23/10/18
 
 
Kinsey. A ciência de pôr o Homem a nu

Kinsey. A ciência de pôr o Homem a nu

Afonso de Melo 17/05/2018 21:07

Há 70 anos, um livro abalou os alicerces do puritanismo americano. Chamava-se Sexual Behavior in the Human Male. Um relatório envolvendo mais de 18 mil entrevistados. Sob anonimato, divulgaram as suas tendências, os seus desejos, as suas perversões. As pessoas viam ao espelho a sua própria intimidade.

Eis um nome que ainda hoje mexe com o puritanismo que é imagem de marca de uma grande fatia da população dos Estados Unidos: Alfred Kinsey.

70 anos decorrem sobre a publicação de Sexual Behavior in the Human Male, um livro que ganhou estatuto de maldito. Para o escrever estrevistou - com o auxílio do seus colaboradores mais chegados, Clyde Martin e Wardel Pomeroy - mais de 18.000 pessoas. E traçou a verdade sobre os ímpetos sexuais de indivíduos que não teriam sido capazes de os revelar se não lhes tivessem garantido o anonimato.

Não se libertou daquilo a que costuma chamar-se divisão da doutrina. Para uns foi um cientista, pai da sexologia, para outros apenas um pervertido com uma curiosidade mórbida.

O pai de Alfred Charles Kinsey era um fanático religioso da Igreja Metodista, um controlador absoluto, um feroz defensor das ideias mais conservadoras. Criou no filho um sentimento de culpa perante o sexo que acabaria por afetá-lo na adolescência, tendo o próprio Alfred confessado mais tarde que reprimia todos os acessos de desejo e levando-o a casar-se virgem com Clara McMillan, no tempo em que ambos lecionavam na Universidade de Indiana, ele como zoólogo especializado na observação de vespas. 

O casamento foi de suprema liberdade. Ou, segundo os que o hostilizavam, de plena libertinagem. Tiveram quatro filhos mas concordaram desde o primeiro dia em poderem ter relações com outras pessoas. Alfred, que sempre se assumiu como bissexual, era igualmente um ateu convicto. «Não devemos deixar-nos encarcerar no pensamento binário», escreveu certa vez, recusando as designações de homo e heterossexual tout court. Assim sendo, partiu para a criação da Escala de Kinsey, medidora da sexualidade: de 0 a 6, sendo 0 o ponto da pura atividade homossexual e 6 a da pura atividade heterossexual. Mais tarde acrescentou-lhe a letra X, representando a total falta de contacto ou reação perante o sexo. 

James H. Jones, um dos seus biógrafos (Alfred C. Kinsey: A Public/Private Life), considerou que os padrões invulgares para a época usados pelo cientista, bem à margem do estilo geral dos seus colegas, foram igualmente uma forma de ele se analisar a si próprio. Por seu lado, a sua mais figadal crítica, a terapeuta sexual Judith Reisman, sublinhou com dureza: «Kinsey estava mais interessado em legitimar a ideologia gay do que propriamente esboçar um amplo painel sobre a sexualidade nos Estados Unidos».

Relatórios

Sexual Behavior in he Human Male concentrou os primeiros resultados das suas pesquisas. Num instante, os 200 mil exemplares postos à venda da primeira edição voaram das livrarias. Alfred tornava-se uma figura conhecida por toda a gente. E polémica como poucas. A Time dedicou-lhe um número: «Nunca desde E Tudo o Vento Levou se tinha assistido a tanto entusiasmo por um livro».

Ao revelar que, para o seu estudo, tivera não apenas de entrevistar pessoas sobre as suas preferências e dinâmicas sexuais, mas também filmar e gravar atos sexuais e inclusivamente participar neles, atraiu sobre si próprio uma catadupa de críticas ferozes se não mesmo assassinas. Aconselhava os seus assistentes a terem uma atividade sexual constante, considerando isso fundamental não apenas para experiência pessoal mas também para melhorarem através delas as suas entrevistas e os seus reportórios e confessou que usava o seu corpo para pesquisa, dedicando-se ao masoquismo, introduzindo objetos no ânus e na uretra e chegando ao ponto de se circuncidar sem anestesia.

Ao abordar a sexualidade infantil, trazendo a público material recolhido em conversas com pedófilos, abalou definitivamente com a aura de silêncio que costumava enredar o assunto. Surgia, no seu livro, um entrevistado que confessava ter mantido relações sexuais com mais de 600 crianças e pré-adolescentes. Judith Reisman não lhe perdoou: «Kinsey é o maior propagandista da pedofilia que existiu na história da ciência».

Alfred esteve-se nas tintas e continuou os seus estudos e recolha de dados, alargada a outros países do mundo, de tal ordem que chegou a ser preso numa alfândega e acusado de introduzir material pornográfico nos Estados Unidos. Criou o seu próprio Instituto e, cinco anos mais tarde, publicou Sexual Behavior in the Human Female.

Houve quem considerasse este segundo relatório como uma espécie de momento inicial para a liberdade sexual das mulheres. Beverly Whipple, uma sexóloga muito considerada internacionalmente, escreveu a propósito: «Foi verdadeiramente pioneiro e ajudou-nos a todos a percebermos melhor o ser humano através das suas pesquisas sexuais».

70 anos após o choque provocado por Sexual Behavior in the Human Male, Alfred Kinsey ganhou um estatuto mais concretamente científico. No dia da sua morte, a 25 de Agosto de 1956, um editorial do New York Times reconheceu: «The fact remains that he was first, last, and always a scientist».  

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×