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Homero. Ulisses: um regresso, doze naus, mil manhas

Homero. Ulisses: um regresso, doze naus, mil manhas

Teresa Carvalho 09/05/2018 17:29

É simultaneamente o mais célebre e o mais anónimo dos poetas. A Homero se atribui, além da Ilíada, a Odisseia, a cuja tradução Frederico Lourenço voltou, passando os seus 24 cantos, agora acrescentados de notas e comentários, a pente mais fino

As histórias contadas pelos poemas homéricos, e pela Odisseia em particular, não vivem apenas nos ramos da especialidade, como frutos cultos reservados a uns poucos. Essas histórias entraram na linguagem do nosso quotidiano mais ou menos modesto. É “o cavalo de Tróia”, o “presente de grego” (quem nunca recebeu?), “o calcanhar de Aquiles”, mas também “a bela Helena” (a dar nome, inclusive, a salões de cabelos e estética) e até a “dor de Menelau”, o equivalente aprimorado da vulgar dor de corno. Por coisa sem nenhuma importância, “arde Tróia”, essa cidade tornada eterna por um acto de destruição – a mitologia tem destas coisas. E por vezes, por outro tanto, estala uma desavença que tem nomes e causa: é “o pomo da discórdia”. E num tempo em que a polémica se tornou um género em extinção, não falta por aí quem procure “agradar a gregos e troianos”. Nem escasseiam os desenganados do “canto das sereias”, que, ao contrário do que habitualmente se julga, são mulheres-pássaro assustadoras.

Mas há mais: uma situação complicada põe-nos “entre Cila e Caríbdis”, sendo que, numa era desalmada como a nossa, em que não é fácil levar a barca onde queremos, pode bem acontecer “fugir de Cila para cair em Caríbdis”. Dois rochedos moventes, duas ameaças de saída difícil ou mesmo impraticável. O primeiro tragou seis dos companheiros de Ulisses; o segundo devorava as ondas três vezes ao dia e outras três as cuspia em turbilhão. Ulisses – ou Odisseu, como é nomeado nesta nova tradução de Frederico Lourenço, em fidelidade ao original grego – escapou.

Um aviso à navegação: escapar é o destino do herói da Odisseia, o homem que regressou a casa após vinte arrastados anos de ausência. Dez foram passados na guerra de Tróia, donde parte com doze naus; outros dez a procurar o caminho de volta a Ítaca, a ilha que se converteu no lugar da pátria decisiva e da mítica procura, sentido e orientação, toda essa amálgama que admiravelmente Konstandinos Cavafis condensou no poema “Ítaca”. “Mítica, Ítaca é – como escreve José Pedro Serra – o lugar do acolhimento de tantas Ítacas quantas as múltiplas nostalgias vão desenhando. Ítaca é o multiforme país erguido e esculpido em cada saudade particular”.

Ao poema homérico pode faltar, por vezes, aquela lógica discursiva que impediria, por exemplo, que um tipo morra e reapareça um pouco mais adiante, mas nunca o encanto ou a eficácia. Nem a dinâmica: são as alavancas da maquinaria mitológica, cóleras divinas, é um atar e desatar de ventos, golpeios no mar encrespado, naus estacadas, estilhaçadas, convertidas em pedra, feiticeiras que transformam homens em porcos, ciclopes, lances de embasbacar velhinhas. Tentar traçar no mapa as aventuras de Ulisses é como tentar comprar uma passagem para a camoniana Ilha dos Amores. Esforço vão, tempo perdido; burla, com menos sorte. Mas tentativas não faltaram, originando a ironia de Eratóstenes (séc. III a. C.) que sabia de geografia e de poesia o bastante para afirmar que essa zona se determinaria quando fosse encontrado o curtidor que coseu o odre dos ventos de Éolo.

