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Programar desde pequenino. Trocar os bits e o Java por miúdos

Programar desde pequenino. Trocar os bits e o Java por miúdos

Bruno Gonçalves Beatriz Dias Coelho 16/04/2018 21:21

A programação de computadores pode ser difícil, mas ninguém duvida de que é uma das áreas do futuro. O i foi conhecer a escola Happy Code, que está empenhada em abrir a porta desse mundo 
a crianças e adolescentes

O ponteiro marca poucos minutos depois das quatro e meia. A aula já devia ter começado, mas há um aluno que ainda não chegou. “Vêm diretos dos colégios e às vezes atrasam-se”, justifica à entrada da escola Pedro Teixeira, CEO do projeto Happy Code Portugal. Lá dentro, numa das salas de aula, está o professor Rodrigo Bernardino – com 20 anos e ainda a acabar o curso de Sistemas de Informação –, acompanhado por três dos quatro alunos a quem vai hoje dar a aula de Programação e Desenvolvimento de Jogos. Na parede, uma frase de Tim Cook, um dos gigantes da programação, procura inspirar quem chega: “A programação deveria ser uma segunda língua, ensinada a todas as crianças”.

Cada aluno tem o seu computador e é nele que, numa plataforma própria, tem a tarefa de criar o seu próprio jogo. “Eu defino a história do jogo e os dois primeiros níveis têm orientações obrigatórias que eles têm de seguir, mas depois o terceiro nível já é livre e os alunos podem fazer o que quiserem, apesar de ter de ser uma continuidade do anterior”, explica o professor, com a sua camisola verde alface com a inscrição Happy Code. Ainda assim, os miúdos têm liberdade para escolher a paleta de cores do jogo ou o tipo de letra.

Leonardo Catemario, o aluno que estava atrasado, chega entretanto e a aula começa. Tem oito anos e tanto fala em português como em inglês – Pedro Teixeira explica que muitos dos alunos desta escola são estrangeiros e que isso se deve ao facto de, na zona de Campo de Ourique, onde estão situados, existirem vários colégios estrangeiros. Os nomes da pequena turma fazem jus a isso. Ao lado de Leonardo está Arthur de L’Hermite, de oito anos, e à sua frente Thea Jombart, também com oito anos e Nora Ligonniere, com apenas sete. Todos têm a mesma opinião: adoram frequentar as aulas e querem continuar.

O enredo do jogo é simples, explica Thea: o protagonista, que se assemelha a um pássaro, vai saltando de bloco em bloco. Tem três vidas e, quando se defronta com um inimigo, tem de o matar. No fim de cada nível, um portal dá entrada no nível seguinte. Na aula em causa, um dos objetivos é diminuir a velocidade dos inimigos – algo que estes programadores de palmo e meio conseguem fazer sozinhos, seguindo as indicações do professor.

Porquê código? Pedro teve a ideia de criar a Happy Code por causa de um dos seus filhos, que gosta muito de tecnologia. Apercebeu-se de que havia uma oportunidade no mercado, uma vez que, quando começou a pensar o projeto, há três anos, não havia nenhuma empresa a ensinar código às crianças e aos adolescentes. A Happy Code acabou por ser lançada em fevereiro de 2017, com uma metodologia de ensino baseada no conceito STEAM (“Science, Technology, Engineering, Arts and Math”). A primeira escola foi a de Campo de Ourique, mas entretanto a empresa já se espalhou um pouco por todo o país e conta atualmente com sete espaços.

O sucesso do projeto, para Pedro, é prova de que a programação é o futuro e que as crianças estão cada vez mais viradas para a tecnologia e querem saber como se faz. Mas a programação não é uma área fácil, por isso, por aqui, o ensino é feito com turmas pequenas, para que os professores acompanhem melhor cada criança e tem uma forte componente lúdica. “Se for só código, como é nas faculdades, para as crianças é chato. No entanto, se aliarmos a parte lúdica, torna-se divertido e estão a aprender ao mesmo tempo que brincam”, descreve o responsável. A receita parece funcionar: “Temos crianças que acordam ao sábado às sete da manhã super contentes porque é o dia da Happy Code!”, conta Pedro Teixeira. E porque é preciso ocupar os miúdos nas férias, também há aulas na Happy Code durante as pausas escolares.

Mas porquê código? “Estas aulas de programação não são só para as crianças que querem ser programadoras. Elas nestas aulas estão a aprender raciocínio lógico, estão a desenvolver a criatividade e a aprender a serem persistentes. As aulas obrigam-nas a corrigirem erros e estas competências são base nas crianças e são transversais”, argumenta o CEO.

A happy code Hoje, a Happy Code já não é a única empresa no mercado com este objetivo – existem outras, mais pequenas –, mas é a única que cobre 40% do território nacional. Com um total de 60 professores em todo o país, e em pouco mais de um ano de atividade, a escola já chegou a mais de 1500 alunos entre os sete e os 17 anos.

As aulas prolongam-se por uma hora e meia e são semanais. Quanto aos conteúdos, são adaptados às idades dos alunos e todos se direcionam para a criação de jogos, criação de aplicações e robótica. Nas aulas de criação de aplicações, a partir dos 11 ou 12 anos, “as crianças aprendem a programar aplicações para android em Java, numa plataforma profissional, e as apps depois podem ir para a Play Store. Em seis meses, a turma criou uma aplicação tipo Whatsapp”. As aulas de robótica podem ser frequentadas por crianças a partir dos 10 anos e ensinam-lhes bases de programação, aerodinâmica e eletrónica, com aplicação em drones. 

Mas a Happy Code também vai às escolas. “Temos cerca de 30 parcerias com escolas públicas e privadas e vamos lá dar aulas em regime extracurricular. Em algumas, funcionamos em regime curricular, e cabe-nos ensinar informática”, explica o CEO. 

A programação de computadores não faz parte do plano curricular obrigatório nas escolas portuguesas mas, assinala Pedro Teixeira, isso vai mudar em breve. “Portugal, mesmo em contexto mundial e europeu, está bastante bem a este nível. O Ministério da Educação já fez saber que, no próximo ano letivo, vai avançar com aulas de programação obrigatórias no primeiro ciclo. Claro que não é para todos os anos, claro que não é com conteúdos alargados para todos os anos, mas já há essa intenção e isso é bom por si só”, acredita. 

Fazer a diferença As mensalidades dos cursos estão fixadas nos 60 euros, o que impede a frequência de muitas crianças. “Acreditamos que a área da programação não é só para quem tem mais dinheiro. Deve ser para todos, no nosso entender. E cada vez mais queremos ter esta abordagem social, não queremos que apenas as crianças cujos pais têm possibilidade aprendam programação”, defende o criador da empresa. Com essa visão, a escola vai começar a fazer workshops abertos a essas crianças. Os primeiros vão incidir sobre a criação de aplicações.

E se é um facto que a programação atrai mais homens do que mulheres, a Happy Code também quer mudar isso. “É uma tendência também a nível de faculdade e a nível profissional”, nota o CEO. Em conjunto com a Vodafone, e ao abrigo do programa mundial Girls in STEM – que quer combater a disparidade de género nas profissões tecnológicas e digitais – a Happy Code deu, em 2017, aulas de programação a 23 alunas da Escola Secundária D. Filipa de Lencastre, em Lisboa. A experiência foi tão positiva que vai ser repetida nos próximos meses. “A primeira linguagem de programação foi inventada por uma mulher, Jean E. Sammet. Queremos mostrar que todos podem programar”, remata Pedro Teixeira. 

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