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Relações de A a Z. Verdades e mitos

Relações de A a Z. Verdades e mitos

Sofia Martins Santos 07/05/2018 21:03

Há quem diga que a tecnologia veio revolucionar a forma como nos relacionamos. O i fez uma lista de perguntas para perceber o que dizem os psicólogos sobre o assunto. Será que estamos mesmo assim tão diferentes?

A Internet ajuda ou prejudica?

A tecnologia veio facilitar o acesso que temos uns aos outros. Mas a lógica de termos as pessoas à distância de um click tem facilitado ou complicado as relações? De acordo com Jorge Gravanita, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, “aparentemente, tudo é mais fácil. Criou-se uma ilusão de grande facilidade, mas não passa de ilusão. Com a Internet parece que temos dados que nos permitem saltar uma data de passos, mas as pessoas continuam a ter dificuldades de entendimento, até mesmo com as pessoas mais próximas. Além disso, não podemos olhar para isto com a lógica dos supermercados”.

Também Maria do Carmo Cordeiro, psicóloga clínica, diz que com as “apps de encontros/engate ganhou-se, porventura, mais possibilidade de encontros e perdeu-se a tolerância à frustração e a necessidade de se elaborarem convenientemente separações e lutos. É muito fácil ter encontros, mas tal não significa que sejam relações duradouras. Pode acontecer, mas frequentemente funcionam mais como ansiolíticos ou antidepressivos”, explica, acrescentando: “As pessoas hoje têm muita dificuldade em estarem sós, bem consigo mesmas antes de partilharem a sua intimidade. Partem para encontros para não estarem sós ou para terem experiências sexuais.

Há um novo código de conduta?

Ainda faz sentido existir a ideia de que o homem deve dar o primeiro passo ou até pagar a primeira conta ou será que tudo isto faz cada vez menos sentido? Maria do Carmo Cordeiro acredita que faz “cada vez menos sentido, embora os países latinos sejam os últimos a mudarem de mentalidade”.

Já para Jorge Gravanita, é importante perceber que estamos perante estereótipos e é nesta lógica que tudo tem de ser analisado. “Há já muitos anos que este tipo de estereótipos não são usados por todos. Os estereótipos funcionam sempre um bocadinho na lógica do desconhecimento e vão perdendo força à medida que as pessoas têm mais informação e assim mais conhecimento”.

Também no trabalho muito tem mudado na convivência entre homens e mulheres. Com o tema do assédio sexual a ser cada vez mais discutido, existem novas realidades. Entrar num elevador com uma colega do trabalho, dizer um piropo ou dar boleia à nova colega pode trazer problemas. Para a maioria dos portugueses são situações normais, mas em países como a Suécia, Brasil ou EUA poderia ser o necessário para que se seja chamado aos Recursos Humanos. No Brasil, por exemplo, há empresas que proíbem cumprimentar colegas com beijos ou abraços.

Ex-casais devem cortar relações?

E quando uma relação acaba? A tecnologia permite sabermos muito da vida dos outros, sem termos contacto direto. Neste sentido, os ex-casais devem cortar ou não ligações nas redes sociais? No entender de Maria do Carmo Cordeiro, “tudo depende do caso. É como na vida. Faz falta o bom senso e a autoproteção quando se elabora uma separação. Não se ganha muito em se manter contacto, se é necessária a distância”.

Também Jorge Gravanita defende que as pessoas devem ter em conta a importância da “higiene mental”. “Na vida há coisas saudáveis e outras menos saudáveis e é importante saber fazer a separação. Manter um vínculo com o passado pode não ser nada saudável porque pode servir apenas como uma forma de alimentar fantasmas”.

Para o psicólogo, é ainda importante relembrar que existem casos mais graves, mas que aconteceriam mesmo sem as redes sociais. “Há um lado patológico que pode fazer com que as pessoas continuem ligadas ao passado. Espionar a vida do outro ou até mesmo a perseguição são situações que têm a ver com casos mais graves. Mas aconteciam mesmo quando não havia tecnologia. Havia sempre forma de arranjar informação, nem que fosse perguntar às vizinhas”.