Capacidade de muito suportar, impecável forma física, vigor, coragem, espírito aberto às curiosidades do mundo, astúcia, uma bolsa praticamente inesgotável de recursos de salvação. É com este lote de atributos que Ulisses, um dos heróis da guerra de Tróia, se impôs à admiração de antigos e modernos. Junte-se a prudência, a paciência, a arte de prender pela palavra, a faceta de marido e pai exemplares. É o herói forte. Não são muitos os que desceram ao mundo dos mortos e de la tornaram: Orfeu, Hércules, Eneias e … Ulisses, que foi lá consultar o adivinho Tirésias. O prognóstico não é famoso, mas não faz pasmar: um regresso difícil. Mais assombrosas são as descrições do mundo subterrâneo, que superam, em horripilante espectáculo, a chacina dos pretendentes do Canto XXII.

Com Penélope, ícone de fidelidade que tem arrancado à crítica livros inteiros, celebrou o mais famoso contrato de amor da mitologia. Sensata, ponderada, também tem as suas manhas. Entre os seus trabalhos ao tear, há um que alcançou fama por todo o mundo ocidental: a teia de Penélope, feita de dia, desfeita de noite, de modo a iludir os pretendentes, que entretanto ocupam o palácio de Ítaca, e assim contrariar novas bodas. Porque se é verdade que Ulisses não pensava senão em regressar, e é com essa motivação que vai galgando os obstáculos que lhe saltam ao caminho, Penélope também nunca deixou de acreditar nesse regresso. É certo que houve facadinhas neste matrimónio cedo suspendido pela guerra: há a cama da feiticeira Circe, há a de Calipso, conhecedora exímia da gramática dos prazeres, há Nausícaa e aquele coup-de-foudre que inspiraram a Fernando Assis Pacheco um irónico poema que terá ficado na retina de quem o leu (“Nausicaah!”, 1984). Mas para Ulisses, um partido muito cobiçado porém difícil de agarrar, tudo acaba por ser entrave, estorvo, inconveniência, embaraço, bloqueio, desvio, demora. Indiferente ao pedal da velocidade em que o pé do lendário herói carregaria a fundo, está um narrador que não tem pressa de chegar. Aparentemente indiferente à apoquentação de Penélope e do filho, Telémaco – sem dados que garantam que Ulisses morreu, sem notícia que assegure que ainda vive –, faz render a matéria narrativa. E o caso “piora” a meio do Canto XIII, quando Ulisses acorda em Ítaca e o leitor aguarda o reencontro decisivo.

É na ilha de Ogígia, esse lugar edénico onde aterramos, no canto V, a toque de um salto de fé, que pela primeira vez Ulisses nos recebe. Afastado dos aposentos de Calipso, junto à praia, anseia pelo regresso a casa. É um passo de apertar corações: “sentado na praia, os olhos nunca enxutos/ de lágrimas; gastava-se-lhe a doçura de estar vivo,/ chorando pelo regresso. E já nem a ninfa lhe agradava./ Por obrigação ele dormia de noite ao lado dela/ nas côncavas grutas: era ela, e não ele, que assim o queria”. Ulisses podia ficar ali a vida toda, num “dolce far niente”, seguro e alimentado a ambrósia e néctar pela ninfa das belas tranças. Mas rumina as saudades, bebe as lágrimas da ausência, quer partir. À oferta da imortalidade, contra a certeza da finitude, responde com segura nega, declinando o estatuto do marido eterno, desembaraçando-se daquele amor assolapado: “Deusa sublime, não te encolerizes contra mim. Eu próprio/sei bem que, comparada contigo, a sensata Penélope/ é inferior em beleza e estatura quando se olha para ela./ Ela é uma mulher mortal; tu és divina e nunca envelheces./ Mas mesmo assim quero e desejo todos os dias/ voltar a casa e ver finalmente o dia do meu regresso”. Irá nisto a convicção de que só o verdadeiro amor permite essa centelha de eternidade a que os humanos aspiram.

A desdita de Ulisses parece uma tremenda conta de somar. As parcelas, sete anos de cativeiro à disposição de Calipso incluídos, há-de contá-las, tim-tim por tim-tim, no país dos Feaces para que a famosa jangada o atira. Nesse paraíso terrestre reina Alcínoo, que lhe promete um barco para Ítaca. Dura a viagem uma única noite. Tempo de acabar-se a idade heróica, que encontra no explosivo e sanguinário Aquiles o ilustre representante, e começar o tempo humano da história da civilização de que nos reclamamos, como se a civilização grega se levantasse, qual “Aurora de róseos dedos”.

 

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