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Noite. O porteiro da fantasia

Noite. O porteiro da fantasia

Luísa Ferreira Davide Pinheiro 27/03/2018 12:42

A história de Manuel Reis confunde-se com a da noite de Lisboa como a conhecemos. Provocadora, excessiva e até proibida. Fundou o Frágil, a catedral noturna do Bairro Alto e ponto de encontro da movida cultural nos anos 80. No final dos anos 90 transferiu a fantasia para o Lux Frágil, já não um templo noturno da cidade, mas de toda a Europa. Em Santa Apolónia, o amanhã nunca esteve longe demais da noite. Em 2016, ano da maioridade do Lux, abriu o Rive Rouge no Time Out Market Lisboa

Em entrevista ao suplemento “B,I.” do “Sol”, DJ Vibe reclamava que “a noite é tudo aquilo que não se é durante a semana”. A noite enquanto horário de escape, fantasia ou libertação sempre existiu na clandestinidade, mas foi no Frágil que as portas se abriram à história oficial. O visionário: Manuel Reis, um antigo comissário de terra da TAP.

O Frágil ocupou os espaços deixados vagos pela Padaria de São Roque e Tasca da Gaivota no Bairro Alto. Por ali passaram algumas das figuras maiores da cultura e intelectualidade. Artistas plásticos, músicos, atores, jornalistas, escritores e fotógrafos compunham uma visão agitadora sobre o bairro e a própria cidade. De resto, Manuel Reis nunca fixou o olhar apenas no ócio noturno e sempre viu o Frágil como um espaço de intervenção cultural onde pudessem conviver diferentes manifestações e correntes criativas. Por ali, tanto podiam encontrar-se António Variações e Miguel Esteves Cardoso como Rui Reininho, Anamar, Alexandra Lencastre, João Botelho, Zé da Guiné ou Hernâni Miguel. Para ter acesso era necessário passar pelo crivo da “Guida Gorda”, a Margarida Martins, hoje presidente da Junta de Freguesia de Arroios. “Era um lugar onde qualquer coisa virava um acontecimento, onde tudo era especial. O Manuel Reis foi um homem que investiu na cultura em Portugal. Passava-se tudo ali: eu fiz um casamento à porta do Frágil. E ainda estão casados e têm três filhos”, recordava a porteira ao “Sol”.

Já a futura empresária d’A Vida Portuguesa Catarina Portas recordava “a primeira de todas as outras noites que se seguiram em data”. Com 16 anos, era a única discoteca onde podia entrar. Os pais, Margarida Maria Gomes de Sousa Lobo e Nuno Portas, conheciam o dono.

“Eu quero ir ao Frágil sexta-feira/ Eu quero ser amigo da Porteira/ Eu quero vir na capa das revistas/ Quero andar nos copos com os artistas”, observava Manuel João Vieira em “Baum” no álbum inaugural dos Ena Pá 2000, em 1992, mas antes já Jorge Palma eternizara o refrão “Frágil/ esta noite estou tão frágil”, relembrando noites sem cama nem chão até à hora do sol nascente.

Manuel Reis não se limitou a fazer do Frágil o albergue noturno da transformação que os anos 80 prometiam e cumpririam. Mostrou o trabalho de uma geração emergente de criadores de moda, arquitetos e designers.

O Frágil lançou as bases para uma nova fantasia noturna que discotecas como o Alcântara-Mar e o Kremlin, em Alcântara, haveriam de prolongar noite dentro, absorvendo novas correntes musicais como o house, o techno e o acid. E quando os skinheads e os dealers fragilizaram o ambiente do Bairro Alto – onde Manuel Reis abrira entretanto o Pap’Açorda –, a festa azedou.

Imediatamente após o fim da Expo 98, o Lux Frágil elevou a fasquia em relação ao seu antecessor. Se o Frágil era obrigatório na cidade, o Lux entrou diretamente para os roteiros europeus. Há quem diga que a exposição mundial, a discoteca e, ainda antes, a Lisboa, Capital Europeia da Cultura 1994 lançaram as primeiras pedras sobre a cidade cosmopolita em que cruzeiros fazem fila e os turistas querem ser habitantes.

Essa dinâmica de final de milénio amplificou-se com a inauguração do metropolitano da Baixa-Chiado e a abertura ao exterior – manifestada desde os programas Erasmus aos voos low-cost e comboios Interail –, globalizada pela era digital, que mudaram o rosto da cidade. E a Lisboa cinzenta, hermética e burocrata deu lugar a uma cidade mais parecida com o ideal de Manuel Reis.

Desde 1998, o Lux esteve sempre lá a emitir sinais de mudança, a anunciar a novidade ou simplesmente a servir de recreio à luxúria e ao impossível. Teve John Malkovich como sócio, recebeu Prince num concerto pós-Pavilhão Atlântico, foi tubo de ensaio dos 2 Many DJs, teve Joana Vasconcelos na porta, abriu as portas para um tal Vhils intervir na parte de vídeo com apenas 20 anos e recebeu quase toda a gente importante da cena eletrónica, não esquecendo a importância para DJ’s, músicos e artistas portugueses que o frequentaram, no palco ou como clientes. O hedonismo natural da extravagância noturna nunca canibalizou a fertilidade criativa. Nem a vontade de agitar a cidade. E o Lux prolongou-se no tempo e no espaço. Inspirou outras programações aventureiras, desde a Galeria Zé dos Bois ao Musicbox e ao Ministerium. Até o primeiro casamento homossexual, do designer Ricardo Mealha, foi lá – a 21 de dezembro de 2009, antes de a lei que aprovava casamentos entre pessoas do mesmo género ser aprovada.

Em 2016, ano da maioridade do Lux – a inauguração foi a 29 de setembro de 1998 – abriu o Rive Rouge, paredes-meias com o Pap’Açorda, no antigo Mercado da Ribeira, reconvertido em Time Out Market Lisboa. Um espaço à imagem do bar do Lux com alguns dos DJ residentes e da programação regular do clube de Santa Apolónia.

No ano em que o Lux passa a ser Luxx por longevidade, o homem que lhe deu a visão parte. E agora let’s dance porque a vida é toda para diante.

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