21/9/18
 
 
António Galamba 24/05/2018
António Galamba

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O congresso do PS e os legados

É claro que, em função dos valores de cada um, nada impede que sejamos promotores da especulação imobiliária que se abateu sobre Lisboa. Nada na lei, tudo na consciência e no sentido ético da intervenção cívica individual

O tempo é quase sempre bom conselheiro e melhor decantador do sentido e consequência das opções que fazemos, embora, na voragem dos ritmos dos nossos quotidianos, seja um bem escasso. Não há tempo para pensar, incorporemo-nos nas turbas geradas, sejam as da “mó de cima”, das narrativas políticas ou da superficialidade descartável da realidade. E depois há os legados, patrimónios de valores, de simbolismos e de relevâncias na configuração do que somos como comunidade. Legados que são mais invocados do que praticados.

O legado da democracia e da liberdade de Mário Soares que teima em se sujeitar a modelações nervosas do curso normal do funcionamento de um partido político com a matriz de fundação do Partido Socialista. Tal como nas latitudes desportivas, não perceber que quem está num determinado momento no poder é uma mera circunstância é meio caminho andado para desrespeitar o legado, mesmo que o invoquem todos os dias. Não é honrar o legado de Soares temer pela liberdade de expressão, pela normal expressão da diferença, pelas alternativas democráticas ou pelo direito à transparência. Não é honrar esse legado acicatar turbas de reinterpretações de aiatolas, Torquemadas ou afins para fustigarem nas redes sociais quem pensa e verbaliza de forma diferente da dominância. É esse acefalismo incentivado que conduz aos sobressaltos de vergonha e de indignação quando, em momentos posteriores, são confrontados com as realidades ou as projeções delas. É fácil falar de Estado ou partido capturado quando a “mó de baixo” se sobrepõe às benesses recebidas por pseudorreferências morais e políticas.

O legado de ética e de sentido humanista da intervenção cívica de António Arnault não é compaginável com proclamações de importância enquanto se desvalorizam as zonas cinzentas do exercício da política, as confusões entre a política e os negócios ou a relativização da exigência que se impõe a um titular de um cargo público não apenas no exercício de funções, mas também na sua dimensão como cidadão. É claro que, em função dos valores de cada um, nada impede que sejamos promotores da especulação imobiliária que se abateu sobre Lisboa. Nada na lei, tudo na consciência e no sentido ético da intervenção cívica individual. Mas, mesmo com cobertura legal e com proteção da esfera individual, a especulação imobiliária ganha relevância política quando nos discursos se verbaliza uma afinal pífia oposição e preocupação com os impactos sociais da dita. Não honra os legados, não é eticamente admissível a especulação imobiliária do cidadão primeiro-ministro na aquisição e venda de um imóvel em Lisboa. Porque, a ser o contrário, com que moral se atira às rendas excessivas da energia ou aos desequilíbrios de algumas parcerias público-privadas em prejuízo do interesse geral?

Como não será honrar o legado de ética e de sentido humanista de António Arnault permitir as deambulações entre os negócios e a política do ministro adjunto do primeiro-ministro. É certo que PCP e Bloco trocaram a alegada exigência e fiscalização política pela partilha de poder emanada da solução governativa, o Bloco abalançou-se mesmo a ter um deputado com a morada da residência na sede do partido para receber mais um cobres, mas a ética não se exercita em função dos outros ou da observância estrita da legislação em vigor. Cada vez mais, pelo escrutínio, exigência cívica e circunstâncias da vida concreta dos cidadãos, a ética da República é muito mais que a lei. Não perceber isso é não mudar o chip do exercício de funções públicas para este tempo novo. Um tempo em que a meia verdade ou a mentira têm a perna ainda mais curta, em que os julgamentos populares ou nas redes sociais se sobrepõem ao tempo da justiça e em que os filtros em relação à informação são decisivos para a sobrevivência na selva das fontes reais, moldadas ou inventadas.

Mesmo quando as evidências do tempo presente confirmam a desconformidade dos exercícios das turbas da “mó de cima” de outros tempos, há sempre antigas e renovadas turbas da “mó de cima” presente que insistem em não querer ver os sinais, em abocanhar quem pensa diferente e em continuar a achar que os legados se honram com verbalizações estéreis e inconsequentes para os seres humanos.

Honrar os legados é não aceitar que persistam os fortíssimos constrangimentos ao funcionamento do Serviço Nacional de Saúde, tal como criticámos nas opções entre 2011 e 2015, ao ponto de, pelos sinais, a saúde poder converter-se no tema crítico do verão de 2018.

Honrar os legados é agir ou explicar porque não se pode agir mais em áreas como a ciência, a educação, a segurança, a coesão territorial ou a exclusão social, em vez de ter um ministro do Ensino Superior que assina um manifesto contra as políticas de que ele próprio é responsável máximo.

Honrar os legados é haver uma redobrada exigência do exercício de funções públicas, incompatíveis com esquemas de aproveitamento das fronteiras da legalidade, seja para a compra de bilhetes de avião, seja para o que quer que seja, porque, a não ser assim, bem se podem colocar na agenda política temas para distrair que os fossos cívicos vão aprofundar-se, o desrespeito pela classe política continuará e a porta aos populismos está mais que escancarada.

Não apreender o sentido dos legados é meio caminho andado para reincidir em erros do passado e enlear-se em guerras de alecrim e manjerona sobre as opções de alianças futuras, quando o que realmente conta é a sobrevivência política.

 

Notas Finais

Referência A perene dimensão ética de António Arnault não se esgota na criação do SNS e na curadoria que exercitou para que as linhas vermelhas do seu regular funcionamento não fossem ultrapassadas. Será sempre uma referência ética inspiradora, livre, profunda e efetiva. E tão depauperados estamos desses exemplos maiores.

Consequência O governo e o Estado português têm mais uma oportunidade para estabelecer e concretizar uma banda larga de políticas para o interior. O relatório final do Movimento Pelo Interior é mais uma oportunidade de ser efetivamente consequente. Assim não estejam reféns dos beneficiários do costume ou da solução governativa.

 

Escreve à quinta-feira

 

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