22/9/18
 
 
João Lemos Esteves 15/05/2018
João Lemos Esteves

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PS - Partido (dos) "Sorrys"

João Galamba veio pedir desculpa: é um ingrato porque, sem José Sócrates, João Galamba não passaria de uma nulidade política absoluta. O mesmo sucede em relação a Carlos César, que ganhou notoriedade nacional acrescida por via de José Sócrates

1. Foi a notícia da semana transata: afinal, o PS sempre tem remorsos. Afinal, o PS sempre dispõe de capacidade crítica para avaliar a tragédia que foram os seus governos anteriores. Até então, o PS apresentava sempre uma narrativa única, uma verdadeira cartilha que os seus membros reiteravam à exaustão: José Sócrates só havia caído, em 2010, graças ao chumbo do PEC iv pelo PSD; a crise e a pré-bancarrota não foram mais do que uma tramoia meticulosamente engendrada por Passos Coelho e os grandes interesses económico-financeiros personificados pela troika. E a prisão de José Sócrates? Bem, essa não passava de um golpe de magistrados ao serviço de interesses políticos - uma manobra política altamente violadora de todos os princípios constitucionais, desde o princípio do Estado de direito democrático até ao da separação de poderes. A prisão preventiva de Sócrates só podia, pois, ser um golpe da direita que nunca perdoou ao socialista a obtenção de uma maioria absoluta em 2005! 

2. Esta foi a narrativa que os socialistas nos venderam meses, meses e meses a fio. Sem parar. Sem um único desvio. Todos alinhados, desde Vieira da Silva até João Galamba, passando pela socrática indefetível e centro de referência dos “valores progressistas” Clara Ferreira Alves. Aliás, é deveras curioso notar que foi mesmo Clara Ferreira Alves quem iniciou o movimento “MeSorryToo”: em direto, no seu “Eixo do Mal”, a jornalista pediu desculpa, porque José Sócrates foi (tão maroto!) um verdadeiro mestre do disfarce: não é que a tinha enganado tão bem? Ora, Clara Ferreira Alves tinha fama de ser uma jornalista de investigação implacável, atenta a todos os pormenores, que não deixava escapar nenhum detalhe - afinal, parece que esta lendária jornalista do “Expresso” foi progressivamente ficando com um olhar muito cor-de-rosa que não lhe permitia (permite?) ver com rigor e isenção a realidade. 

3. O apelo socrático era demasiado grande: alguém que viera de baixo, conquistara o poder com uma ferocidade temível, montara um verdadeiro polvo na máquina do Estado, com tentáculos vários (e ilimitados) na comunicação social, distribuindo benesses pelos seus correligionários políticos. Quem não estivesse com Sócrates estaria contra Sócrates - logo, a atitude inteligente (na visão de Clara Ferreira Alves e outros, demasiados, infelizmente para Portugal!) seria entrar nos jogos e joguinhos do ex-primeiro-ministro socialista. E assim foi. 

Outra jornalista muito querida dos socialistas, rosto das causas ditas progressistas, chegou a um grau de proximidade com José Sócrates ainda maior: Fernanda Câncio, essa estrela desse jornal tão independente como o independente “Avante!” chamado “DN” (por falar no “DN”, o Paulo Baldaia já escreveu um editorial a pedir desculpa pelo apoio a José Sócrates?), veio agora pedir desculpa porque José Sócrates também a enganou insidiosamente. Fernanda Câncio vivia com José Sócrates; dormia com José Sócrates; tomava as suas refeições diárias com José Sócrates; comprava casas na Baixa e na Lapa com José Sócrates; pedia a José Sócrates para lhe comprar iPads e outros equipamentos da Apple; ia de férias com José Sócrates, pagas integralmente por José Sócrates. O que veio agora Fernanda Câncio suplicar ao povo português? Que a desculpemos porque a pobre coitada foi igualmente enganada pela mestria de Sócrates em tornar realidade meras ilusões. 

