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OPA à EDP. Preço baixo pode ser um dos entraves ao sucesso da operação

OPA à EDP. Preço baixo pode ser um dos entraves ao sucesso da operação

Sónia Peres Pinto 14/05/2018 09:11

Pequenos investidores dizem que valor não reflete as expectativas do que entendem ser o justo valor para vender

Ainda há poucos dados sobre a Oferta Pública de Aquisição (OPA)  do consórcio chinês sobre a EDP - que inclui a China Three Gorges (que já detém 23,27% da elétrica) e o segundo maior acionista, a chinesa CNIC - já que só foi feito o anúncio preliminar da oferta, na passada sexta-feira, mas é expectável que a operação venha a enfrentar vários entraves.

Um deles diz respeito ao preço. Os investidores chineses  que pretendem ficar com a totalidade da elétrica oferecem 3,26 euros por cada ação da EDP, avaliando-a assim em cerca de 11920 milhões de euros. Um valor que fica apenas 4,8% acima do fecho de sexta-feira. Para a EDP Renováveis, a contrapartida ainda é menos atraente - 7,33 euros, contra os 7,84 euros a que fechou a ação. Feitas as contas, representa um desconto de 6,5%.

 E é aí que entram os vários riscos. Isto porque a administração liderada por António Mexia pode entender que a operação não representa o real valor da empresa, aconselhar os acionistas a não vender. 

Ao mesmo tempo, pode abrir a porta para que outros possíveis interessados na EDP lancem uma oferta concorrente. Aliás, nos últimos meses, têm surgido notícias dando conta do interesse de várias elétricas europeias, como a italiana Enel, a francesa Engie ou a espanhola Gas Natural Fenosa. 

A par do preço há também autorizações que tem de ser dadas, nomeadamente da Comissão Europeia e das entidades reguladoras. Pelo menos, do lado do governo português não está prevista forte contestação. Ainda na sexta-feira, o primeiro-ministro elogiou o comportamento dos investidores chineses em Portugal e disse que o executivo não tem reservas sobre o negócio. 

“Não temos nada, nenhuma reserva a opor. As coisas têm corrido aliás bem, os investidores chineses têm sido bons investidores em Portugal, quer na REN, quer na EDP, quer em outros setores. Somos um país aberto, não temos uma visão fechada”, afirmou Costa. 

Para o governante, mais importante do que conhecer quem são os acionistas, interessa saber qual é o projeto para a empresa.

Na expectativa

O presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais (ATM) já veio admitir que a OPA “é natural”, mas lembra que falta informação sobre as contrapartidas oferecidas, nomeadamente o que acontecerá aos acionistas que decidirem continuar na elétrica.

Já em relação ao valor oferecido, Octávio Viana disse que a ATM não tem uma posição formal, mas que “o ‘feedback’ que tem tido de investidores, mesmo de institucionais, é de que o preço não reflete as expectativas do que entendiam ser o justo valor para sair” da empresa.

Ainda assim, afirmou, o preço não é a única contrapartida a considerar e há “outras variáveis” importantes a saber nesta OPA, nomeadamente “saber o plano” da CTG para a EDP, de como “a empresa dominante pretende criar valor para os acionistas numa perspetiva futura”.

Vozes contra

Para o secretário-geral do PCP uma empresa como a EDP “não pode estar sujeita à disputa por parte de grupos económicos ou de Estados estrangeiros” e defende renacionalizarão da elétrica. 

“Aquilo que o país precisa é que as suas empresas estratégicas, em vez de estarem nas mãos de grupos económicos americanos, alemães, franceses, espanhóis ou chineses, estejam nas mãos do Estado português, para servir o povo, para servir o desenvolvimento do país”, afirmou Jerónimo de Sousa. 

Também ex-presidente do governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, mostrou-se contra a privatização do setor energético, afirmando que “nunca devia ter saído das mãos do Estado”.

Já questionado sobre se o facto de a EDP ir parar a mãos de acionistas chineses representar um risco para Portugal, Alberto João Jardim respondeu apenas: “Tanto me faz”.

“Quando o Estado funciona, podem vir chineses, afegãos, ucranianos... O Estado funciona, não há problema. Agora, o que está errado é o setor energético na mão de particulares”, disse.

Já o CDS pediu às entidades reguladoras e supervisoras para que “estejam atentas” à operação. “Há entidades que são reguladores e supervisoras e o que pedimos e esperamos é que estejam atentas e escrutinem todo o processo para que todo o processo decorra nos estritos termos da lei”, afirmou o vice-presidente do partido Nuno Melo.

Ainda assim, lembrou que “a questão não é de política, é de mercado. Se uma empresa está no mercado, as regras são as do mercado, não são as da política”. 

Aposta no setor

Os acionistas da EDP oficializaram a entrada da China Three Gorges no Conselho Geral e de Supervisão, em assembleia-geral extraordinária, após a privatização da elétrica portuguesa, em 2012, na qual a empresa chinesa pagou cerca de 2,7 mil milhões de euros por 21,35%, tornando-se a maior acionista.

A entrada deste investidor foi o início de um fluxo de investimento chinês em Portugal neste setor à custa de privatizações. A EDP foi a primeira privatização a arrancar, durante o governo de Passos Coelho, em dezembro de 2011. Seguiu-se a REN, em 2012  com os chineses da State Grid a ficarem com 25% do capital, pagando 387 milhões de euros pela posição na empresa gestora das redes energéticas nacionais.

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