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Rogério Colaço 27/03/2018
Rogério Colaço


"Não foi por falta de pedras que acabou a Idade da Pedra"

É ao cimento que se deve a possibilidade de construir milhões de habitações não precárias e de abrir milhares de quilómetros de vias de transporte que melhoraram as condições de vida e aproximaram milhões de habitantes do planeta

No discurso de agradecimento da recente atribuição do grau de doutor honoris causa pela Universidade de Lisboa, António Guterres proferiu a frase que dá titulo a esta crónica. Esta frase, não obstante o seu evidente significado metafórico, merece ser revisitada sob o seu significado literal, isto é, na perspetiva da ciência e engenharia de materiais.

A Idade da Pedra corresponde ao primeiro período de desenvolvimento da humanidade, que terminou há cerca de 10 mil anos atrás. Durante este período, de muitas dezenas de milhares de anos, para além da pedra, o homem usou também outros materiais, nomeadamente argilas, madeira e fibras vegetais. Na verdade, teria sido mais correto designar esta era por “idade dos materiais naturais”, mas Idade da Pedra cumpre bem a função: identificar um determinado período da humanidade, e o mais fácil é fazê-lo pelo material mais determinante nesse período. 

À Idade da Pedra seguiu-se a Idade do Cobre (o Calcolítico) e a Idade do Bronze. Estas eras designam o período entre 8000 e 1000 a.C. Como bem disse Guterres, as eras que se seguiram à Idade da Pedra não resultaram da escassez de pedras. Tão-pouco o homem deixou de usar a pedra: veja-se, por exemplo, o setor da pedra ornamental, que tem atualmente uma forte endogeneização de tecnologias de ponta, bem como um significativo impacto na economia nacional. A passagem da pedra para o bronze deveu--se a outro facto. Há 10 mil anos ocorreu um desenvolvimento gigantesco na tecnologia humana: a invenção da metalurgia. Este salto tecnológico permitiu a produção de todo um conjunto de utensílios que abriram novas e vastas possibilidades de desenvolvimento que nunca antes haviam existido.

Cerca de 1000 a.C. surgiu uma nova era, correspondente a um novo salto tecnológico da humanidade: a Idade do Ferro. O ferro é a base do aço, mas a sua metalurgia é significativamente mais complexa do que a do bronze, porque este elemento ocorre na natureza na forma oxidada, tendo de ser processado (reduzido) até se obter o metal. Cerca de 2700 anos depois do início da Idade do Ferro, a capacidade de produção de aço em larga escala, que ocorreu durante a Revolução Industrial, permitiu um novo salto de desenvolvimento: linhas férreas, edifícios de grandes dimensões, pontes suspensas, navios transatlânticos e máquinas diversas tornaram--se possíveis desde então.

Mas foi no séc. xx que ocorreram os mais significativos desenvolvimentos na tecnologia de materiais, no mais curto intervalo de tempo da história da humanidade. Os desenvolvimentos ocorridos no séc. xx foram tantos e de tal forma impactantes no nosso atual modo de vida que seria impossível descrevê-los exaustivamente. Mas vale a pena dar exemplos de alguns materiais, desenvolvidos nos últimos 100 anos, que revolucionaram o nosso modo de vida pelo menos tanto como tudo o que aconteceu nos 10 mil anos anteriores. 

O primeiro exemplo é o cimento. Apesar de inventado ainda no séc. xix, foi apenas no séc. xx que se conseguiu produzir massivamente este extraordinário material. É ao cimento que se deve a possibilidade de construir milhões de habitações não precárias e de abrir milhares de quilómetros de vias de transporte que melhoraram as condições de vida e aproximaram milhões de habitantes do planeta. A humanidade vive melhor do que sempre graças ao cimento.

O segundo exemplo são os polímeros (de que fazem parte os injustamente mal--amados plásticos). Inventados no início do séc. xx, os polímeros revolucionaram os bens de consumo, tornando-os acessíveis a todas as classes sociais. Automóveis, computadores, telemóveis e muitas outras coisas corriqueiras no nosso dia-a-dia estariam apenas ao alcance de uma diminuta franja da população se não fossem os polímeros. Claro que o problema do impacto ambiental destes materiais é premente, mas existem soluções cuja implementação depende sobretudo de decisões políticas, e não de falta de tecnologia.

O terceiro exemplo é o silício. Sem a tecnologia de produção e miniaturização de semicondutores produzidos à base de silício, desenvolvida a partir de meados do séc. xx, não haveria hoje, entre muitas outras coisas, os computadores, a internet ou os telemóveis que temos. O impacto do silício é de tal forma profundo na nossa sociedade atual que teremos de lhe dedicar uma crónica futura.

Talvez fizesse, pois, sentido dizer que à Idade do Ferro se seguiu a “idade do cimento, silício e polímeros, entre outros”. Mas mais interessante do que o exercício de batizar a era em que vivemos é o exercício de perspetivar o futuro. Quais serão os materiais que mais irão influenciar a humanidade nos próximos 100 anos? 

Não é, naturalmente, possível responder a esta questão. Mas ficam dois exemplos de áreas em que, muito provavelmente, ocorrerão desenvolvimentos significativos nos próximos anos. O primeiro é o armazenamento e transporte de energia. Neste campo, novos materiais para baterias com melhor desempenho e para uma condução elétrica mais eficiente permitirão desenvolvimentos com significativo impacto social. O segundo é a permanente necessidade sentida pelo homem de construir estruturas mais leves, mais resistentes e mais altas. Aí será, muito provavelmente, preponderante a tecnologia dos materiais à base de carbono, nomeadamente o grafeno e os nanotubos, desde que consigamos desenvolver tecnologia para os produzir massivamente.

Este caminho que a humanidade percorreu desde a Idade da Pedra não ocorreu, efetivamente, por se terem acabado as pedras. Ocorreu devido à infinita curiosidade da espécie humana e à sua ânsia de criar e melhorar permanentemente as suas condições de vida.


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