4. Porque, no fundo, José Sócrates conseguiu aquilo que só está ao alcance dos deuses - o milagre da multiplicação de “notas de papel” sem causa aparente (muito menos efetiva). Resta saber se Fernanda Câncio já devolveu a José Sócrates o seu Apple e se já o reembolsou das férias que ele lhe pagou em Formentera. Ora, dois exemplos de jornalistas de investigação, que muitos afirmam que ainda hoje mandam no “Expresso” (Clara Ferreira Alves ainda tem um peso significativo na definição das opções editoriais do jornal de Balsemão, informalmente) e no “DN”, que não são muito lestas a seguir pistas ou indícios… Aparentemente, nem mesmo quando dormem na mesma cama do investigado! O exemplo de Clara Ferreira Alves e de Fernanda Câncio foi replicado, com maior ou menor distância temporal, pelas figuras máximas do PS de António Costa. Até João Galamba - esse mesmo, o Galamba, a estrela do Canal Q, que o canal de humor já promoveu a primeiro-ministro - já veio bater no Sócrates. 

5. Ora, quem é João Galamba? É nem mais nem menos que o político que José Sócrates criou para o defender violenta e incondicionalmente - tarefa que Galamba cumpriu com zelo e orgulho. Galamba até os tiques de José Sócrates acolheu com um fanatismo raro - e insuportável. João Galamba ameaçou Duarte Marques com um murro na cara para defender o legado socrático; João Galamba participou em tudo o que era debate e sessão pública de engrandecimento do legado de José Sócrates; João Galamba era o espião de José Sócrates na campanha de António Costa nas diretas do PS. O que fez agora Galamba? Pediu desculpa porque o caso José Sócrates “envergonha o PS”. João Galamba - que defendeu fanaticamente José Sócrates no caso da perseguição do governo deste ao “Sol”; que defendeu a narrativa socrática do PEC iv e da falácia da pré-bancarrota com violência verbal, até ao mês passado; que conviveu de perto com José Sócrates até há bem pouco tempo - também nunca anteviu que qualquer coisa de muito estranha se passava com a vida e as decisões do seu (outrora!) querido líder. 

6. Agora, João Galamba veio pedir desculpa: é um ingrato porque, sem José Sócrates, João Galamba não passaria de uma nulidade política absoluta. O mesmo sucede em relação a Carlos César, que ganhou notoriedade nacional acrescida por via de José Sócrates. E mesmo relativamente a António Costa, que só foi para a Câmara Municipal de Lisboa por iniciativa de José Sócrates. Isto para além de José Sócrates lhe ter arranjado lugar semanal na televisão para o defender - não deixa, aliás, de ser estranho que os jornalistas não tenham ido revisitar as intervenções televisivas de Costa na “Quadratura do Círculo” a defender ferozmente o ex-primeiro-ministro. É mais uma perplexidade que mancha a reputação dos média portugueses: em vez de investigarem e de confrontarem a elite do PS com o seu passado de ligação e defesa de José Sócrates, os jornalistas portugueses (salvo honrosas exceções!) limitaram-se a acolher a narrativa que mais interessa a António Costa. Inacreditável! Onde andam a liberdade e a independência jornalísticas? 

7. Em suma: PS significa hoje “Partido Sorry” - limitam-se a pedir desculpa em uníssono, depois de terem aproveitado os recursos do Estado. Esta tem sido uma constante na história daquele partido: em 2005 pediu desculpa pelo pântano de 2001 de António Guterres; hoje pediu desculpa pelo legado de José Sócrates, depois de tanto o defender; daqui a quatro anos, pedirá desculpa pelos efeitos nefastos da geringonça. Como se pode confiar num partido que tem passado os últimos anos a pedir desculpa? Bem, se já se enganaram tantas vezes, é muito provável que continuem enganados. E a enganar-nos. À atenção dos portugueses. 

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