24/9/18
 
 
Carlos Carreiras 04/04/2018
Carlos Carreiras

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Trabalhar pela cultura

A cultura em Portugal não será nem mais forte nem mais democrática enquanto forem entidades como a DGArtes, com critérios que não se conhecem e que não são explicados, a decidir “quem, quando e onde” recebe os apoios do Estado

1. Há uma companhia de teatro que tem peças em palco, ininterruptamente, há 52 anos – o maior período no país e na Europa. Há uma companhia de teatro que tem sido a casa de nomes consagrados da arte como Amélia Rey Colaço, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Mário Viegas, Santos Manuel, Mirita Casimiro, Ana Paula ou, mais recentemente, Ruy de Carvalho, Lia Gama, Manuel Cavaco. Há uma companhia de teatro que tem lançado e formado nomes como Alexandra Lencastre, José Wallenstein ou Diogo Infante, que tem uma escola de teatro de onde têm emergido dezenas de talentos nacionais, que vai ter uma nova casa e um novo palco, que tem salas cheias e é acarinhada pelo seu público. Este é o Teatro Experimental de Cascais (TEC). E apesar do seu presente e futuro, já para não falar na sua história, o TEC não tem da burocracia do Estado o reconhecimento que o público lhe tem dado. Desse público faz parte, há muitos anos, o Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa, no último Dia Mundial do Teatro, agraciou o TEC como Membro Honorário da Ordem de Mérito. Mas nas folhas de excel dos burocratas da DGArtes não há fórmulas para o mérito, para o talento ou para as salas cheias. Há contas de somar e subtrair e há distribuição de migalhas pelo país a fazer. 

Excluído do concurso ao Programa de Apoio Sustentado da DGArtes para o período 2018-2021, o suporte de vida para muitas companhias em todo o país, o TEC foi vítima de uma injustiça tremenda.

Carlos Avilez, diretor do TEC e homem com 62 anos de dedicação ao teatro acabados de comemorar, não podia ser mais claro: com ou sem subsídios, as companhias estão a ser alvo de um dos maiores ataques ao teatro em Portugal. E a questão nem é a de ter ou não ter apoio: é uma questão de critério. Para que as escolhas não fiquem nas mãos e nos interesses de uma burocracia não escrutinada, o país exige que se justifiquem as escolhas e se explique como é que elas contribuem para uma estratégia política para a cultura que fomente as artes, reforce a identidade nacional e projete socialmente o país dentro e fora de portas – coisa que manifestamente não se viu através dos resultados publicados pela DGArtes. Eles cometeram a proeza de unir a classe num movimento de contestação que vai de norte a sul.

Quando confrontado com as notícias, eu próprio tomei a iniciativa de pedir a intervenção direta do primeiro-ministro e do ministro da Cultura. Por maiores que sejam as diferenças (politicas) entre nós, une-nos a vontade de ter no país uma cultura mais forte e democrática. E, lamento, a cultura em Portugal não será nem mais forte nem mais democrática enquanto forem entidades como a DGArtes, com critérios que não se conhecem e que não são explicados, a decidir “quem, quando e onde” recebe os apoios do Estado. Isso, sim, influencia decisivamente a orientação da política cultural do país.

O garrote financeiro ao teatro é claramente um anacronismo. Há pelo menos três anos que o país entrou num período pós-austeridade e que vive, nas palavras dos próprios governantes, uma situação económica de exceção. Se é a cultura a primeira a sofrer nos tempos de austeridade, é da mais elementar justiça que seja a cultura a primeira a colher nos tempos de prosperidade.

Os sinais apontam para um reforço das verbas e para uma sensata abertura do ministro Luís Filipe Castro Mendes para “repensar o modelo” do concurso. Espero e desejo, até por declarações do ministro da Cultura, que o pecado original seja ultrapassado. O TEC não pode ser alvo de uma dupla injustiça. 

Cascais continuará atenta. E nunca, em circunstância alguma, deixará cair o TEC. Porque o TEC traz Cascais no nome mas é verdadeiramente do país. Instado pelo Parlamento a cortar no orçamento da cultura para financiar o esforço de guerra no auge da ii Guerra Mundial, Winston Churchill terá respondido: “Então, senhores, por que razão lutamos?” Portugal já passou a crise. É tempo de enterrar o machado de guerra orçamental contra a cultura. Para dar significado à nossa luta. 

2. O nome verdadeiro é Forte de Santo António da Barra. Mas o nome do santo deu lugar ao de Salazar porque era ali, em cima do Atlântico, que o ditador passava férias. Aconteceu que foi ali que um dia caiu da cadeira. Paradoxalmente, a ditadura começou a abrir brechas numa fortificação.

Após outros usos e volvidos anos de abandono injustificável, o Forte de Santo António está a ser recuperado pela Câmara de Cascais ao abrigo de um acordo celebrado com o governo, num primeiro passo para a descentralização em matéria de património cultural. Enquanto os trabalhos de limpeza decorrem, ficou já acertada a data de abertura ao público: pela primeira vez na sua história, o forte abrirá portas ao povo no dia 25 de abril. Não podia ser mais simbólico.
O processo de transição do Forte de Santo António está a ser tão bem-sucedido que, como o “Sol” noticiou na sua última edição, o entendimento entre o governo e a Câmara de Cascais pode ir mais longe. Feito o levantamento de todo o património do Estado em Cascais, o governo e a autarquia têm disponibilidades simétricas: o primeiro está disponível para aprofundar os mecanismos de descentralização; a segunda, para receber essas competências em matéria de defesa do património de todos.

As próximas semanas podem trazer novidades. Com resiliência, lá chegará o dia em que todo o nosso edificado histórico estará recuperado. Até lá, cumpre-nos continuar a trabalhar.

Escreve à quarta-feira

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