26/9/18
 
 
Luís Menezes Leitão 17/04/2018
Luís Menezes Leitão

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O ataque à Síria

Por mais cruel que seja Assad, tornou-se evidente que o Ocidente já não deseja o seu derrube ou interviria a sério no regime sírio, mandando tropas. Um ataque isolado serve apenas operações de propaganda, distraindo os americanos sobre a influência da Rússia na eleição de Donald Trump, os ingleses do colapso das negociações do Brexit e os franceses da reforma da segurança social de Macro

Os Estados Unidos, com o apoio do Reino Unido e da França, decidiram punir Bashar al-Assad pelo uso de armas químicas contra o seu povo, desencadeando consequentemente um ataque à Síria. O ataque ficou-se, porém, pelo lançamento de 110 mísseis, que apenas destruíram três instalações usadas para o fabrico de armas químicas. É manifesto que ou o ataque foi muito limitado ou grande parte dos mísseis terá falhado o seu objectivo. Tal parece confirmar a informação da Rússia de que teria instalado um sistema antimíssil que terá desviado cerca de 70% dos tais mísseis que Trump proclamava serem novos, lindos e “inteligentes”. E, de facto, Assad não pareceu muito incomodado com o ataque e os seus apoiantes até festejaram nas ruas de Damasco.

Trump proclamou no Twitter “Mission Accomplished” e considerou que não poderia ter havido um resultado melhor na operação, anunciando que, em consequência, não haveria mais ataques. Mas esta operação pareceu mais uma manobra de propaganda, a fazer lembrar o filme de Barry Levinson “Wag the Dog”, de 1997, que em português ficou conhecido pelo nome de “Manobras na Casa Branca”. Nesse filme, um presidente americano envolvido num escândalo sexual desencadeava uma guerra contra a Albânia com base em acusações de crimes de guerra nesse país que não passavam de filmagens montadas em estúdios de televisão. O povo americano, escandalizado com a relatada violência sobre a população albanesa, adere a essa guerra e esquece-se do escândalo que atingia o seu presidente.

Em 1998, completamente envolvido no escândalo Monica Lewinski, o presidente norte-americano Bill Clinton ordenou um ataque em que foram utilizados entre 75 e 100 mísseis contra seis alvos no Afeganistão e um no Sudão. No Afeganistão foram atacados campos de treino de terroristas de Osama bin Laden, e no Sudão uma fábrica de armas químicas. Apesar de Bill Clinton ter informado que pretendia atingir os terroristas com o seu ataque, a verdade é que imediatamente foi confrontado pelos jornalistas se aquilo não era uma nova versão do filme “Wag the Dog”. E, na verdade, Osama bin Laden também não foi minimamente afectado, tanto assim que três anos depois desencadeou o 11 de Setembro, o mais brutal ataque de sempre aos Estados Unidos. Apenas em 2011, já na presidência de Obama, Osama bin Laden foi morto num raide ao Paquistão que, naturalmente, envolveu tropas e não mísseis.

Face a isto, parece evidente que um ataque com mísseis à distância não terá qualquer influência no conflito sírio e muito menos vai conseguir destruir o regime sanguinário de Assad que, aliás, se viesse a cair, poderia ser substituído pelo regime ainda pior do Daesh. Por mais cruel e brutal que esteja a ser Assad, tornou-se evidente que o Ocidente já não deseja o seu derrube, ou interviria a sério no conflito sírio, mandando tropas para o terreno. Assim, um ataque isolado deste tipo serve apenas operações de propaganda, distraindo os americanos das investigações sobre a influência da Rússia na eleição de Donald Trump, os ingleses do colapso das negociações do Brexit e os franceses da reforma da segurança social de Macron. Aliás, não é por acaso que todos os parlamentos foram deixados de fora desta intervenção militar, ao contrário do que as regras democráticas impõem. Quando um governante já não tem condições para explicar os fracassos da sua política interna, não há nada melhor que desencadear uma guerra no estrangeiro, disparando uns mísseis para um destino distante.

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