25/9/18
 
 
Filipe Baptista 10/05/2018
Filipe Baptista

opiniao@newsplex.pt

Acudam que há fogo!

Num país que se assume como um hub tecnológico sobretudo para novas ideias, startups e simplificação de procedimentos, por que razão ainda não se apostou verdadeiramente em soluções tecnológicas de prevenção aos incêndios? Por que razão não se procuraram melhores práticas no estrangeiro? Ou pura e simplesmente não se cria um grupo de trabalho para desenvolver uma solução tecnológica barata e eficaz?

Vem aí o calor, o tão esperado bom tempo e, claro, os problemas habituais com os incêndios. Contudo, esta pré-época dos incêndios não é como habitualmente são todas as outras. Este ano vamos vivê-la debaixo da nuvem negra das fatalidades do ano passado. Demasiada área ardida, demasiadas falhas, demasiada descoordenação e, claro, perdas de vidas humanas de forma estúpida e totalmente incompreensível.

Não obstante os esforços do governo, a verdade é que a ideia que transparece é que estamos mais desorientados do que quando enfrentámos as tragédias do ano passado. 

Meios aéreos que não funcionam, comandantes que se demitem e até um Presidente da República que coloca o seu destino de recandidatura em função do nível de tragédia que resulte da época de incêndios – só me ocorre uma ideia: está toda a gente ensandecida!

Ainda estamos no princípio e a ideia que transparece é que está toda a gente a sacudir a água do capote, como quem diz: eu fiz a minha parte! Eu pressionei, eu tentei coordenar, eu tentei apelar ao bom senso, –ou a mais caricata atitude: ou isto corre bem ou não contem comigo para um segundo mandato de afetos.

Acudam que há fogo, mas, como diria Camões, é fogo que arde sem se ver!

Durante todo este tempo que passou, desde os incêndios de outubro do ano passado e o presente, o foco da atenção dos principais intervenientes e responsáveis pela prevenção, combate e operacionalização de meios de combate aos incêndios focou-se (quanto se sabe) na avaliação e debate sobre o que correu mal. Mas sempre em torno dos meios convencionais. 

Num país que se assume como um hub tecnológico sobretudo para novas ideias, startups e simplificação de procedimentos, por que razão ainda não se apostou verdadeiramente em soluções tecnológicas de prevenção aos incêndios? Por que razão não se procuraram melhores práticas no estrangeiro? Ou pura e simplesmente não se cria um grupo de trabalho para desenvolver uma solução tecnológica barata e eficaz?

Não é preciso ser especialista na matéria para se perceber que a melhor forma de combater este problema é através da prevenção. E a prevenção, nos dias de hoje, não pode funcionar nem funciona nos moldes tradicionais do passado.
Não é apenas com guardas florestais, não é apenas colocando as Forças Armadas a patrulhar as florestas, nem apenas a apertar o cerco à limpeza das matas que se previne o flagelo dos incêndios.

Hoje temos à nossa disposição tecnologia barata e eficaz que nos permite ter informação em tempo real e, deste modo, ativar meios de intervenção de forma rápida e, sobretudo, cirurgicamente direcionada. Esta forma de abordar o problema é ainda mais possível e realista quando estamos num país onde a cobertura de rede de banda larga é bastante satisfatória.

Dou um exemplo concreto, que embora trate outro problema pode perfeitamente ser replicado para os incêndios.
Num trabalho conjunto entre a ANACOM, o INCM (regulador das Comunicações de Moçambique) e a Associação Fraunhofer, está a ser desenvolvido um projeto de disponibilização de banda larga numa província do norte de Moçambique. 

Contudo, o projeto é mais do que a simples disponibilização de um serviço de acesso à internet. A localidade onde será o centro de operações (Mocuba) é também uma zona de confluência de rios que, durante o período de chuvas, invariavelmente transbordam, provocando verdadeiras tragédias com perdas humanas e materiais incalculáveis.

O atual sistema de prevenção é bastante convencional, pelo que invalida reações atempadas e, sobretudo, não permite efetuar previsões.

A solução, que ficará a cargo da Fraunhofer, assenta num sistema simples de sensores, colocados ao longo dos rios, que irão medir e reportar para um servidor a forma como o caudal do rio vai evoluindo. Isto permitirá não apenas antever cheias como, sobretudo, permitirá armazenar dados das leituras que vão sendo feitas, para posteriormente poderem ser feitas previsões e análises modelares do meio ambiente da região.

Complicado? Não me parece! Caro? Nem por sombras! Não ultrapassa as dezenas de milhares de euros. Talvez não fosse uma má ideia olharmos para as soluções tecnológicas como uma alternativa à prevenção deste problema dos fogos em Portugal.

Escreve à quinta-feira

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×