Há mais frustração na falha?

No geral, todas estas plataformas têm feito com que haja mais frustração quando alguém não arranja companheiro/a ou, por outro lado, trouxe mais liberdade e assistimos a uma mudança de mentalidade?

Para Jorge Gravanita, “a partir do momento em que introduzimos a ideia de facilidade é normal que apareça a frustração quando não funciona. Mas é importante não esquecer o que está na base de tudo”. Para o psicólogo é necessário ter em mente fenómenos de compensação como o transtorno compulsivo por compras. Os consumidores apostam nas compras como forma de obter alívio de emoções negativas. “É o mesmo que estar infeliz e ir ao supermercado comprar tudo com a ilusão de que vou deixar de me sentir tão mal. Não funciona. Vou continuar infeliz. Marcar encontros com diferentes pessoas não ajuda a ultrapassar a frustração”.

Também Maria do Carmo Cordeiro garante que “pode haver mais frustração no sentido em que os encontros estão muito facilitados. Se alguém não tem companheiro/a pode sentir-se frustrado. Até parece que toda a gente arranja, mas resta saber de que companheiro/a estamos a falar. Acho que aí é que reside a questão”.

Porque há tantos divórcios?

Temos tido cada vez mais divórcios. O que se passa? As pessoas têm perdido capacidade de se relacionarem umas com as outras?

“Haverá menos dificuldade em assumir que há problemas inultrapassáveis no casamento, mais liberdade, menos preconceitos, mais igualdade de decisão entre homens e mulheres. Mas, há, também, menos tolerância”, sublinha Maria do Carmo Cordeiro.

Por outro lado, Jorge Gravanita refere que “é verdade que a exposição às novas tecnologias pode ser disruptiva para os relacionamentos tradicionais”. Mas é preciso não esquecer que o mais importante é o laço que temos uns com os outros e a força que tem. “A questão é perceber se os laços são ou não vulneráveis a um telefonema, uma mensagem ou a uma rede social. Além disso, será que conseguimos mesmo construir um laço social nestas plataformas ou redes sociais?”.

E será que são mesmo os opostos que se atraem ou é o que leva ao fim de uma relação? Maria do Carmo Cordeiro entende que “as pessoas diferentes podem sentir-se complementadas numa primeira fase. Faz sentido”. Uma ideia que Jorge Gravanita também defende ainda que alerte para o facto de “o semelhante levar sempre ao ódio” ou “repúdio”.

Precisamos de um guia no amor?

Há cada vez mais empresas e aplicações que prometem ‘ajudar a encontrar o amor’. Também há cada vez mais quem recorra a esta ‘ajuda’. O que explica isto?

De acordo com Maria do Carmo Cordeiro, falamos, sobretudo, de “um bom negócio. Se se encontra ou não” será sempre uma outra questão. Ainda que seja inquestionável, de acordo com a psicóloga, que se possam sempre encontrar “eventuais parceiros”. E há um bom motivo para tanta procura: “Há mais receio da solidão”.

Também Jorge Gravanita defende que “há uma falta de amor enorme e isso faz com que cada um procure com os recursos que tem”. “A emoção é a nossa forma de comunicar e, havendo uma grande dificuldade em lidar com sentimentos, temos uma crise de inteligência emocional. As pessoas não sabem comunicar umas com as outras e as redes sociais dão o automatismo. Mas também diminuem a função própria. Tudo o que é mais subjetivo tem de ficar para trás”, defende ainda o psicólogo.

“Tudo é mais fácil e também mais rápido, a vida é agora porque o mundo pode acabar amanhã. Vemos isso no imaginário coletivo dos filmes de extermínio/invasão terrestre”, defende ainda Maria do Carmo Cordeiro.

 

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