décadas da comunidade afro-americana: o lutador Jack Johnson foi perdoado, dando a administração norte-americana um sinal inequívoco da sua disposição de sarar as feridas das divisões raciais e impedir que a História seja um perene fator de exclusão (“tornar certo algo errado, “we righted a wrong”, nas palavras do presidente americano).

5. Isto é: o “malvado”, “racista” presidente Donald Trump logrou alcançar o que nem o primeiro residente afro-americano havia conseguido: corrigir postumamente um dos casos que movimentos como o Black Caucus qualificavam dos mais chocantes em termos de discriminação racial. Na justificação para tal decisão, o presidente Trump não se coibiu de realçar a relevância de todos os americanos (independentemente da raça, religião ou etnia) para construir a grandiosidade da nação. A genialidade norte-americana depende, afinal, do génio de cada cidadão americano: não há nações grandiosas sem grandiosos cidadãos; não há grandiosos cidadãos (porque livres, dinâmicos e felizes) sem nações grandiosas. O presidente Trump – atendendo à sua experiência de empresário bem-sucedido, que já caiu mas sempre se levantou ainda mais forte – sabe-o melhor que ninguém. Sabe que às lideranças compete criar as bases para que as pessoas possam exponenciar o seu potencial. A grandiosidade dos EUA não se compadece com a pequenez própria do racismo e da discriminação (seja de que índole for).

6. Uma última (mas decisiva) nota: o presidente Donald Trump tomou uma decisão já reivindicada há muito por diversos setores da sociedade americana, incluindo os “génios” da CNN. Seria, pois, de supor que, pela primeira vez, reconhecessem o mérito de uma opção desta administração norte-americana. Porque, independentemente do presidente, trata-se de uma decisão cujo mérito é intrínseco, não varia de acordo com a pessoa ou o partido no poder. Qual quê! A CNN optou por ignorar esta decisão, praticamente não se referindo a ela: o caso da atriz pornográfica Stormy Daniels mereceu muito mais destaque. Porquê? Porque a coragem cívica revelada pelo presidente Trump não bate certo com a narrativa que a CNN quer construir para o derrubar. Escusado será acrescentar que, em Portugal, o perdão de Trump, justificado à luz do imperativo de justiça social e de reconciliação histórica, não mereceu sequer uma linha ou um segundo na TV… Se o cabelo de Trump se tivesse despenteado, teria sido notícia de abertura dos nossos telejornais. Assim se vê a tão proclamada… “imparcialidade”! Os jornalistas portugueses só passam notícias que ridicularizem Trump. Qual a diferença entre esta atitude e as fake news de algumas redes sociais? Nenhuma!

 

joaolemosesteves@gmail.com

Escreve à terça-feira

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×