23/9/18
 
 
Mário Cordeiro 15/05/2018
Mário Cordeiro

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Conflitos de interesses

Os atendimentos diurnos (amas, creches, infantários) são um local onde os ritmos biológicos têm de se moldar à média e aos constrangimentos organizativos. Por outro lado, o risco de infeções, por exemplo, é cerca de dez vezes superior

Basta ler Brazelton, Bowlby e tantos outros para entender a necessidade da mãe e do pai no equilíbrio das emoções e dos afetos, bem como na promoção de um desenvolvimento harmonioso. É pena que pareça quase uma vergonha, na sociedade portuguesa, uma mulher ou um homem afirmar uma coisa destas... salvo se for para se fazer valer em caso de litígio, discussão ou separação.

Não terá chegado a altura de passar à ação? De reunir mães e pais, advogadas e advogados, médicas e médicos, psicólogas e psicólogos, juízas e juízes, educadoras e educadores, quaisquer outros profissionais que sejam leitores, e criar movimentos dinâmicos que devolvam à mulher e ao homem o seu estatuto de pais, sem se retirar o adquirido e justo estatuto de cidadãos?

É pena que os movimentos feministas, que têm como objetivo dignificar e promover o papel da mulher na sociedade (e o dos homens, por supuesto), raramente abordem esta questão, como se cuidar dos filhos não fosse uma missão nobre, digna e de encorajar. Para muita gente, “ficar em casa” é sinónimo de escravatura.

Trata-se, reconheço, de um assunto polémico, este do conflito de interesses que existe, frequentemente, entre “o melhor interesse da criança” e “o melhor interesse da mulher/homem”, decorrente do facto de mães e pais trabalharem fora de casa nos primeiros anos de vida da criança.

Há muitas razões para que os pais optem por ter um trabalho fora de casa, como as necessidades económicas, progressão na “carreira”, realização profissional, vontade de sair e diversificar o dia-a-dia, de ser independente em termos monetários, além de a própria sociedade poder contar com todos os seus elementos “produtivos”. Contudo, todas estas “boas razões” respondem apenas ao melhor interesse da mulher ou do homem. Quanto à sociedade, porventura o melhor interesse para esta, como já compreenderam os países mais avançados do mundo, seria investir no longo prazo, isto é, na “produção” de pessoas equilibradas e resilientes, mais do que na “produção” imediata de qualquer bem ou serviço.

Na sociedade portuguesa, o trabalho é um imperativo económico para a maioria dos pais, e se trouxer maior folga económica, com o consequente bem-estar dos elementos familiares, a criança será a primeira a beneficiar disso. Todavia, do ponto de vista do bebé, esta opção colide com um dos seus “melhores interesses”: o acompanhamento por aqueles que podem, melhor que ninguém, dar-lhe segurança, tranquilidade, estímulo e proteção.

É indiscutível que os três primeiros anos de vida são essenciais para o desenvolvimento da personalidade, do equilíbrio dos afetos, numa palavra, da pessoa. Se, como bem relembra Brazelton, os pais podem compensar em “qualidade” o que falta em “quantidade”, também não é correto virar o bico ao prego e achar que tanto faz, e ilibar os responsáveis políticos, sindicais e sociais.

Acresce que os atendimentos diurnos (amas, creches, infantários) são um local onde os ritmos biológicos têm de se moldar à média e aos constrangimentos organizativos. Por outro lado, o risco de infeções, por exemplo, é cerca de dez vezes superior. Sem pôr em causa a dedicação e a competência profissional de dezenas de milhares de educadoras, auxiliares, cozinheiras, diretoras e demais, que fazem das creches e infantários “o melhor lugar possível”, não posso deixar de pensar, como pediatra, que a estadia de tantas crianças das nove da manhã às sete da tarde num local sem os pais, ficando a interação limitada a um par de horas sobrecarregadas com rotinas diárias que consomem tempo e energia, tem efeitos nocivos para os bebés... e para os pais também.

A Noruega, por exemplo, é o país mais desenvolvido do mundo, onde a produtividade é maior e os indicadores de bem--estar e de respeito pelos direitos humanos lideram todos os rankings internacionais. É também o país onde as mulheres detêm mais poder em todos os lugares de chefia e de decisão – um regime indiscutivelmente “paritário”. Curiosamente, é onde mães e pais podem ficar mais tempo com as crianças, em regime pago, e onde as facilidades para os atendimentos são maiores – pelo que poderíamos dizer que é, igualmente, um país “parideiro”.

Em Portugal, os partidos políticos, o patronato e os sindicatos, os movimentos de mulheres partidários ou da sociedade civil, a Igreja e tantas outras instituições têm-se comportado, neste assunto, de uma forma maioritariamente envergonhada e até mesmo reacionária. A emancipação e dignificação da mulher e o processo de equidade (e não de mera “igualdade”) entre os sexos fazem-se de mãos dadas com a promoção das funções da parentalidade. Não entender isto é estar ainda, socialmente, na “idade das cavernas” e colocar os pais, designadamente as mulheres, numa enorme fragilidade, obrigando-os a optar entre duas situações que deveriam ser pacíficas entre si, deixando, de forma ignóbil, que o ónus da decisão caia sobre eles. É um modo cobarde, atrasado e historicamente errado de ver a importância das crianças na sociedade.

Por outro lado, só é mãe ou pai quem quer – pelo menos, na larga maioria dos casos –, e isso obriga a opções, escolhas e decisões. Numa sociedade em que a fuga às responsabilidades é grande, é preciso afirmar que colocar um fenómeno transcendente, como é uma criança, ao mesmo nível que as compras no supermercado, a revisão do carro ou o lavar a loiça... ou mesmo do emprego é demasiadamente redutor e conservador.

Se a esmagadora maioria dos pais tem de trabalhar para conservar uma qualidade de vida aceitável, muitos casais não refletem sobre a sua vida e abdicam dos graus de liberdade que, apesar de tudo, têm para mudar pequenas coisas que se traduzirão em grandes melhorias, desperdiçando o tempo em frivolidades ou mundanices em detrimento das relações interpessoais com os filhos.

Talvez eu ande distraído, mas nunca ouvi convocar uma manifestação ou uma greve geral de mães e pais para exigir melhores condições para a sua função parental.

 

P.S. Que falta faz neste país, um Provedor da Criança que, acima das querelas partidárias ou laborais, possa velar e lutar, exclusivamente, pelo melhor interesse da criança..

 

Pediatra

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